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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Capitalismo e teorias da crise (Parte II)

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» Capitalismo e teorias da crise (Parte I)
 
A "destruição criadora" de Schumpeter

Uma outra interpretação da crise econômica, basicamente de viés tecnológico, surgiu em 1911, exposta pelo economista austro-americano Joseph Schumpeter no seu Teores der Wirtschaftichen Entwicklung, A Teoria do Desenvolvimento Econômico. O capitalismo, para ele, desenvolvia-se em razão de sempre estimular o surgimento dos empreendedores, isto é, de capitalista ou inventores extremamente criativos - os inovadores - que eram os responsáveis por todas as ondas de prosperidade que o sistema conhecia. Para Schumpeter eram eles os heróis da modernidade. O progresso dependia essencialmente desta vanguarda audaz e inventiva que quase sempre surgia em grupos (Henry Ford, por exemplo, era ligado a Thomas Alva Edison).

Nas etapas iniciais do capitalismo, na época do capitalismo concorrencial, o papel do empresário inovador misturava-se com o capitalista. Ele é quem engendrava o inusitado, que tanto poderia ser o lançamento de um produto até então desconhecido, que não existia antes no mercado (como por exemplo o telefone ou o automóvel), ou uma nova técnica de produzir (como fordismo ou o taylorismo). Ou ainda, a descoberta de uma nova fonte de matéria-prima ou mesmo a conquista de um outro mercado até então não desbravado.

O empreendedor e o monopólio

Qualquer dessas situações, mesmo que iniciada num só setor produtivo, provocava uma onda geral de transformações. O empreendedor, numa primeira etapa, compensava-se com enormes lucros porque coube a ele a primazia do novo negócio. Estabelecia-se assim o que Schumpeter chamou de o lucro do monopólio, que gradativamente diminuía quando outros competidores se aproveitavam da inovação entrando no mercado, explorando o caminho já aberto.

Tal processo de introdução do novo não era e nunca é feito sem dor. Ele destruía o anterior, o que era antigo. A invenção do transporte a vapor por exemplo, os trens e os navios, fez por desaparecer a vasta rede preexistente de diligências, de carruagens, de clippers e demais embarcações à vela Como também, no século 19, a adoção dos teares mecânicos na indústria têxtil, primeiro na Inglaterra e, depois, em grande parte da Europa, arruinou o trabalho artesanal, infelicitando milhares de famílias ao reduzi-las (tal como a informática e a robotização estão cancelando definitivamente milhares de postos de trabalhos nos escritórios e nas fábricas).

No entender de Schumpeter toda a inovação implica pois numa "destruição criadora". O novo não nasce do velho, mas sim brota ao seu lado e supera-o. Pode-se derramar lágrimas pelos que foram massacrados pela expansão da tecnologia mais recente, mas isto não detém o progresso nem altera o seu resultado final.

Na chamada fase do capitalismo trustitificado (ou monopolista) ocorre uma significativa alteração. O agente da inovação não é mais o proprietário, o capitalista, mas sim alguém contratado pela grande corporação para elaborar os futuros projetos transformadores. Há uma ruptura entre o papel do capitalista e o do empreendedor.

Nos dias que correm a inovação processa-se em centros ou laboratórios especiais mantidos pelas multinacionais que sustentam verdadeiros exércitos de cientistas e pesquisadores que são os novos agentes do desenvolvimento econômico. O capitalista agora é acima de tudo um aglutinador de mão-de obra altamente qualificada. Quando então ocorre a crise do sistema?

Tanto no capitalismo concorrencial do passado como no trustificado dos nossos dias, ela decorre da exaustão dos efeitos da inovação. Quando, por exemplo, um novo produto chegou aos limites mais extremos do mercado, saturando-o. Os lucros que até então ele gerava declinam, provocando uma reação negativa em cadeia, fazendo os negócios refluírem.

Sucedem-se então as falências, as concordatas, e o desemprego. Há um enxugamento pois do mercado. A estagnação só será rompida quando uma outra inovação for introduzida, impulsionando a retomada do crescimento geral. Todavia, nunca se sabe por quanto tempo se estende um período ruim desses, quase sempre inflacionário, mas Schumpeter afirmou que o comportamento natural da economia capitalista era cíclico (ele estudou-o detalhadamente no seu Business Cycles, Ciclos Econômicos, de 1939, obra importante mas que foi obscurecida pela presença fulgurante da "Teoria Geral" de Keynes)

As ondas de prosperidade


Períodos - Ondas de inovação tecnológica

1790-1844: Primeira fase da Revolução Industrial; expansão do sistema fabril, carvão e ferro

1845-1890: Difusão da máquina a vapor, navegação a vapor e estradas de ferro. Fabricação do aço

1895-1945: Expansão da eletricidade, da química e dos motores à combustão


Keynes e a superação da crise

Com a súbita quebra da bolsa de valores de Nova York, em outubro de 1929, deu-se a mais calamitosa débâcle econômica e social do século 20. É certo que ocorreram quebradeiras outras no passado, mas nenhuma delas atingiu as proporções do Big Crash que devastou as finanças e o comércio do mundo inteiro. Uma das que causou maior escândalo ocorreu na França em 1720 quando o Controlador Geral das Finanças, John Law não pode garantir os papéis da Companhia dos Mississipi, empreendimento colonial que ele idealizara para explorar o Novo Mundo.

Nos primeiros anos da década de 1930, os Estados Unidos chegaram a contar 14 milhões de desempregados enquanto na Alemanha eles somaram mais de 6 milhões. A extensão e a profundidade dela fez com que as teorias conhecidas até então (as denominadas "clássicas", não-marxistas) se mostrassem impotentes em resolvê-la. Na mentalidade liberal "ortodoxa" então vigente, as crises eram entendidas como coisa temporária, simples "ajustes de mercado", sem maiores conseqüências do que algumas falências e concordatas. Senão que uma purgação saudável do sistema visando eliminar os incompetentes ou ineptos.


A Grande Depressão, como passou a ser chamada, estendeu-se porém por muitos anos e foi a principal responsável econômica pela eclosão da Segunda Guerra Mundial. (*). Em tal cenário desesperador é que emergiu a teoria keynesiana. Nascido em Londres em 1883, John Maynard Keynes era um eminente economista inglês que elaborou uma sofisticada fórmula para salvar o capitalismo da estagnação geral em que se encontrava. De 1930 até 1936, ele publicou uma série de artigos e livros ( o mais famosos deles foi The general theory of employement, interest and money, , ou simplesmente A Teoria Geral..., é de 1936) procurando mobilizar seus colegas economistas e influenciar os políticos para que seguissem sua receita.

Para ele a crise aprofundava-se pela recusa dos capitalistas em investir. A palavra chave era pois o investimento (*). E porque eles se negavam a isso? Analisando a situação ao redor deles num momento de prenúncio de uma recessão, não viam nenhuma perspectiva de retorno lucrativo no que ousassem aplicar.

Todo o desempenho dependia pois das expectativas futuras do sistema. Para decidir-se, ele era obrigado a levar em conta a evolução e o comportamento do mercado, quanto pagaria de salário, e qual seria o preço das matérias-primas necessárias e tudo mais que toca à produção. Havendo sérias dúvidas a respeito da segurança do retorno investido, ele optava por não correr o risco. Era preferível guardar o dinheiro, entesourando-o na expectativa de uma melhora mais adiante..

O capitalista afinal era um ser arredio – um animal spirit - que queria sempre acumular e acumular mais. Se as circunstâncias não permitissem, ele ficaria no aguardo. Enquanto isto, ao não se determinar, a sociedade padecia de todos os modos. A ausência de investimento trazia consigo um corolário de desgraças e punha em risco até a sobrevivência do capitalismo devido à intensificação das lutas sociais, dos protestos, das greves e das ameaças revolucionárias.

(*) Não só favoreceu a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha, em 1933, como desencadeou pelo mundo todo uma onda de regimes autoritários de inclinação fascista. Na América Latina, praticamente todos os governos civis foram depostos por golpes militares ou revoluções autoritárias (No Brasil com Getulio Vargas, na Argentina com o general José Felix Uriburu,na Republica Dominicana com o general Leônidas Trujillo, na Nicarágua com o general Anastácio Somoza, na Guatemala com o general Jorge Ubico, em El Salvador com o general Maximiliano Martinez, etc.Na Europa não foi diferente com a solidificação da ditadura de Oliveira Salazar no poder em Portugal e com o levante anti-republicano do general Francisco Franco na Espanha).

A intervenção do estado

Pânico em Wall Street (outubro de 1929)

Em meio às circunstâncias dramáticas de uma crise econômica generalizada, caracterizada pela falta de demanda efetiva (ninguém encomendava nada, ninguém comprava coisa nenhuma), Keynes pregou a necessidade do estado tomar para si as rédeas de uma arrancada. Caberia a ele - já que o mercado estagnado por si só não o fazia - , assumir a função da demanda.

Ao encomendar grandes obras públicas e estimular determinados projetos de impacto (auto-estradas, pontes, ginásios, represas, etc..) o estado fazia com que o indiretamente o setor privado voltasse a ter vida. Ao empregar trabalhadores desocupados nas obras publicas rompia-se com o bolsão do desemprego e fazia com que o mercado consumidor recebesse um novo e forte sopro de vida.

Reduzindo o número dos sem-emprego, as fábricas, voltando a produzir, superavam a capacidade ociosa anterior. Keynes disse que se inspirou nos faraós do Egito antigo que, através da construção das pirâmides, mantinham a atividade econômica entre os intervalos das colheitas, ocupando as massas em empilhar pedras para glorificar o seu soberano.(*)

Um novo quadro mais otimista tomava conta da sociedade com a intervenção do estado. A poupança dos capitalistas, que se encontrava entesourada, voltava a ser aplicada. As engrenagens econômicas começavam então novamente a girar e conseguia-se sair da crise. Restabelecia-se a confiança no futuro e retomavam-se os investimentos. É evidente que havia um custo. O estado era obrigado a recorrer ao déficit público e a uma moderada inflação, mas era um preço módico para romper com a profunda depressão em que o sistema como um todo se achava.

(*) Keynes ensinou, para o horror de conservadores e deleite de heterodoxos, que havia certa racionalidade no desperdício de dinheiro público em obras inúteis, como a construção de pirâmides, ou em enterrar garrafas com dinheiro para que os desempregados as procurassem. Os exemplos são dele mesmo, mas o que se passava à sua volta, na época, em matéria de obras públicas, não era menos inusitado.(ver Gustavo Franco – Keynes e os gastos com a Nova Guerra, Veja:26/09/2001)

Neoliberais contra keynesianos

Esta função do estado como elemento fundamental para superar a estagnação, foi considerada uma verdadeira heresia. Na época e até hoje os principais pensadores neoliberais (von Mises, Hayek, Milton Friedman, e outros) condenam Keynes por ter dado relevância ao papel do estado, pois para eles qualquer intervenção estatal era inaceitável. O mercado, por si só, para os liberais ortodoxos (igualmente denominados de ‘neoliberais’) tem notáveis capacidades de se auto-regular sem que necessite a intromissão externa do estado. Apelar para ele, mesmo em momentos de aperto, seria como entregar a chave do cofre a um arrombador.

Nos anos 30 e, principalmente, após a Segunda Guerra Mundial, a maioria dos países capitalistas, apesar das criticas dos ortodoxos, continuou seguindo os ensinamentos de Keynes. Deve-se à revolução keynesiana, a notável prosperidade que se conheceu nos Estados Unidos e na Europa nos últimos 50 anos.

(*) O significado do termo investimento para Keynes é bem mais amplo do que comumente é empregado. Não se trata apenas de aplicar um dinheiro. Entendia-o como compra de equipamentos (bens de capital), aceleração da capacidade produtiva e ampliação dos bens de capital.

Síntese da superação da crise

- Estagnação econômica(ausência de investimento)

- Colapso do mercado(ausência de demanda)

- Estado (ativação da demanda)

- Retomada do crescimento(rompimento da estagnação)

Bibliografia


Barnett, Vincent. - . Kondratiev and the Dynamics of Economic Development: Long Cycles and Industrial Growth in Historical Context. Londres: Macmillan, 1998..


Dobb, Maurice- Economia Política e Capitalismo, Editora Graal, Rio de Janeiro, 1978


Goldgar, Anne - Tulipmania: Money, Honour, and Knowledge in the Dutch Golden Age
Chicago: University of Chicago Press, 2007


Grossmann, Henrik – La ley de la acumulacion y del derrumbe del sistema capitalista Siglo XXI editores, México, 1979

Gustafsson, Bo – Marxismo y revisionismo Ediciones Grijalbo, Barcelona, 1975


Keynes, J.M. – Teoria Geral do Emprego, do Juro e do Dinheiro, Editora Abril, São Paulo, 1983


Marx, Karl – El capital Fundo de Cultura Económica, México, 1973, 3 vols.


Napoleoni, Cláudio – O Pensamento econômico do século XX Editorial presença, Lisboa, s/data.



Schumpeter, J. A.- A Teoria do Desenvolvimento Econômico. Editora Abril, São Paulo, 1982


Schumpeter, J. A – Capitalismo, Socialismo e Democracia Fundo de Cultura Economia, Rio de Janeiro, 1961


Schumpeter, J. A - Ciclos econômicos, analises teórico y histórico. Universidade de Zaragoza, s/d.


Sweezy, Paul – Teoria do Desenvolvimento Capitalista Zahar Editora, Rio de Janeiro, 1967, 2ª ed.

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