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História - Cultura e Pensamento

Paula Modersohn-Becker e a estética expressionista (Parte II)

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» Paula Modersohn-Becker e a estética expressionista (Parte I)
 
Uma estética própria

Käthe Kollwitz (1867-1945), uma das mais expressivas sucessoras de Paula Modersohn-Becker no cenário do modernismo alemão, inclinou-se para outras tendências que não as da exaltação do camponês ou das virtudes raciais dos arianos. Decidiu-se pela denúncia social. Esposa de um médico que clinicava na periferia de Berlim, concentrou-se em suas inúmeras gravuras e desenhos a testemunhar o sofrimento do proletariado alemão. Não havia angustia subjetiva nas suas imagens mas sim a exposição politizada das mazelas humanas. Seus temas mais recorrentes foram a fome, a miséria, o desemprego, a doença, a morte, o abandono e demais padecimentos sofridos pelos descartados do sistema fabril.


Não há paisagem nas suas gravuras, senão que o espelho da dor e da desolação a dominam quase que inteiramente, entremeadas com apelos de paz ou com ações de revolta (a artista perdera o filho, alistado como voluntário, nos primeiros meses de 1914, e depois passou anos construindo um memorial aos jovens caídos na Grande Guerra). O objetivo da sua arte era provocar a indignação.


Paula neste sentido se mostrou "apolítica". Bem antes de Käthe, ela se afirmara na construção de uma estética do despojamento. Retratar as pessoas comuns de Worpswede, "a simplicidade bíblica" dos camponeses em meio a charneca, requeria ausência de afetação. Um retorno ao "rúnico", ao que fosse autêntico, fugindo da idealização ou maquiagem dos modelos. A inclinação dela pela maternidade a fez produzir uma série incontável de óleos e desenhos tendo como tema mães com filhos, sendo que ela mesma retratou-se grávida (não deixa de ser uma peça do destino dela ter falecido das conseqüências decorrentes do parto, justamente ela que tinha no desejo ter filhos a suprema realização como mulher)

Neste sentido sua obra era "apolítica". Sua produção nos dez anos de maior atividade foi gigantesca. A artista deixou 750 pinturas (sendo que 70 delas era naturezas-mortas inspiradas em Cézanne) e mil desenhos e gravuras. Em vida ela apenas conseguiu vender cinco telas mas com a chegada da fama póstuma elas passaram a ser cobiçadas por colecionadores privados e por inúmeros museus alemães. Rilke, ainda que distante, estando em Paris, ficou arrasado com a notícia da morte de Paula, ocorrida em 2 de novembro de 1907. Compôs então em homenagem a ela o belíssimo Requiem fur eine Freundin, "Réquiem para uma Amiga", redigido quase um ano depois no hotel Biron onde estava hospedado. O poema foi publicado em 1909.


Tenho mortos e os deixei partir!

Mas é mesquinho, isso

de pensar no que não foi. Há também uma aparência


de censura na comparação que não te atinge.

O que acontece tem tamanho avanço

sobre a nossa opinião que não o alcançamos nunca

nem descobrimos como era realmente.

Não te envergonhes quando os mortos te roçarem,

os outros mortos, os que agüentaram

até o fim (O que quer dizer fim?). Troca

o olhar com eles, tranqüilo, como de uso,

e não temas que o nosso luto te

sobrecarregue, a ponto de lhes dares na vista.

As grandes palavras de outrora, quando

acontecer não era ainda visível, não são para nós.

Quem fala de vitórias? Suportar é tudo
".

[...]

"Ouves o meu lamento?

Gostaria de lançar a minha voz como um pano sobre os restos da tua morte, e lançá-la até se fazer em farrapos,

e tudo o que digo deveria andar andrajoso nesta voz e tiritar de frio; se lamentar bastasse.

Porém agora acuso: não aquele que te arrancou a ti (não consigo descobri-lo, é como todos os outros) mas a todos nele acuso: o homem."

Bibliografia

- Dube, Wolf-Dieter: Expressionismo. Lisboa:Verbo, 1974

-
Ehrardt, Ingrid (ed.) Kingdom of the Soul: Symbolist Art in Germany, 1870-1920. Londres: Prestel Pub, 2000.

- Erling, Katharina - Paula Modersohn-Becker und die Worpsweder. Zeichnungen und Druckgrafik, 1895-1906. IFA (Institut für Auslandsbeziehungen), 2000

- Everdell, William R. - Os Primeiros Modernos. Rio de Janeiro/São Paulo:Editora Record, 2000.

- Harrison, Charles, Frascina, Francis e Perry, Gill - Primitivismo, Cubismo, Abstração: começo do século XX, São Paulo: Cosac&Naify Edições, 1998.

- Lloyd, J. - German expressionism: primitivism and modernity. New Haven e Londres: Yale, 1991

-
Neugroschel, Joachim -Expressionism, a German Intuition, 1905-1920,
San Francisco Museum of Modern Art, Solomon R. Guggenheim Museum, 1980.

-
Rilke, Reiner Maria - Worpswede: Fritz Mackensen, Otto Mondersohn, Fritz Overbeck, Hans am Ende, Heinrich Vogeler. Leipzig; Verlag von Delbagen&Klafing, 1905.

-
Stern, Fritz. - Julius Langbehn and Germanic Irrationalism in The Politics of Cultural Despair. Berkeley: University of California Press, 1974

-
Wietek, Gerhard (org.) -Deutsche Kunstlerkolonien und Kunstlerorte, Munique: Theimig, 1976.

- Wolf, Norbert: Expressionismus . Colônia.: Taschen, 2004

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