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Edgar Allan Poe, o escaravelho bêbado
Edgar Allan Poe, nascido em Boston em 19 de janeiro de 1809, um dos modernos escritores de contos policiais e fantásticos, um decadentista assumido, foi um dos maiores nomes das letras dos Estados Unidos. No século em que ele viveu somente foi superado em fama mundial por Mark Twain, um escritor sulista. O que os separou foi o humor. Twain era um soberbo contador de casos divertidos e pitorescos da vida de garotos nas margens do rio Mississipi; a literatura de Poe, ao contrário, era gótica, sombria, um relato por vezes apavorante da vida portuária tenebrosa daqueles tempos. De certo modo ambos apresentaram as duas faces da América em momentos históricos e geográficos distintos.
Baudelaire descobre a verdade sobre Poe
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Edgar Alan Poe (1809-1849)
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Existem destinos fatais, existem na literatura de cada país homens que trazem a palavra azarado escrita em caracteres misteriosos nas sinuosas rugas das suas fontes.
C. BAUDELAIRE, sobre EDGAR ALLAN POENum certo dia do ano de 1854, a sra. Mary Clemm, a tia-sogra do escritor Edgar Allan Poe, já falecido, recebeu uma delicada carta de Paris. Era do poeta Charles Baudelaire, que, além de lhe enviar algumas traduções em francês dos poemas de Poe, entre elas o clássico O Corvo, confessava-se chocado com uma descoberta que havia feito. Desde 1847, dois anos antes da morte de Edgar Poe, Baudelaire tinha se tornado um arauto do escritor americano. Não só traduziu-lhe a obra, como prefaciou uma coletânea dos seus contos, as Históricas extraordinárias, onde se encontravam O gato preto, O barril de amontilado e o antológico criptograma O escaravelho de ouro. Imaginava-o, disse Baudelaire, "rico e feliz, um jovem cavalheiro sulista, dotado de gênio eventualmente dedicado à literatura em meio a tantas outras ocupações de uma vida elegante". Pensava que seu gosto pelo gótico, pela necromania, por gorilas assassinos, por casas assombradas, pelo terror enfim, fosse fruto do diletantismo de um dândi.
A verdade era outra. Ele era o pauvre Eddie, o infeliz Edgar, martirizado pela crônica falta de dinheiro, por uma vida miserável, agravada pelo alcoolismo e por suas inclinações pelo ópio. Baudelaire soube que seu verdadeiro sustentáculo tinha sido a sra. Clemm. Era ela que, em dias tenebrosos, ausentes de qualquer vintém saía a vender os escritos de Poe, ofertando-os nos magazines.
Outras tantas, esperava pacienciosamente na cozinha da casa de um dono de revista que Edgar encerrasse uma rodada de tragos com os amigos, evitando, com sua presença, que ele resolvesse alongar a noite numa taverna qualquer. A sra. Clemm ficava de plantão para amparar seu sobrinho-genro, um pobre bêbado que também era o maior escritor norte-americano da época.
Poe, vitima da pirataria editorial
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Poe inspira-se no corvo para o seu grande poema
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Hervey Allen, um dos seus biógrafos, diz que o azar de Poe não se limitou à sua relação fatal com a bebida e as drogas. Conspirou largamente contra suas rendas o fato de que os editores americanos preferiam publicar autores ingleses, que pirateavam sem cerimônia. Pode-se dizer que durante todo o transcorrer do século XIX, pelo menos até a década dos anos 90, a literatura americana travou uma longa batalha para sobreviver. Enquanto os industriais yankees praticavam a reserva de mercado, protegendo-se da concorrência estrangeira, os desgraçados dos escritores tinham que se contentar em redigir histórias curtas, somente publicadas nos magazines literários. Allen atribui a enorme produção de contos feita por Poe a razões puramente econômicas.
Poucos arriscavam bancar a impressão de livros com a prata da casa. Essa foi uma das razões que fez com que Poe se tornasse um tipo errático, "um planeta fora de órbita", como disse Baudelaire, rolando sem cessar de Nova Iorque a Filadélfia, de Boston a Baltimore e desta para Richmond.
Habitando pensões ou pequenos sobrados suburbanos, sempre acompanhado por Mary Clemm e por sua esposa, a menina-mulher Virginia, que também era sua prima, produzia em condições adversas.
Estragos provocados pelo álcool
Conforme a tísica avançava sobre sua amada, decepando-lhe as esperanças, mais Poe afundava no álcool. Devido ao vício, se indispôs com a maioria dos patrões, fosse o sr. John P. Kennedy, de Baltimore, ou o generoso sr. G.Graham, da Filadélfia. Nunca seguiu o conselho de um outro, o sr. T.W.White, que lhe recomendou: "separe-se da garrafa e de companheiros da garrafa, para sempre!" Exasperado, Poe escreveu para um amigo: "trocar o cérebro por prata, às ordens de um patrão, é, no meu pensar, a tarefa mais dura do mundo..." Além disso, todas as tentativas que alguns amigos fizeram para provê-lo com um cargo público fracassaram. Acreditavam que uma renda fixa qualquer lhe traria estabilidade emocional e sua dependência da bebida talvez se atenuasse. Mas a legenda de viciado e o odor de ébrio assustava a todos. Também não conseguiu tornar-se um making-money author, um autor de best-sellers, muito menos um noveleiro de sucesso, como Charles Dickens, a quem chegou a conhecer, em 1842.
Estilisticamente foi um aristocrata com natural aversão pelo vulgar, que se somava a um elevado grau de onipotência, que Baudelaire, também consumidor, atribuía ao gosto pelo ópio. O diretor do Museu Poe, de Baltimore, o senhor Jeff Jerome, há uns anos passados lançou-se numa "em cruzada para reabilitar seu nome." Parece desnecessário. O que se deve ressaltar em Poe é que, apesar de infeliz, pobre e dependente crônico do álcool, conseguiu fazer com que sua literatura ganhasse o mundo, influenciando não só os sofisticados simbolistas franceses como até as banais histórias de horror e os contos policiais modernos.
Se fosse vivo, certamente desprezaria toda e qualquer manifestação piegas em torno do seu passado. Reconhecia-se um servo da bebida, mas cultivava com orgulho o fato de ser um cavalheiro dos velhos tempos, um tipo um tanto acima da maioria dos mortais.
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