|
Davos, a Montanha Mágica (parte II)
Desde 1969 reúnem-se em Davos, um lugarejo de luxo dos Alpes suíços, nos finais de janeiro de cada ano, estadistas, políticos, pensadores, personalidades pop e homens de letras do mundo inteiro, convidados para livremente exporem suas idéias ali. São os grandes do mundo de hoje."Este mundo novo, social, este mundo unificado da organização e planificação, no qual a humanidade se sentirá liberada de todos os sofrimentos desumanos e desnecessários que ofendem a razão mesma, este mundo virá....Virá porque uma ordem externa e racional...terminará por ser criada (...) com o fim de que o autenticamente espiritual possa viver de novo e possa fazê-lo de boa consciência." Thomas Mann – "Goethe, representante da época burguesa"
Um reitor o outro exilado
Nem bem se passaram três anos após o sensacional torneio intelectual de Davos , com a ascensão de Hitler ao poder na Alemanha em 1933, Cassirer embarcava para um longo exílio, falecendo em Yale, nos Estados Unidos, em 1945, enquanto Heidegger, aderindo aos nazistas, assumia a reitoria da Universidade de Freiburg, de onde tentou alçar-se a ser o führer da filosofia alemã.O debate entre Heidegger e Cassirer, de certo modo, retomou e ao mesmo tempo deu seguimento à desavença entre Settembrini e Naphta, dois dos personagens mais importantes do romance de Thomas Mann, "A montanha mágica" (Zauberberg), publicado uns poucos anos antes, em 1924. Obra aliás que o levou a receber ao Prêmio Nobel de Literatura exatamente naquele mesmo ano de 1929, quando se deu o debate em Davos.
Humanismo e Contra-reforma
Nele, o italiano Settembrini apresentou-se perante Hans Castrop, o personagem central (um jovem vindo de Hamburgo atacado pela tuberculose que estava a tratar-se num sanatório em Davos), como um humanista, portador das melhores tradições do Iluminismo e do livre-pensar, enquanto que o seu rival Naphta, um ex-jesuíta sombrio, dogmático, era a encarnação viva da Contra-Reforma, do anticientificismo e da censura.Nos sete anos que o jovem Castrop passou (entre 1907-1914) no Sanatório Internacional de Berghof de Davos ele, em suas caminhadas pelas paragens alpinas que cercam o lugarejo suíço, aspirando-lhe o ar de champanhe, foi assediado pela oratória lógica, sedutora e veemente, ainda que intercalada pelas insuficiências pulmonares dos dois contendores, de Settembrini e Naphta. Naquela montanha mágica pareciam voar e sussurrar, como se fossem fantasmas de épocas diversas, os espíritos cultos de tempos remotos cujos ecos se misturavam com os do aqui e agora.
A razão e o mistério, a esperança e o ceticismo, o liberalismo e o autoritarismo, a liberdade e a prostração, junto com uma infinidade de outros temas, duelaram a fim de seduzir o jovem tísico, símbolo da burguesia européia fragilizada, na tentativa de fisgar a alma daquele pobre Fausto moderno. Hans Castrop refeito, atabalhoado com que escutou naqueles cimos olímpicos, desceu por fim à planície para ir meter-se na guerra de 1914, travada em toda a Europa, perdendo-se na névoa e na fumaça da pólvora.O retorno à montanha mágicaOs encontros enciclopédicos de Davos, retomados em 1969 por uma fundação, inspirados num destes momentos em que a realidade imita a ficção, procuram desde então, anualmente recriar aquele clima de confrontos e de interação de idéias que Thomas Mann detalhou a exaustão nas 800 páginas do seu livro, e que Heidegger e Cassirer travaram in corpore em 1929. Simbolicamente, por detrás dessas reuniões, existe a mística de que as grandes soluções da humanidade originam-se dos altos, daqueles lugares elevadíssimos, olímpicos, que estão mais perto dos deuses, os verdadeiros inspiradores e iluminadores dos caminhos humanos. BibliografiaRüdiger Safranski – Heidegger, um mestre da Alemanha entre o bem e o mal (São Paulo, Geração Editorial, 2000); Georgy Lukács – Thomas Mann ( Barcelona-Mexico, Grijalbo 1969); Georgy Lukács – El asalto a la razon ( Barcelona-México, Grijalbo, 1968) Thomas Mann – A Montanha Mágica (Lisboa, Edição "Livros do Brasil" s/data); Thomas Mann- Ensaios (São Paulo, Perspectiva,1988); George Steiner – Heidegger (Mexico. F.C.E.,1986); Ernst Cassirer – Ensaio sobre o Homem (São Paulo, Martins Fontes, 1997) Pierre Bourdieu – A ontologia política de Martin Heidegger (Campinas-SP, Papirus, 1989); Martin Heidegger – Ser e Tempo ( Petrópolis-RJ, Vozes, 1988, 2 vols.); Martin Heidegger – Disputacion de Davos entre Ernst Cassirer y Martin Heidegger, in Kant y el problema de la metafísica ( México, F.C.E., 1996); Wolfgan Stegmüller – A filosofia contemporânea ( São Paulo, Edusp, 1977, 2 vols.); Jürgen Habermas – O discurso filosófico da modernidade ( São Paulo, Martins Fontes, 2000)
|