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CULTURA E PENSAMENTO

Capitalismo e teorias da crise (Parte I)

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» Capitalismo e teorias da crise (Parte II)
 
Nos começos da economia-politica tornada ciência, no século XVIII, seus pais fundadores, os fisiocratas do dr. Quesnay e seus parceiros, os economistas-políticos ingleses, não se preocuparam com o estudo das crises econômicas. Influenciados pela filosofia natural de Newton, estavam mais interessados em fixar quais eram as leis gerais da economia, então uma ciência nascente. Além disso, viviam num momento de grande otimismo provocado pelo Iluminismo, época de ascensão econômica e social da burguesia ocidental resultante da Revolução Industrial, quando o sistema fabril, com o aumento espantoso da produção, começou a mostrar sua imensa capacidade de mudar a sociedade, trazendo a prosperidade para muitos.

As diversas interpretações

Nicolai Kondratiev (1892-1938)
No século 20 diversas interpretações de raiz marxista sobre a essência das crises, quase todas atentas ao comportamento dos ciclos econômicos (divididos entre um de prosperidade e outro de depressão), foram apresentadas. Entre elas, os estudos do economista soviético Nicolai Kondratiev que assinalava que elas obedeciam a um longo ciclo de 50 ou 60 anos (motivados por transformações tecnológicas), acompanhado por demoradas depressões que se estendiam por depois por décadas (ver The Major Economic Cycles, 1925).

Coube porém a Joseph Schumpeter, um erudito economista austríaco, inspirado no trabalho do soviético, fazer o mais detalhado e original levantamento da constância em que elas ocorrem, associando-as fundamentalmente às inovações provocadas pela tecnologia e pelos inventos científicos.

Foi também de grande relevância, especialmente para a superação delas, a obra de John M. Keynes, talvez o economista mais conhecido do século XX. Keynes escreveu The General Teory of Employment, Interest and Money, A Teoria Geral…publicado em 1936, para equacionar soluções para que o capitalismo saísse da Grande Depressão iniciada em 1929.

O que se segue é uma síntese das principais teorias que procuram as razões desses repentinos desabares econômicos.

Karl Marx e a teoria da catástrofe inevitável

Karl Marx (1818-1883)
Karl Marx, um judeu alemão nascido em Trier em 1818, foi o maior estudioso da economia em todo os tempos, e, como é sabido, o maior crítico do sistema capitalista. Denunciou-o como um modo de produção mais sofisticado do que a escravidão no que toca a exploração do homem pelo homem. O capitalismo, disse ele, apesar do enorme progresso técnico e material, beneficiava somente uns poucos: aos capitalistas, os donos dos meios de produção (das fábricas, dos bancos, das minas e das terras). A massa da população, os trabalhadores e os homens do campo, ao contrario, viam-se reduzidos à pobreza e à fome.

A interpretação da crise econômica feita por ele, foi logicamente afetada por essa visão negativa do capitalismo. Marx, por vê-lo como um Modo de Produção historicamente datado, isto é, que se tinha um começo, um início, previu o seu fim. Profetizou que o capitalismo terminaria através de uma Crise Geral que levaria ao desaparecimento da sociedade burguesa. Seus seguidores, especialmente os sociais-democratas alemães, foram além, polemizando em torno da chamada teoria da catástrofe inevitável do capitalismo (Zusamenbruchstheorie) a colossal derrocada social e econômica que seria seguida pela implantação do socialismo, da futura sociedade sem classes.

A concepção da crise em Marx

A razão maior da crise econômica para Marx devia-se a própria irracionalidade do processo produtivo. O capitalismo baseava-se em duas premissas que conduziam-no a uma crise permanente. A primeira delas é que a concorrência provocava a anarquia da produção. Muitos capitalistas competindo entre si, quase sem regras, terminavam por jogar no mercado manufaturados em excesso, gerando uma superprodução. Ao não conseguirem vende-los, porque os salários dos trabalhadores eram baixos e não acompanhavam a alta geral dos preços, dava-se o subconsumo. Os seus lucros então entravam em baixa fazendo com que os investimentos fossem suspensos, provocando quebras em série e desemprego.

A outra premissa devia-se ao fato de que o sistema produtivo no capitalismo não estava voltado para as necessidades sociais (para atender o consumo básico da população) mas para satisfazer o lucro dos proprietários, provocando situações inacreditáveis (como por exemplo, num pais faminto os produtores de grãos queimarem ou destruírem parte da produção por não considerarem os preços atraentes).

A evolução do capitalismo, além disso, gerava um outro problema. Devido à concorrência, onde os mais fracos eram eliminados do processo produtivo pelos mais fortes, dava-se uma assustadora acumulação de capital em poucas mãos. Na dialética de Marx, quanto mais o capitalismo avançava menos gente era proprietária, mais estreitava o número dos poderosos, menos sobrava aos demais.

Para Marx a convergência da riqueza com o poder sob controle da classe burguesa provocava, num outro extremo social, o aumento da miséria da população e a proletarização dos indivíduos (proletário para Marx era o trabalhador, aquele que não tinha nada a não ser a sua força de trabalho, a qual alugava ao capitalista em troca de um salário)

Para o futuro, a lógica de Marx previa um colapso geral do sistema. A aceleração da riqueza por um lado e da miséria por outro levaria uma aguda luta de classes, resultando no fim do capitalismo. Este, devastado seria superado por um outro sistema produtivo, mais justo e mais igualitário, erigido pela sociedade socialista. O capitalismo estava pois condenado pela História porque trazia em si mesmo o germe da sua destruição.

O processo de superação do capitalismo, evidentemente, não se faria sem uma intensa batalha na qual os capitalistas e seus aliados sociais tentariam evitar o seu desaparecimento. A conseqüência lógica disto seria uma Revolução Social radical que implantaria, através da Ditadura do Proletariado, o modo de produção socialista, no qual a propriedade privada dos meios de produção seria abolida, substituída pela propriedade coletiva.

Esta visão terminal do capitalismo começou a ser revisada no final do século 19, e começos do século 20, pelos chamados revisionistas, isto é, seguidores de Marx que acreditavam ser preciso fazer alterações na teoria do mestre porque a realidade européia não confirmara suas previsões sombrias.

Síntese da Teoria da Crise


Revisando Marx

Destacam-se no campo da economia-politica como os principais revisionistas de Marx, Eduard Bernstein, um alto membro da social-democracia alemã, e os economistas Tugan-Baranowsky e Rudolf Hilferding. Fazendo largo uso das estatísticas da época, em estudos acurados, demonstraram que a evolução do capitalismo não aumentara a miséria dos trabalhadores como Marx previra. Ao contrário, a prosperidade foi tamanha que não só não esmagou os pequenos negócios como beneficiou também os operário fabris, que melhoraram muito seu padrão de vida a partir de 1880. Lênin, estudando este fenômeno, denominou os trabalhadores com melhor rendimento de ‘aristocracia do operariado’, sentido-os mais próximos da classe média do que seus companheiros de fábrica, abandonado assim qualquer inclinação pela revolução social.

Rudolf Hilferding, por sua vez, no seu "O Capital Financeiro" (Das Finanzkapital, 1910), mostrou que acumulação do capital e a fusão de empresas não provocava - devido à adoção das sociedades por ações - a redução do número de proprietários e que, necessariamente, não conduzira à miserabilidade das massas.

A conclusão que eles chegaram é que o capitalismo tinha capacidade de expandir-se ilimitadamente. Nenhuma crise terminaria com ele. O socialismo seria implantado pelo aumento da consciência e da força do movimento operário, não porque uma força cega qualquer colocasse o capitalismo de joelhos. Não haveria nenhuma revolução socialista nos países industrializados do Ocidente porque as massas ascenderam socialmente e se integravam nos direitos gerais da cidadania. Desde então a teoria do colapso geral foi vista por muitos como uma transposição para ao campo da economia da supersticiosa idéia do Juízo Final vinda do cristianismo.

Os partidos socialistas europeus deveriam, como conseqüência, enrolar as bandeiras revolucionárias e participar das eleições entrando nos parlamentos. Trocando a revolução pela reforma, sepultariam a idéia da ditadura do proletariado preconizada por Marx, substituindo-a pela aceitação da democracia parlamentar como o melhor caminho para obter-se melhorias gerais. O capitalismo pareceu-lhes corrigível.

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