Um conflito intradinástico
Na erudita interpretação que Kathrin Rosenfield (
Antígona - de Sófocles a Hölderlin, P.Alegre, 2000) faz da tragédia "Antígona" (a partir da tradução feita pelo poeta alemão Hölderlin, em 1800), traz uma nova contribuição. Não que ela negue as anteriores acima expostas, mas sim que releva sua atenção para um outro aspecto do embate do tio com a sobrinha - a questão, digamos, genético-dinástica. Creonte, para ela, assume não só o papel do estadista tirânico, querendo ver valer a todo custo um édito seu, mesmo que isso implique no sacrifício de alguém da família real, como também o do pai extremando que procura evitar que o seu filho Hemão viesse a se casar com alguém abominado pelos deuses. Sabendo que Antígona era resultado de um casamento incestuoso, ela, contraindo núpcias com Hemão, faria com que o futuro rebento daquela união, o neto de Creonte, fosse também atingido pela praga que cercara a todos os Labdácidas. Por isso, o rei manifestou-se com tanto ardor. Não se tratava só de política, mas de algo mais profundo, que partia do mundo dos instintos, o pavor de ver seu
genos (estirpe) também poluído. Os gritos possessos de Creonte eram a voz do sangue ameaçado, não uma fala do trono.
Portanto, o extraordinário drama abarca também uma desavença intradinástica, onde a velha estirpe, representada pelo sangue contaminado de Antígona, luta para salvar sua honra de uma família decadente, enquanto uma nova estirpe, que se imagina ainda não poluída, tenta afirmar-se como sucessora legítima da Casa dos Labdácidas. Ambos seriam pois, faces diferentes de uma exigência genética. Uma inteiramente infectada, outra tentando fugir ao contágio.
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