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A tragédia do caráter

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Sófocles
Enquanto seu mestre Ésquilo, a quem Sófocles sucedeu no gosto do público ateniense, apresentava invariavelmente os seus heróis submetidos às leis da fatalidade, esboçadas por deuses implacáveis, esse procurou traçar um cenário diferente para a ação dos seus personagens. Se bem que os deuses continuassem os mesmos, o destino dos heróis de Sófocles deriva bem mais do caráter deles do que do determinismo fatalista. O Agon, o embate, o conflito, que alimenta o seu drama, é antes de tudo um choque de personalidades fortes, claramente definidas e assumidas em quanto tal. Em suma, há sim um poder do além intervindo sistematicamente, mas isso não retira o espaço da liberdade de ação do homem. Interessa observar que destaca-se entre essas personagens fortes, fortíssima até, a jovem filha de Édipo, Antígona. Ela, mesmo sendo mulher, considerada inferior para a maioria dos gregos de então, incorpora os valores altivos e honrados herdados de uma dinastia aristocrática, a dos Labdácidas, e vai à luta para manter os sagrados princípios da sua casta.

A briga dos herdeiros

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Édipo rei, no seu tempo de fausto
Com o exílio de Édipo, seus dois filhos, Etéocles e Poliníces, ainda que amaldiçoados pelo pai, decidem dividir o poder. Combinam entre si que enquanto um assume o trono o outro responde pelo tesouro de Tebas. Ocorre que, transcorrido um tempo, estando a coroa com Etéocles, esse, possuído pelo daimón, pela praga jogada sobre os Labdácidas, nega-se a dar lugar ao irmão. Polinices, irado e magoado, jurando vingança, retira-se então da cidade natal, indo abrigar-se na corte do rei Adastro de Corinto. Lá, o príncipe tebano usurpado casa-se com a filha de rei e esse então jura auxiliar o genro na recuperação do trono tebano. Para tanto, recruta um grupo de príncipes argivos que juram tomar a cidade ou morrer tentando. Cercado os muros de Tebas, a população começa a padecer dos efeitos do sitio até que devido ao sacrifício da vida de Meniceu, o filho de Creonte e primo-irmão de Etéocles e de Polinices, a sorte se inverte. Os atacantes são abatidos e postos em fuga, mas os dois irmãos não sobrevivem. Etéocles, num rápido duelo com Polinices, o mata, não sem antes também se ver varado pela espada do irmão. Dessa forma encerra-se a linhagem masculina dos Labdácidas, só restando da antiga família dos descendentes de Laio e de Édipo, as duas moças.

O Édipo de Creonte

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Um casal grego
No vazio de poder que se dá, quem legitimamente assume como "o senhor do poder e do trono" em Tebas é Creonte, o cunhado de Édipo e tio de seus filhos e filhas. Indignado com a insurreição de Polinices, que voltou-se contra a sua cidade e contra o restante da sua própria família, rebeldia que, inclusive, ceifou a vida de um dos filhos de Creonte, o novo rei determina um castigo exemplar para o jovem príncipe morto: que não seja dado abrigo ao cadáver dele. Que ele reste insepulto, servindo suas carnes putrefatas "como um objeto horrível à vista, para pasto das aves e dos cães". Dessa forma, a alma de Polinices vagaria danada, sequer com direito à baixar ao Hades, a morada dos mortos (*). Já o outro irmão, Etéocles, que morreu em defesa da cidade, mereceria "todas as honras fúnebres, as quais vão para debaixo da terra, para os heróis defuntos". Ai de quem tentasse não respeitar o édito do rei, pois Creonte determinou "que não haja condescendência a respeito dos que desobedecerem", pois a morte seria a paga.

(*) era crença entre os gregos antigo que a alma dos mortos atravessava uma barca, conduzida por Caronte, um barqueiro mal-humorado, a quem convinha agradar fazendo com que se colocasse uma moeda na boca ou na testa do morto. Chegando às margens da mansão do Hades, onde os mortos se concentravam, havia na sua frente o cão Cérbero, que deixava a alma entrar, mas jamais sair.

A reação de Antígona

Logo que chegam a Tebas, as duas irmãs tomam conhecimento do destino infausto dos irmãos como também do édito de Creonte. Desta vez é Antígona quem se indigna. Não poderiam elas, como as últimas familiares restantes do morto, deixar de cumprir com os obrigatórios ritos consumados. Ismena, porém, acha aquilo temerário. Lembra a Antígona que elas descendem de uma dinastia amaldiçoada, onde todo os antepassados ou próximos tiveram morte horrível (Laio, o avô delas, foi morto pelo próprio filho Édipo, que depois arrancou os próprios olhos; Jocasta, simultaneamente, a mãe e avó delas, matou-se, e seus dois irmãos, Etéocles e Polinices, foram-se na voragem do fratricídio). Quem sabe seria melhor acatar as determinações do novo rei, o tio delas? Afinal, pondera, elas são mulheres e ninguém iria cobrar-lhes atitudes viris e temerárias, tal como desafiar a autoridade de Creonte. Antígona, porém, desprezou-a. Para ela, a irmã era covarde, incapaz de sensibilizar-se com as responsabilidades da casta nobre, a que por sangue pertenciam. Na calada da noite, contornando as sentinelas que vigiavam o irmão defunto, ela conseguiu prestar-lhe as homenagens, fazendo as libações e jogando um pouco de terra sobre os seus restos.

Quando um mensageiro traz-lhe a notícia do desrespeito às suas ordens, Creonte, tomado de raiva, acreditou, num primeiro momento, que aquilo devia-se a uma manobra de "cidadãos descontes" que "murmuravam e abanavam a cabeça às escondidas, não conservando dóceis, como deviam, o pescoço sob o jugo", teriam assalariado alguém para praticar aquele ato de provocação ao novo governo.

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