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O parque-jardim de Rousseau, um santuário da filosofia
Profundamente tocado pelas teorias de Jean-Jacques Rousseau sobre a necessidade de o Homem reaproximar-se da Natureza, o marquês de Giradin meteu mãos a obra. Proprietário do belo castelo de Ermenonville, nas proximidades de Paris, tratou de construir, a partir de 1763, um parque-jardim, o primeiro da Europa. Ambicionou uma nova Arcádia mais próxima possível ao modelo idealizado pelo filósofo. Não só isto, em 1778, convidou o próprio Rousseau para passar seus últimos dias na sua companhia desfrutando da magnífica pradaria que circundava a herdade.
Idealizando o parque-jardim
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Jean Jacques Rousseau ( 1712- 1778)
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O jardim, o bom tom, o uso pode ser inglês, francês, chinês. Mas a água, os prados e os bosques, a natureza e a paisagem são de todos os tempos, de todos os países; é por isto, devido a este elo selvagem, todos os homens serão amigos e todas as línguas serão admitidas.
- Marques de Girardin -
O planejamento da ampla reforma da herdade de Ermenonville resultou do notável impacto que as idéias filosóficas de Rousseau, em especial o candente apelo dele para que a sociedade abandonasse a vida artificial, hipócrita e cínica, que levava nas cidades e se voltasse para a Natureza. O marquês de Girardin (1735-1808) era um nobre esclarecido, um simpatizante das teorias fisiocratas que enalteciam as praticas agrícolas racionais e produtivas. Especialmente tocado pela mensagem rousseauniana, assim que herdou o castelo e seus arredores do seu avô, em 1762, decidiu-se por dar um objetivo e um sentido maior à magnífica propriedade. Durante os anos de 1763 até 1776 não mediu esforços por fazer das cercanias de Ermenonville – dominada então por pântanos e florestas sombrias - um local aprazível, condizente e afinado com os ensinamentos do famoso autor do ‘O Contrato Social’.
O parque-jardim, propositadamente, não seguiria a rígida e disciplinada geometria paisagística dos canteiros e fontes do Palácio de Versalhes, estabelecida no século anterior pelo grande André Le Nôtre (1613-1700), obra que o marquês acreditava ser muito convencional (ver o livro de Girardin De la Composition des paysages, ou, des moyens d'embellir la nature autour des habitations, en y joignant l'agreable a l'utile ).
Ele procurou uma síntese dialética que harmonizasse o domínio do homem sobre a natureza ( tese cartesiana e fisiocrata), com a manutenção de um cenário um tanto selvagem e indomado que os bosques e lagos de Ermenonville deveriam continuar a ter.
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O Templo da Filosofia dedicado a M.Montaigne
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A Nova Arcádia devia abrigar momentos pitorescos da atividade social, formados por quadros dedicados às virtudes humanas espalhados ao longo do caminho a ser percorrido no entorno do parque. Era um plano revolucionário, senão que utópico, que propunha a reinserção harmônica do homem no ambiente natural primitivo e a regeneração dele pela restauração de uma sociabilidade historicamente extraviada.
Em inteira consonância com o espírito do que Nietzsche denominou de Século do Entusiasmo, o marquês ambicionava fazer das cercanias do castelo uma área de especulação filosófica ao céu aberto. Algo em total sintonia com os afazeres de Rousseau que adorava recolher-se para sítios ermos para pensar e escrever. Seria como uma academia de letras implantada em meio às matas sem necessitar de bibliotecas, códices, tinta, papel, ou ainda velas e lamparinas. Um ambiente que não causaria estranheza aos discípulos peripatéticos do Liceu de Aristóteles.
A intenção era proporcionar o encontro do promeneur solitaire, o caminhante solitário, com o mundo natural, fator que geraria os frutos mais puros e dignos da reflexão desinteressada. Uma célula viva que deveria servir como exemplo para a unificação futura da humanidade. Tudo voltado para o bem e para o melhor aperfeiçoamento do homem e da sociedade.
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O castelo de Ermenonville, onde Rousseau faleceu em 3 de julho de 1778.
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O pobre Rousseau, já adoentado, pouco usufruiu da gentil hospedagem. Sendo recebido pelo marquês e sua família no dia 20 de maio, faleceu 44 dias depois, em 3 de julho de 1778. Recém completara 66 anos de idade. Foi inumado num lugar especial no Grand Lac do parque-jardim – a Ile des Peupliers - o que não demorou por fazer com que sua tumba virasse centro de romaria dos seus admiradores que vinham de todas as partes prestar suas homenagens ao ‘homem da natureza’. Tudo se alterou com a ascensão dos jacobinos ao poder durante a Revolução de 1789. Em 1794, por determinação da Convenção Nacional dominada por Maximilien Robespierre, um rousseauniano extremado, seus restos mortais foram retirados de Ermenonville e levados para o Panteón de Paris, prédio reservado pela revolução para abrigar as personalidades notáveis da França. Ironicamente, seus restos mortais foram repousar no edifício solene bem ao lado de Voltaire, um dos seus mais contundentes inimigos ideológicos, e que apesar dos seus ossos terem sofrido profanação por ação de contra-revolucionários na época do Termidor, ainda lá se encontram até os nossos dias.
Alguns dos sítios do parque Jean-Jacques Rousseau A gruta das Náiades: Dedicada às divindades antigas protetoras das fontes e dos rios. Ela celebra o crescimento e a fertilidade da natureza. Fábrica emblemática do Iluminismo.
A geleira (Le glacière): Espécie de reservatório para o gelo mantido hermeticamente fechado utilizado somente para aliviar os males das dores e também para fazer sorvetes.
A pradaria arcadiana: Abrigava um conjunto de fábricas rústicas ou ainda algumas grutas, simbolizando, tal como entre os gregos, uma vida simples e feliz. Demonstrava a atenção dada pelo marquês em chamar a atenção para o interesse econômico pela agricultura.
A tumba do filósofo: Situada na ilha dos álamos, a tumba foi obra do escultor Lesuer concebida para abrigar os restos mortais de Rousseau
A mesa das mães: Pitoresco espaço criado à sombra das árvores para que as mães pudessem se encontrar e dialogar sobre a melhor maneira de conduzir seus filhos e demais assuntos pertinentes à maternidade.
O templo da filosofia: Construção dedicada a Michel de Montaigne, cujas colunas referem-se aos grandes nomes do conhecimento moderno. O templo acha-se propositadamente incompleto na medida em que o conhecimento é um processo infindável e ilimitado, podendo alcançar a infinitude das estrelas.
O altar do sonho: Local nas proximidades do lago que segundo Rousseau disse ao marquês, ‘inspirava sonhos
Teatro de Verdure: Um tanto parecido a um anfiteatro ao ar livre reservado às peças e demais festividades.
A ponte da padaria: Ponte rústica construída pelo marquês e que aponta o gosto dele pelas construções ásperas e acidentadas.
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