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Os jovens leões do Futurismo (Parte II)
As fontes metafísicas do FuturismoOs Futuristas se abeberaram em três fontes metafísicas. De Nietzsche veio-lhes o desejo de ‘viver perigosamente’, identificando-se com o culto da energia e da temeridade; da pregação de George Sorel, importaram o desejo de destruir a sociedade burguesa por meio da violência, e das leituras e palestras de Henry Bergson aspiraram a primazia da intuição sobre a razão. Conferencista do College de France, Bergson atraia um publico numeroso e diverso para suas estupendas conferências, as quais foram assistidas por Filippo Marinetti e o poeta modernista Appolinaire.
O ‘élan vital’, força ou impulso vital, o conceito defendido por ele do extraído do darwinismo, exerceu evidente fascínio sobre a platéia e particularmente sobre os Futuristas, pois aquilo lhes pareceu um poderoso combustível psicológico para alimentar o voluntarismo e o culto ao ‘dinamismo’ que eles professavam. Todavia, o filósofo, ao contrário dos seguidores de Marinetti, não tinha as mesmas simpatias pelas máquinas, entendendo-as como inibidoras e mesmo como um obstáculo a que o ‘élan vital’ viesse a se realizar.
A influência maior de Nietzsche “Conheço a minha sina. Um dia, meu nome será ligado à lembrança de algo tremendo - de uma crise como jamais houve sobre a Terra, da mais profunda colisão de consciência, de uma decisão conjurada contra tudo o que até então foi acreditado, santificado, querido. Eu não sou um homem, sou dinamite."
Nietzsche - Ecce Homo
Ainda que o pintor e escultor Umberto Boccioni, um dos lideres do grupo Futurista, se impressionasse com a exposição cubista que visitou em Paris (e que outros seus colegas se sentissem bem próximos ao cubismo), eles são parentes é do expressionismo alemão. E a razão é que ambos resultam do avassalador impacto da obra de Nietzsche, filósofo expoente do modernismo, que se tornou leitura obrigatória no meio artístico entre os fins do século XIX e começos do século XX. Expressionistas e futuristas, entre tantos outros vanguardistas, devotaram um aberto e inquestionável tributo ao autor de Além do Bem e do Mal, ou prelúdio de uma filosofia do futuro, fazendo dos textos dele a verdadeira fonte da sua inspiração estética.
Enquanto os primeiros extraíram dele o desejo pela total liberdade criativa, à margem dos parâmetros acadêmicos convencionais, os Futuristas viram no super-homem de Nietzsche um entusiasta da afirmação da personalidade forte. Do homem maior sobre qualquer tipo de obstáculo. O criador iluminado, de gênio - oposto à multidão estulta e medíocre - que anuncia a chegada de uma nova era. Atendiam ao apelo de Nietzsche para que tivessem ‘ouvidos novos para música nova .Olhos novos para o mais longínquo. Uma consciência nova para verdades que até agora permaneceram mudas (...) O respeito por si mesmo; o amor si mesmo; a liberdade incondicional frente a si mesmo...’ (in O Anticristo, 1888)
Também dele lhes veio o impulso de se afastarem do passado decadente e de insurgirem-se contra o determinismo, a tradição e o costume. Herdaram-lhe a exaltação da vontade do poder e a mesma simpatia pela guerra, pela audácia e pelo ato heróico do individuo. A quem despreza a rotina e lança-se, agressivo e ágil, arriscando tudo na aventura da vida.
Seguiram-no na sua misoginía, no desprezo de Nietzsche pela mulher, e na exaltação do guerreiro. Tudo isso levou a que muitos Futuristas fossem arautos das batalhas que estavam ainda por travar e da guerra entendida como higienização: a purgação sanitária que arrancava do chão a sujeira e os bacilos que prejudicavam o todo.
O patriotismo extremado e a exaltação belicista serviam, no entender deles, como elixir para sacudir a sociedade burguesa do fastio que se alastrava. Giovanni Papini, o escritor florentino, um simpatizante da causa futurista nos seus primórdios, ainda que se manifestasse a favor das conquistas coloniais, como tantos outros intelectuais imperialistas como Gabrielle D´Anunzzio, conclamou os seus para que a Itália viesse a ser uma ‘potência cultural’.
Para tanto era preciso superar o passado e emparelhar a estética à máquina, substituindo o ‘já feito’ por ‘aquilo que se faz’. Transformar a cidade antiga, ‘chaga magnífica do passado’, num centro efervescente e espaço aberto ao tumulto dos novos tempos.
Os Futuristas, entre tantas coisas, são mais que tudo filhos da lâmpada incandescente. Quase todos eles nasceram na década de 1880, exatamente quando o invento de Thomas Edison difundiu-se por amplas partes do mundo. A iluminação pública das ruas e praças, pondo fim ao longo reinado das custosas lamparinas a óleo, operou uma enorme transformação nos costumes das cidades. Permitiu que a Noite fosse definitivamente conquistada, tanto nas casas como nas ruas. Não sem motivo, o pintor Giovanni Balla fez do seu quadro ‘A Lâmpada da Rua”, de 1909, uma aberta sagração à nova divindade que, ofuscando a luz da lua, trazia claridade para todos. Ela viera para atender o clamor de Marinetti, Uccidiamo il chiaro di luna, isto é de ‘assassinar o luar’, assumindo a função de estrela maior.
A leitura, por sua vez, se ampliou e a vida ficou muito melhor. Com a eletricidade foi possível modernizar o transporte público e tornar feéricos os centros urbanos. A tração por animais deu lugar à força da energia.
Há mais de 3 mil quilômetros distantes da Itália, o poeta Vladmir Maiakovski, então um menino ainda na sua Geórgia natal, deixou registrado o impacto que a inovadora iluminação artificial causara sobre ele: "mais claro que o céu. Era a eletricidade. A fábrica de rebites do príncipe Nikachidze. Depois da eletricidade, perdi totalmente o interesse pela natureza. Uma coisa imperfeita.”
Rádio, cinema, raios-x, etc...
A tempo em que se tornaram rapazes encantaram-se com as possibilidades do rádio inventado por Marconi e pela a aparição dos carros correndo pelas ruas. Aos poucos os automóveis de aluguel e os primeiros ônibus ocuparam as avenidas afastando para sempre as carroças e as diligências, enquanto os céus viram pela primeira vez aviões voando (o vôo dos irmãos Wright é de 1903, e o 14-bis de Santos Dumont ocorreu em 1906).
Também o invento do cinema deu-se por daquela época. Primeiro foram os irmãos Lumière que patentearam o cinematógrafo em 1895, e, quase em seguida, o ilusionista Georges Méliès produziu o sensacional Le Voyage dans la Lune, em 1902, inaugurando assim um novo entretenimento para as massas.
Outra descoberta que causou pasmo e intrigou o mundo das artes foram os Raios Röntgen, popularizados, desde 1895, como Raios-X. O físico alemão Wilhelm Röntgen havia descoberto a possibilidade de devassar o interior humano por meio da radiação eletromagnética, abrindo aos pintores um novo cenário absolutamente inesperado.
Lembrando-se que os Futurista testemunharam o nascimento da ficção científica com o surgimento da obra do inglês H.G. Wells que se tornou um dos autores mais populares na Europa e em boa parte do Mundo graças aos seus livros proféticos a respeito do destino que a humanidade teria por força da presença científica (A Máquina do Tempo 1895 ;A Ilha do Dr. Moreau, 1896 ; O Homem Invisível , 1897 ;A Guerra dos Mundos, 1898; O Alimento dos Deuses, 1904 ; A Moderna Utopia, 1905, etc..)
E, como um complemento sensacional a tudo o que estava acontecendo, um jovem judeu alemão, o até então desconhecido cientista de nome Albert Einstein, expôs sua fantástica Teoria da Relatividade num jornal cientifico de Berna, o Annalen der Physik, em 1905. Tempo e espaço, temas tão pertinentes às artes, passaram a ter um novo entendimento.
Assombros estes que contribuíram para que os Futuristas trouxessem a discussão estética de volta para as cidades, nelas é que se urdia a modernidade e o progresso. Em Roma, em Veneza, em Milão, em Florença, em Paris e em Nova York é que os verdadeiros embates culturais deviam ser travados. Entre os edifícios e ‘as marés de rostos e braços urrantes’, é que o futuro teria sua vitória definitiva sobre o passado. Afinal, como discípulos de Nietzsche, eles ‘eram portadores de boas novas..como ninguém antes’.
1. Queremos cantar o amor do perigo, o hábito da energia e da temeridade.
2. A coragem, a audácia e a rebelião serão elementos essenciais da nossa poesia.
3. Até hoje a literatura tem exaltado a imobilidade pensativa, o êxtase e o sono. Queremos exaltar o movimento agressivo, a insônia febril, a velocidade, o salto mortal, a bofetada e o murro.
4. Afirmamos que a magnificência do mundo se enriqueceu de uma beleza nova: a beleza da velocidade. Um carro de corrida adornado de grossos tubos semelhantes a serpentes de hálito explosivo... um automóvel rugidor, que parece correr sobre a metralha, é mais belo que a Vitória de Samotrácia.
5. Queremos celebrar o homem que segura o volante, cuja haste ideal atravessa a Terra, lançada a toda velocidade no circuito de sua própria órbita.
6. O poeta deve prodigalizar-se com ardor, fausto e munificência, a fim de aumentar o entusiástico fervor dos elementos primordiais.
7. Já não há beleza senão na luta. Nenhuma obra que não tenha um caráter agressivo pode ser uma obra-prima. A poesia deve ser concebida como um violento assalto contra as forças ignotas para obrigá-las a prostrar-se ante o homem.
8. Estamos no promontório extremo dos séculos!... Por que haveremos de olhar para trás, se queremos arrombar as misteriosas portas do Impossível? O Tempo e o Espaço morreram ontem. Vivemos já o absoluto, pois criamos a eterna velocidade onipresente.
9. Queremos glorificar a guerra - única higiene do mundo -, o militarismo, o patriotismo, o gesto destruidor dos anarquistas, as belas idéias pelas quais se morre e o desprezo da mulher.
10. Queremos destruir os museus, as bibliotecas, as academias de todo tipo, e combater o moralismo, o feminismo e toda vileza oportunista e utilitária.
11. Cantaremos as grandes multidões agitadas pelo trabalho, pelo prazer ou pela sublevação; cantaremos a maré multicor e polifônica das revoluções nas capitais modernas; cantaremos o vibrante fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros incendiados por violentas luas elétricas: as estações insaciáveis, devoradoras de serpentes fumegantes: as fábricas suspensas das nuvens pelos contorcidos fios de suas fumaças; as pontes semelhantes a ginastas gigantes que transpõem as fumaças, cintilantes ao sol com um fulgor de facas; os navios a vapor aventurosos que farejam o horizonte, as locomotivas de amplo peito que se empertigam sobre os trilhos como enormes cavalos de aço refreados por tubos e o vôo deslizante dos aeroplanos, cujas hélices se agitam ao vento como bandeiras e parecem aplaudir como uma multidão entusiasta.
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