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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

A Utopia da Raça Cósmica

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» A Utopia da Raça Cósmica (parte II)
» A Utopia da Raça Cósmica (parte III)
 
Desde o fim do domínio colonial europeu no século XIX, duas culturas disputam o controle das Américas. Uma delas é arrogante, utilitarista, materialista e expansionista, formada pelos brancos de origem britânica que habitam a parte norte do hemisfério. A outra a dos países que se instituíram em república depois do Movimento de Independência de 1810, é de origem ibérica. É tendente à espiritualidade e à multiracialidade, e se espalha pelo restante do Continente de Colombo. O domínio final pertencerá aos miscigenados herdeiros desta última, uma raça cósmica.

José Vasconcelos e a exaltação da latinidade

Mural de David Alfaro Siqueiros (no Castillo de Chapultepec)
Aproveitando-se da estabilização da Revolução Mexicana,que eclodira em 1910, José Vasconcelos, intelectual de renome nascido na capital de Oaxaca, em 1882, terra dos zapotecas e mixtecas, lançou em 1925 um retumbante ensaio intitulado La Raza Cósmica. Tratava-se de um envolvente e delirante escrito celebrando a caldeamento dos povos e das raças que ele previu como fator determinante no futuro da América Latina e do Mundo. Com isso, ao lado do cubano José Martí (autor de "Nuestra América", 1891) ) e do uruguaio José Enrique Rodo( do "Ariel", de 1900), ele compôs a famosa trindade dos ideólogos de origem hispânica favorável à proeminência da latinidade no Novo Mundo.

Para eles, latinos e anglo-saxãos, além de possuírem diferentes visões do mundo, travam um cabo-de-guerra pelo predomínio no Novo Mundo.

Encontro e mistura das raças

Ao contrário dos Estados Unidos, que se aferrava à exclusividade racial, obcecados pela pureza da cor, a América Latina era um encontro harmonioso das grandes raças formadoras da humanidade. No Novo Mundo ibérico, brancos, negros, vermelhos e amarelos, não só conviviam pacificamente como também se misturavam. Esse caldeamento apontava para um futuro em que uma nova raça emergiria de tal crisol: a raça cósmica! Porque nela, cada um dos elementos que melhor caracterizavam as grandes etnias formadoras estavam presentes, era uma soma de qualidades.

Enganavam-se os estudiosos que consideravam a América "nova". Em verdade ela foi o palco em que se ergueu num passado remotíssimo uma das mais antigas civilizações que se conheceu: a civilização dos atlantes, contemporânea e aparentada aos babilônios, caldeus e egípcios. Sim, para José Vasconcelos os gregos não se enganaram em determinar uma enorme concentração de gente que vivia de modo bastante avançado numa espetacular e enorme ilha situada bem além das Portas de Hércules, como antigamente se denominava o estreito de Gibraltar: a famosa Civilização da Atlântida.

Os lendários atlantes eram os antepassados longínquos da cultura asteca, maia e inca, que ele considerava já como manifestações decadentes da civilização-mãe. A chegada posterior do negro e do amarelo nas terras da América Ibérica, espaço aberto pelos grandes capitães Cortés, Pizarro e Almagro, não causou repulsão racial como por exemplo foi o caso dos Estados Unidos, onde os brancos se opuseram a qualquer aproximação mais estreita com os nativos (derrotados e mantidos em reservas) e com os africanos (trazidos como escravos e confinados nas fazendas). Na América Latina, ao contrário, predominou a inclusão racial, gerando uma notável mestiçagem.

A desunião da América Latina

Todavia, o fato desta parte do Hemisfério mostrar-se aberta ao bom convívio inter-racial, não impediu que desde a época da independência predominasse o espírito de campanário entre as novas repúblicas que então se fundaram. Infelizmente ficaram surdas aos reclamos de Bolívar, o único dos libertadores, juntamente com o general Sucre, que teve uma percepção transcendental de haver um destino comum, federalista ainda que fosse, para todos os latino-americanos.

O resultado concreto do apego ao provincianismo, desse “sonho balcânico” que acometeu os caudilhos locais, foi que os quatro antigos vice-reinados americanos da Espanha se fragmentaram em mais de vinte médios e pequenos países. Nem a federação ibero-americana proposta por Bolívar foi viabilizada.

Por isso a parte latina do Novo Mundo, despedaçada, oscilando politicamente entre a tirania e a anarquia, se enfraqueceu frente à solidez do anglo-saxão (reafirmada ainda mais pela vitória relâmpago dos Estados Unidos sobre o Império Espanhol durante a curta guerra Hispano-americana de 1898, chamada pelos hispânicos de Desastre).

Pior ainda, incorreu no pecado cultural que os mexicanos chamam de pochismo, isto é, a substituição das tradições, crenças e atitudes autênticas, nativas ou ibéricas, pelo que veio de fora, da Norte-América (ver Frank Tannenbaum – Estados Unidos y América Latina, in Fuentes de la Cultura Latinomaericana, pág. 188).(*)

(*) Foi Rodó ("Ariel", 1900) quem recorreu ao termo "Nordomania" para expressar a inclinação de muitos intelectuais latino-americanos, após o Desastre de 1898, em imitar os “irmãos do Norte”. Expressão que antecipou o pochismo dos mexicanos.

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