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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Claude Monet, entre a luz e as flores (Parte II)

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Ainda que com grandes traumas, sedando feridas e cicatrizes resultantes da derrota francesa na Guerra Franco Prussiana (1870) e da revolta da Comuna de Paris (1871), o mercado das artes de Paris voltou a florescer. De ano para ano ele se impunha como o novo regulador dos negócios dos quadros e das esculturas. O fim do Segundo Império, como o inevitável abalo que provocou nas manifestações culturais e artísticas convencionais apoiadas pelo regime bonapartista caído, abriu caminho para que o público manifestasse a diversidade do seu gosto.


Neste cenário cresceu em importância a figura do marchand, o negociante de arte que executará com habilidade a função de servir como intermediário entre o artista, geralmente um desastrado nos assuntos de dinheiro, com os interessados na aquisição das obras de arte.


Coube a Durand-Ruel ser um desses primeiros homens a perceber a relevância da arte impressionistas, desprezada por muitos por parecerem ‘puras manchas’. Em 1873 ele editou o catálogo ‘Recueil d´estampes’ em 3 volumes fartamente ilustrados, prefaciados pelo escritor Armand Silvestre, e que continham a reprodução de 300 gravuras, entre elas as da elite dos impressionistas (Claude Monet, Camille Pissarro, Alfred Sisley e Edgar Degas).

A diversificação dos temas

A oferta de temas, os ‘motivos’ como se dizia então, era diversificada. Monet, por aquelas alturas se tornara um extraordinário pintor de cenas de jardins, de recantos aprazíveis em moradias rurais (Les coqueliots a Argenteuil, Le Jardin de Monet a Argenteuil, Le déjeuner, etc..), e seu inequívoco amor pela água (praias da Normandia, as falésias de d'Etretat e Trouville) enquanto que Edgar Degas atendia ao público elegante e sofisticado reproduzindo cenas de bailarinas (La classe de dance, Lê foyer de la danse à l`Opéra), ou de turfe (Le champ de courses avant lê départ, Chevaux de courses, etc..).


Auguste Renoir , amigo muito próximo de Monet, especializou-se por sua vez em cenas do esplendor da boa vida das classes médias. São meninas protegendo-se do sol com sombrinhas (Jeune fille à l´ombrelle), de casais em animadas danças (La dance à Bougival, La dance à la champagne, La dance à la ville), ou ainda reunidos numa festa pública em Paris (Le bal du Moulin de la Galette). Um tanto quanto que invadindo a seara de Degas, Renoir por igual retratou as classes altas de Paris freqüentando a ópera (La loge).


Os estilos também eram variados, manifestação da crescente autonomia da individualidade: Frederic Bazille, Edouard Manet, Henri Fantin-Latour, George Seurat, Berthe Morison, Paul Gauguin, Paul Signac, Paul Sérusier, Henri-Edmond Cross, Maxim Maufra, Alfred Sislley, Pierre Bonard, Paul Signac, Jean Béraud, Maximilien Luce, Henry le Sidaner, Henri de Toulouse-Lautrec, e, entre tantos outros mais, destacava-se o gênio de Paul Cézanne, todos com características técnicas e pictóricas muito próprias, como se fossem marcas registradas.

O paraíso em Giverny

A Maison Monet em Giverny
Claude, depois de várias viagens, mudanças de habitação e bem poucas coisa vendida, decidiu-se finalmente fixar-se num lugar permanente. Acompanhado pela sua enorme família, encontrou seu paraíso no sitio de Giverny, há 72 quilômetros de Paris na estrada para a Normandia. Superadas as negociações, conseguiu adquiri-lo por um preço razoável.


Finalmente tinha um local somente para si, uma casa confortável, excentricamente pintada de rosa com janelas verdes, cercada por flores de onde poderia fazer incursões nas proximidades com seus tubos de tintas e com suas telas e depois retornar para a sua oficina domestica para dar os retoques finais no que vira. Obcecado pelos efeitos da luz, olhando de um quarto alugado, pintou a catedral de Rouen por 37 vezes como que para provar a todos os efeitos diversos que ao longo de um dia os raios solares incidem sobre um objeto.


Quando sentiu o peso dos anos, sem poder aventurar-se, Monet dedicou-se a fazer do seu jardim um ateliê ao ar livre. Todos os dias ele colocava seu cavalete num ângulo qualquer daquele espaço sagrado e pintava as maravilhosas flores e os nenúfares que boiavam no lago, bem como reproduziu por inúmeras vezes a pequena ponte de estilo japonês (por influencia de Utagawa Hiroshige) que ele mandara colocar para facilitar-lhe a passagem. Deixou mais de 300 telas com esses motivos.

A capela sixtina do impressionismo

Graças as apoio e admiração incontida que George Clemenceau (1841-1929) lhe devotou, o vitorioso homem de estado que chefiou a França na Primeira Guerra Mundial, visitando-o seguidamente, conseguiu com que a municipalidade de Paris acolhesse as monumentais telas que concebera nos seus derradeiros anos de vida; Les Nymphéas.


Trata-se de uma série de murais que tem como motivo central as famosas ninféias, plantas aquáticas boiando nas águas do seu jardim de Giverny. Então já sofrendo de catarata, Monet repassou-os aos cuidados da capital por ocasião da assinatura do Armistício de Novembro que pôs fim a dolorosa Grande Guerra de 1914-1918.


Nelas não há horizonte, não há terra, céu ou nuvens, apenas as maravilhosas flores aquáticas boiando tranqüilas ou penduradas nas margens plácidas do lago, que ornamentam duas salas elípticas do Museu de l´Orangerie no interior dos Jardins das Tulherias, em Paris. É quase como se fora uma volta ao passado mais remoto da humanidade, um mergulho num jardim do paleolítico.


É monumento à pureza e à reflexão tranqüila, uma exaltação - ainda que artificial como um jardim de inverno ou um orquidário - do reencontro imaginado por Jean-Jacques Rousseau do homem com a natureza. A busca pela paz perdida nos tempos modernos, daí muitos a chamarem de ‘A capela sixtina do impressionismo’.


Bibliografia

David Croal Thomson, David Croal - The Barbizon school of painters : Corot, Rousseau, Diaz, Millet, Daubigny, etc, Londres : Chapman and Hall, 1891.
Hauser, Arnold – Historia social da literatura e da arte. São Paulo : Martins Fontes,
Heirich, Christoph – Claude Monet. Colônia. Taschen do Brasil 2006.
WALTHER, Ingo F. e outros. Impressionismo: Colônia, Taschen, 2006

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