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Richard Wagner revolucionário
Decepcionado com o teatro e a ópera convencionais do seu tempo, o jovem compositor Richard Wagner dedicou-se a conceber a formulação de uma nova arte: a Obra de Arte Unificada. Para tanto, entre 1848 e 1851, escreveu uma série de reflexões teóricas que iriam embasar a sua atuação como artista e como visionário estético, um dos maiores gênios musicais de todos os tempos.
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Siegfried e Brunilde
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Criado em meio a uma família de artistas, Richard Wagner desde cedo se sentiu atraído pela encenação. A descoberta da música de Beethoven foi decisiva para que ele abraçasse a arte de Orfeu. Todavia o clima de conformismo e de mediocridade que caracterizou a época da Restauração na Europa (1815-1848), não condizia com suas ambições. O jovem artista sentia-se tolhido pelo ambiente acanhado e provinciano da Alemanha daqueles tempos. Não demorou para que o mestre-capela do reino Saxão sentir-se atraído pela causa da revolução social. Para acelerar ainda mais sua decisão de inclinar-se pelo radicalismo político, travou relações com o célebre anarquista russo Michael Bakunin, acolhido em Dresden por simpatizantes da causa, que lá procurou abrigo foragido da Rússia czarista.
Quando eclodiu a Revolução de 1848, Wagner ingressou na Vaterlandverein, uma agremiação patriótica que defendia a democracia e, em seguida, ingressou na Guarda Comunal Revolucionária. Esta era uma milícia formada em Dresden pelos cidadãos alçados contra o governo do rei. Durou pouco o sonho dos revolucionários.
Em maio de 1849, o rei da Prússia Frederico Guilherme IV (que tivera o pai de Nietzsche, futuro admirador de Wagner, como preceptor) ordenou que suas tropas invadissem a Saxônia para por fim ao levante. Wagner e sua mulher Minna tiveram então que buscar a estrada do exílio. Primeiro eles se dirigem a Weimar, dali a Zurique e depois à Paris. É na capital francesa que ele esperava estrear uma das suas óperas. Por onze anos lhe foi vedado retornar à Alemanha (até que lhe foi dada uma anistia em 1860, menos para por os pés na Saxônia natal).
Os seus três textos teóricos (Arte e Revolução, A Obra de Arte do Futuro, e Ópera e Drama) datam deste tempo no qual o impulso revolucionário latejou forte dentro dele. Quando, anteriormente, ele aprontara um projeto para o teatro nacional alemão em Dresden, percebera das limitações impostas pelo presente. Influenciado por suas leituras das tragédias gregas passou a sonhar com a possibilidade de poder vir a restaurar no futuro a poderosa dramaturgia de Ésquilo e de Sófocles que desaparecera da encenação ocidental. No seu primeiro ensaio denominado Die Kunst und die Revolution (Arte e Revolução), redigido em junho 1848, em meio à conflagração revolucionária, afirmou que o teatro é algo bem mais profundo do que buscar o enobrecimento do gosto e das belas maneiras. Ele não deveria ser o apanágio de uma elite endinheirada e entediada mas sim expressão máxima da coletividade organizada.
Nada em Desden ou na Alemanha como um todo indicava que aquilo fosse possível. Assim é que imaginou uma solução claramente utópica para que o teatro clássico, revestido em formas modernas, pudesse novamente vingar: era preciso forjar-se uma Nova Humanidade, uma nova relação entre o Homem e o Estado. Somente assim, com uma transformação política radical, poderia haver uma expectativa de surgir uma civilização limpa, sã e enamorada da arte. (*)
(*) Naquele mesmo ano de 1848, em fevereiro, havia surgido o Manifesto Comunista escrito por dois revolucionários que também iriam se tornar famosos no mundo inteiro: Karl Marx e Friedrich Engels. Todavia, a obsessão de Wagner era marcadamente estética e não política e social com dos seus então irmãos de causa.
A arte devia ser a expressão mais pura da alegria geral da comunidade, devendo ser acessível a todos e não somente aos ricos. Deste modo, não dependeria dos interesses comerciais mas sim obra da comunidade inteira como era no tempo dos trágicos da Ática antiga, visto que os espetáculos teatrais eram a expressão da consciência mais profunda. Era todo um povo quem se movia para participar dos espetáculos, enquanto que no presente da Europa somente os ricos usufruíam deles.
Aquilo que para os gregos antigos era sagrado, religioso, passou a ser apenas divertimento entre os fidalgos europeus que freqüentavam as peças e concertos apenas para se fugirem momentaneamente do tédio existencial e expor seus luxos. Enquanto que para os gregos a educação artística visava o corpo e o espírito dos seus cidadãos, ela agora estava reduzida aos interesses da lógica comercial. Aos que chamavam a atenção dele de que na Grécia tão exaltada predominava a escravidão ele respondeu que modernamente também imperava uma servidão: a escravidão ao Dinheiro.
Na época do espetáculo trágico clássico tudo ainda mantinha-se unificado (o coro, os personagens, as falas, a música, o cenário, etc...). Com o fim da tragédia aquela poderosa arte se fragmentou.Cada uma das partes que a compunham passou a ter vida própria, independente das demais. Orfeu, separado das musas, seguiu então um destino solitário. Era preciso pois restaurá-la. Somente a Gesamtkunstwerke (a Obra de Arte Unificada), isto é, a reintegração da retórica, da escultura, da pintura, da música, etc... é que poderia restabelecer a conexão entre a comunidade e a arte, restabelecendo a perdida humanidade do Homem. E para que isso pudesse ser possível era preciso uma Grande Revolução da Humanidade, pois somente uma Humanidade Livre dela irá usufruir, tendo-se abolido então todas as barreiras sociais e de raça.
Mas qual o objetivo final desta imensa obra de restauração? Para Wagner tratava-se de formar um Novo Homem, um Novo Grego. Alguém suficientemente livre das necessidades materiais e dos interesses comerciais e que fosse forte e belo (a revolução lhe traria a força e a arte à beleza). Com a energia então liberada, seu lazer ampliado, haveria então uma enorme e espantosa manifestação do impulso artístico. Todos os homens poderiam vir a ser artistas num teatro inteiramente livre da avareza e do ganho material. (*)
(*) Foi nesta mesma época que ele publicou anonimamente um artigo intitulado Das Judenthum in der Musik (“Judaísmo na Música”) na Neue Zeitschrifft für Musik,(Leipzig, 1850), onde, além de atacar Giacomo Meyerbeer e Felix Mendelssohn, seus colegas, associou o teatro comercial aos interesses dos judeus. Como tantos outros anti-semitas, o compositor confundiu o avanço das relações capitalistas, um modo de produção histórico, com o judaísmo.
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