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Davos, a Montanha Mágica
Desde 1969 reúnem-se em Davos, um lugarejo de luxo dos Alpes suíços, nos finais de janeiro de cada ano, estadistas, políticos, pensadores, personalidades pop e homens de letras do mundo inteiro, convidados para livremente exporem suas idéias ali. São os grandes do mundo de hoje."Este mundo novo, social, este mundo unificado da organização e planificação, no qual a humanidade se sentirá liberada de todos os sofrimentos desumanos e desnecessários que ofendem a razão mesma, este mundo virá....Virá porque uma ordem externa e racional...terminará por ser criada (...) com o fim de que o autenticamente espiritual possa viver de novo e possa fazê-lo de boa consciência." Thomas Mann – "Goethe, representante da época burguesa"
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Davos, a montanha mágica
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Seguramente a inspiração de tais encontros realizarem-se ali foi motivada pela tentativa de reproduzir o rico debate de idéias que permeou o livro de Thomas Mann, intitulado a Montanha Mágica, publicado em 1924, e que se passa inteiramente nos altos daqueles nevados.Bem antes dos atuais debates entre os Donos do Mundo, Davos foi palco de um sensacional pugilo filosófico: aquele protagonizado entre Heidegger e Cassirer, dois eminentes nomes do pensamento alemão do século XX. Martin Heidegger, a maior revelação da filosofia alemã, uma verdadeira estrela em ascensão, era um homem comum. Parecia, agia e vestia-se como um qualquer. Gostava de fazer suas sensacionais conferências em trajes de suábio, típicos da sua terra natal. Por vezes, até com o seu abrigo de caminhar e esquiar. Era intencional. O pensamento dele desprendera-se dos macro-sistemas filosóficos de Kant ou de Hegel, ligando-se às questões da existência, às coisas mais próximas que incomodam e afligem os homens: a angustia, o medo, a morte, o ser e o ser-aqui (Dasein). De certo modo, ainda que envolvida numa linguagem cabalística, carregada de expressões obscuras que nem seus discípulos mais próximos entendiam bem, a filosofia de Heidegger era a expressão da Völkishphilosophie, a filosofia populista, uma inteligentíssima leitura do cotidiano construída ao redor do comezinho e centrada no eu. Um pensamento que teve a audácia de se erguer na Alemanha dos anos vinte, na esteira da derrota na Guerra de 1914-18, em desafio aos grandes monólitos da metafísica, abalados, e um tanto desacreditados, erguidos no passado do Ocidente.
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M. Heidegger
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O primeiro embate público entre o existencialismo e a metafísica, educado e contido como um encontro de cavalheiros, deu-se em 1929, no seminário filosófico de Davos, na Suíça, em meio a uma paisagem montanhosa de tirar o fôlego. De um lado, frente a um público eletrizado como se fosse assistir a uma partida final de um campeonato, apresentou-se Heidegger, então com 40 anos, a mais brilhante cabeça da Alemanha daquela época, um ex-católico, um rude e tosco camponês de cabelos pretos que bramia o cajado contra o estabelecido, exigindo trazer o pensamento para o chão.Do outro, na mesma mesa, estava Ernst Cassirer, com 55 anos, um filósofo neokantiano, descendente do patriciado judaico-alemão, um homem refinado e culto, aureolado com uma cabeleira branca, que ali estava para defender o patrimônio racionalista germânico do ataque que lhe movia a gente da Floresta Negra, propondo exatamente "extirpar a angustia daquilo que é terreno".
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E. Cassirer
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Enquanto Heidegger, emigrado da teologia e da formação católica, fascinado pela "realidade da irrealidade", despendeu demorados estudos sobre um pensador escolástico como Duns Scotus, um critico da razão morto em 1308, sendo também um devoto do monge alemão chamado Abraham a Sancta Clara, tendo pois suas origens intelectuais profundamente enraizadas no mundo místico, Cassirer, bem ao contrário dele, defendera sua tese em 1899 sobre Descartes, o fundador do racionalismo moderno (Descartes, kritik der mathematischen und naturwissenschaftlichen Ernenntnis), inclinado-se desde então para as formas simbólicas, racionais, que o compõe. O sucesso intelectual de ambos dera-se quase ao mesmo tempo: enquanto Heidegger publicou o seu famoso Zein und Zeit (O Ser e O tempo) em 1927, Cassirer concluiu a Philosophie der symboliches Formen (A filosofia das formas simbólicas) em 1929.Poucos mortais entenderam o vocabulário em que os dois divergiram, inclusive o próprio moderador, que, numa das pausas, um tanto tonto, afirmou que os "ambos os senhores falam num idioma muito distinto". Mas , no final, para a maioria pareceu que era Heidegger quem representava os novos tempos. O racionalismo humanista recuara frente à ofensiva daquela filosofia de uma religião "sem fé e sem Deus" de Heidegger.
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