Interpretando "Antígona"
É corrente entre os estudiosos das tragédias gregas que elas serviram, antes de ser um entretenimento, como um estímulo a grandes discussões jurídicas, políticas, filosóficas e existenciais da sociedade grega e, porque não dizer, da humanidade. Antígona é, nesse sentido, uma das que mais longamente prestou-se às mais diversas interpretações políticas e literárias. O filósofo Hegel, por exemplo, considerou-a, longe de ser apenas um enfrentamento entre dois teimosos de cabeça quente, como um modelo do choque existente entre os interesses do Estado representado pelo rei Creonte, frente às Leis Não Escritas, a dikê, a ordem natural e os direitos familiares invocados pela princesa tebana.
O crítico H.D.F.Kitto (A Tragédia Grega, Coimbra, 1972), por sua vez, entendeu que, entre as duas fortes personagens que a dominam, ela é a tragédia de Creonte. A filha de Édipo, atormentada pela crescente infelicidade da sua família, talvez estivesse, ao desafiar a lei, em busca de uma morte gloriosa, solene, auto-sacrificando-se no altar da sua raça em extinção. Sobre ele, porém, é que concentraram-se as responsabilidades ("Ó anciãos, todos vós sois como arqueiros que atiram para este homem como sobre um alvo"). Apesar da peça chamar-se "Antígona", é ele, Creonte, quem domina o cenário. É em torno da sua decisão que é tecida toda a rede de infelicidades.
Príncipe recém-entronado, Creonte tem por objetivo fixar dois princípios: começar uma nova dinastia despoluída, afastada da maldição que cercava os incestuosos Lambácidas e dar uma punição exemplar aos que viessem de alguma forma desafiar a sua autoridade, pela desobediência ou pela rebeldia. Como ele fez ao emparedar Antígona, ou ainda deixando Polinices insepulto. Gradativamente, por mostrar-se obcecado em afirmar-se como tirano, todos dele se afastam. O filho, o mago Tirésias e, por fim, a própria esposa. Na verdade, pode-se considerar a peça como uma notável exposição sobre a solidão do poder e o gigantesco preço que um estadista é obrigado, por vezes, a pagar por ter tomado uma decisão que ele considerava acertada.
Albin Lesky (La tragedia griega, Barcelona, 1970), entrementes, não acredita num embate entre o Estado e a Família, mas que tudo deriva da maldade e mesmo crueldade de Creonte, que age como se fosse um possesso, quase se deliciando com o poder que dispõe de fazer executar a sua vontade inquestionável. É de se considerar também que ele descarregou sobre Antígona uma vingança que ele não pôde executar sobre os filhos de Édipo, que, naquela altura já estavam mortos, pois, afinal, foi a luta fratricida que fez com que Creonte perdesse um dos seus filhos, dado em sacrifício para o bem da cidade.
Para a dupla J-P.Vernant & Vidal-Naquet (Mito e Tragédia na Grécia Antiga, S.Paulo, 1977) a grande tragédia de Sófocles não trata só da maldade de Creonte ou da coragem de Antígona, nem mesmo um conflito que opõe o espírito político do rei, oposto ao espirito religioso da filha de Édipo, mas sim um embate, insolúvel, entre "dois tipos de religiosidade", de "dois domínios da vida religiosa":
| Antígona | Creonte |
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Representante da religião familiar, puramente privada, limitada ao círculo estreito dos parentes próximos, ao philoi, centrada no lar familiar e nos mortos, a qual ela deve obrigações impostergáveis, sem possibilidade de transigir.
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Representante da religião pública onde os deuses da cidades tendem finalmente a confundir-se com os valores supremos do Estado. O magistrado supremo tem o dever de fazer respeitar seu Krátos (governo) e a lei que proclamou. |
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