Enfrentando o Tirano
"Ele não tem direito a impedir os meus deveres sagrados."
(Antígona,10)
 Um dama da nobreza grega |
Novamente os sentinelas expõem o morto ao sol e, outra vez, Antígona vem-lhe prestar os favores de um velório. Detida, ela é conduzida ao rei. A princesa não se desculpa. Ao contrário, depois de ter iniciado no interrogatório cabisbaixa, lança no rosto de Creonte que nenhuma lei humana ou real poderia detê-la naquele seu ato de obediência aos desígnios bem mais profundos. Aqueles que obrigam um parente a dar sepultura a um dos seus. Possesso, o rei ordena que a emparedem, que a sepultem viva. Da boca de Antígona, tomada por um volúpia orgulhosa, quase suicida, não sai nenhum apelo de comiseração ou perdão.
Tudo indica que Creonte passa a ver na eliminação da filha de Édipo (a sentença também atinge a inocente Ismena) uma maneira de despoluir o reino de Tebas dos derradeiros descendentes incestuosos de Laio, e também evitar que Herão, o seu filho sobrevivente, contraia núpcias com Antígona, sua noiva prometida. O filho, por sua vez, se horroriza com a intransigência do pai. Acusa-o abertamente de tirano ("a cidade não pertence a um homem só"), dizendo-lhe que por toda a cidade o gesto de Antígona, tentando enterrar o irmão, é entendido como um gesto nobre. Mas Creonte o repreende, acusando de obedecer a uma mulher ("caráter vil, às ordens de uma mulher"), Herão, em fúria, decepcionado, atendendo mais aos reclamos de Afrodite, a deusa do amor, do que os deuses familiares, rompe com o pai.
A entrevista com o mago
Tirésias, o celebrado adivinho que era cego, vem alertar Creonte dos malefícios da sua atitude. Tendo escutado o pio das aves e interpretado os agouros (a gordura dos pássaros sacrificados não derretera), concluiu ele que "a cidade sofre por tua culpa"..."por lares santos terem sido profanados". Apelou então ao rei que seguisse a rota da prudência. Este, possesso, acusa o mago de interesseiro ("toda a gentalha dos adivinhos é ávida de dinheiro"), enquanto o solene cego responde-lhe que ele está "completamente infectado" pela falta de juízo. Previu então, ao ir se retirando da audiência, que uma grande desgraça estava prestes a abater-se sobre a casa do rei. Novamente só, assustado com as palavras certeiras do profeta, Creonte entregou-se à dúvidas. Atormentava-o agora à solidão do poder. Ninguém mais o apoiava. Quem sabe se haveria ainda um tempo para a remissão? Chama então os guardas e põe-se a caminho. Quer ir libertar Antígona.
Um dilúvio de desgraças
 O guerreiro com elmo, orgulho da raça |
A volta atrás do rei porém deu-se tarde. Chegando ao local, ao ordenar que desemparedassem Antígona, deram com ela morta. A filha de Édito pendia numa corda, enforcara-se. Herão, o noivo, enlouquecido pela dor, desembainhado a espada, tenta estocar o pai, que, assustado, refugia-se do lado de fora do muro caído. O rapaz então, alucinado, volta a ponta da lâmina contra o seu abdômen e deixa-se cair sobre ela, matando-se. Mas o dilúvio da fatalidade que desabou sobre a família do soberano de Tebas não se encerrou ainda ali. Eurídice, a esposa de Creonte, ao saber no palácio da morte do único filho que lhe restara, também decidiu-se se suicidar. O rei, num desespero crescente, toma consciência de que foi sua atitude quem causou aquele infortúnio todo ("Eu fui a causa deles! Fui eu, fui eu, miserável, quem te matou! Reconheço a verdade!"). Meio enlouquecido, pede aos guardas que o carreguem para longe daquelas vistas de gente morta:
"Levai daqui o louco, que, sem querer, filho te matou e também a ti, esposa! Ai, infeliz de mim! Não sei para qual devo olhar, nem onde me apoiarei; porque estão invertidas todas as coisas que podiam servir-me de amparo: sobre a minha cabeça desabou um insuportável destino!."
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