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Cultura e Pensamento

O Dilúvio Ambientalista

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Ativistas do Greenpeace, o mais conhecido dos movimentos ambientalistas que atuam no planeta, colocaram uma réplica da Arca de Noé nos altos do Monte Ararat. Segundo a imemorial narrativa, foi nessa montanha do Cáucaso que ela ancorara após o refluxo do Dilúvio bíblico. Querem que sirva como um alerta para a catástrofe que se avizinha: um novo afogamento da humanidade, vitimada pelo "aquecimento global". Qual seria o motivo da persistência da imortalidade deste mito que atravessa os séculos e que prevê a aproximação de uma punição coletiva, monstruosa, decretada por forças sobrenaturais para punir as espécies de um modo tão cruel como o que provocado por uma pavorosa inundação?

Os deuses devastam a Terra

A Arca de Noé no Monte Ararat, (Greenpeace)
Por ser um bom homem, probo e trabalhador, os deuses enviaram-lhe sinais imperceptíveis aos demais. Foi assim, ouvindo um sussurrar estranho, alarmante, dos caniços das beiras do rio Eufrates, que Utanapishtin e seus familiares, alertaram-se e conseguiram sobreviver ao dilúvio que logo desabou por sete dias seguidos sobre a Babilônia (Poema de Gilgamesh, 11ª tábua). Praticamente a mesma narrativa deu-se com Noé. Esse mito tão fascinante quanto atormentador, – afinal trata-se de um holocausto da humanidade - já mereceu mais de 400 versões em todas as culturas que se conhecem.

Num dos tantos episódios da Ilíada, por exemplo, em que os deuses olímpicos intervêem abertamente no destino dos homens, Homero registra (nos começos do Canto XII) o momento em que , quando finda a guerra com a cidade de Príamo saqueada e destruída, Poseidon e Apolo, associados, decidem inundar tudo. Agiram como se fossem dois encarregados de limpeza que com seus baldes de água e esfregões tratam de remover todo o detrito e sujeira acumulada que encontram pelo chão marcado por sangrentas batalhas:

"....resolveram destruir a muralha" ,narrou então Homero, "lançando contra ela o poderio de todos os rios que correm das montanhas de Ida para o mar...em cujas margens muitos escudos de couro de boi e elmos empenachados caíram no pó, assim como uma raça de heróis semidivinos. Febo Apolo uniu todos esses rios em sua foz e, durante nove dias, lançou a inundação contra a muralha, e Zeus fez chover constantemente, a fim de que a força das águas mais cedo empurrasse a muralha para o mar. O próprio abalador da terra, empunhando o tridente, arrasou com ondas todos os alicerces de madeira e de pedra que os aqueus tinham levantado com grande labor, e fez uma lisa planície ao longo do Helesponto de forte corrente e cobriu de areia a vasta praia, depois de ter varrido toda a muralha. E fez os rios voltarem aos leitos onde antes corriam suas belas águas".

Este mini-diluvio foi, pois, a maneira encontrada pelos Grandes dos Céus de demonstrarem seu desagrado com o enorme banho de sangue, saque e destruição causada pelos dez anos de guerra entre os gregos e os troianos, fazendo com que o cenário das batalhas, o teatro dos heróis famosos, simplesmente desaparecesse para sempre tragado por um turbilhão de rios furiosos e aguaceiro sem fim.

O mito do terrífico aluvião purificador, tão fascinante quanto atormentador (afinal trata-se do holocausto da humanidade) já mereceu mais de 400 versões em todas as culturas que se conhecem. Até o poeta Ovídio, que morreu nos começos do século I quando estava em seu triste exílio numa praia em Timos, não deixou de referir-se à impiedosa torrente de água que, engendrada por Júpiter em conluio com Netuno, caiu dos céus para purgar a Terra do ingrato gênero humano (Metamorfosis 1, 253-312).

Marxismo e Ambientalismo

"O Dilúvio" ( tela de Francis Danby,1840)
Quando, todavia, se supunha que, sob o influxo do Iluminismo, a crença na possibilidade da Terra vir a se desandar, vitimada por um colossal flagelo, era vista como uma assombração do passado supersticioso, eis como que coube a Karl Marx reavivá-la. Ainda que não prevendo a destruição do planeta mas sim a de um sistema econômico que se tornara universal: o capitalista (O Capital, I, XXIV).

Para ele, inevitavelmente o mundo do lucro estava condenado. A velha cobiça humana associada à emergência da ganância dos capitalistas, aflorada desde a Revolução Industrial do século XVIII - concentrando riqueza de um lado e a miséria do outro -, seria a principal responsável pela inevitável destruição do sistema. Os pecadores mesmos é que naufragariam no seu pecado. Como expoente maior da Zusamenbruchstheorie, a teoria da ruína inevitável do capitalismo, Marx assegurou que as massas (o redentor dilúvio humano) se libertariam dos seus exploradores, encontrando o seu destino no comunismo.

Não pode o observador de hoje eximir-se em constatar que justamente quando o cataclismo do capitalismo previsto por Marx não se realizou (deu-se o contrário pois quem, de fato, soçobrou na década de 1990 foi a economia soviética, erguida sob os fundamentos do marxismo), seguido do recente abandono da possibilidade de uma hecatombe provocada por uma guerra nuclear, um novo fim-de-mundo rapidamente os substituiu: o dos ambientalistas.

Segundo eles, uma espécie de dilúvio terceirizado nos aguarda. A inundação que se aproxima decorrerá do "aquecimento global" (resposta catastrofista à otimista globalização capitalista), provocador do derretimento das geleiras polares e do conseqüente o avolumar dos oceanos, tendo como resultado, entre outros horrores, a submersão das populações ribeirinhas e até de países inteiros (para o Brasil chegaram a prever, com espantosa precisão matemática, que abalaria com a vida de exatamente 52 milhões de habitantes!).

Tudo, evidentemente, gerado pela avidez e pela venalidade desatada do consumismo capitalista dos dias de hoje. Deste modo, milhares de anos depois da aparição do primeiro Mito do Dilúvio, os modernos apocalípticos engendraram uma nova paranóia para sobressaltar a humanidade por inteiro.

Bibliografia

O rochedo da esperança em meio ao Dilúvio
Anônimo - A Epopéia de Gilgamesh. São Paulo. Editora Martins Fontes, 2001.

Friedrich, Otto - O Fim do Mundo. São Paulo: Editora Record, 2001.

Homero - Odisséia. São Paulo: Difel, 1960.

Ovídio - Metamorfoses. São Paulo: Martin Claret, 2003.

Ryan, William e Pitman, Walter C. - El Dilúvio Universal. Madri: Editora Debate. 1999.

    
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