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Diego Velázquez e os tempos barrocos (parte II)
Racine, ao término do conflito, está com 9 anos de idade. Pelos planos paternos iria tornar-se um padre. Para tanto, enviaram-no para o seminário de Port-Royal, onde terá como tutor Antoine Lemaistre. Lá, na modesta cela, devorou romances tidos como proibidos: Sófocles, Eurípides, Homero, Ovídio, são seus preferidos. Os autores franceses da época de Luís XIV pretendem ser os novos clássicos; os lídimos substitutos dos gregos e dos romanos. Não é por nada que nas peças do jovem Jean Racine, não existam personagens francesas.Os Orestes, as Andrômacas, os Pirros, os Hermíones, se multiplicam em cena. A França pretende ser a nova Grécia, Paris a nova Atenas, e Luiz XIV um Péricles coroado. O arquiteto e escultor Bernini, o predileto do papado, ao visitar a França, é recebido com uma atenção que rivaliza com a prestada dos grandes príncipes. Dá palpites para a construção do Louvre. Incorre na antipatia dos artistas franceses, despertando-lhes ciúme. A "máquina perfeita" construída por Luis XIV, o aparelhamento palaciano-burocrático que servia ao absolutismo, chega à sua forma mais perfeita, para desespero das classes fundiárias e para enlevamento da burguesia citadina e do povo miúdo em geral que tinham orgulho em ser governado como um rei daqueles. A arte em geral, até então oscilante entre os padrões de gosto ora aristocrático, ora burguês, passa a para influência exclusiva do Estado. Cai na órbita da corte, diretamente subvencionada por Luis XIV. O protocolo cortesão tornou-se uma peça política importante, seu rigor e exigência hierárquica disciplinavam a nobreza ao mesmo tempo em que a humilha. Assistir ao despertar do rei seguido do seu desjejum é cena disputada entre os freqüentadores dos requintes de Versalhes. Dorante, um nobre espertalhão - personagem da peça O burguês fidalgo, de Molière - consegue facilmente arrancar um empréstimo de 200 luíses do crédulo senhor Jourdain, um novo-rico com aspirações aristocráticas, simplesmente dizendo que freqüentava "o quarto do rei", prometendo-lhe por igual levar-lhe a família para assistir na corte "um bailado e uma comédia". A insubordinação aos códigos de convívio é inaceitável. A rigidez do controle social é o mais rigoroso das monarquias européias. Na corte de Luís XIV cada aristocrata possui o seu lugar conforme sua posição e seu destaque. Se infringir as regras, cai em reprovação do Rei, o que significa desgraça social. O sistema paternalístico de Luis XIV trata a nobreza como "enfants terribles" ou crianças travessas, punindo-a, exilando-a, colocando-a em ostracismo ou mimando-a.
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A infanta e suas amas da corte
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As tavernas da moda, "A la pomme de Pin" e "Au mouton-Blanc", estão repletas de gente. O mundo mundano e artístico se faz nelas presente, uma graça ímpar em toda Europa. Molière, ator de sucesso, é o mais novo teatrólogo; Boileau, o primeiro critico literário; La Fontaine, famosíssimo fabulista, juntamente com o autor dramático Jean Racine, brilham nos saraus da corte e nas festas mundanas. Todos se conhecem, Paris é ainda pequena. O libertino, homem pouco afeito aos padrões morais vigentes, torna-se uma figura dos salões onde se cultiva o espírito e belo dito. É um precursor dos livre-pensadores da época do Iluminismo. O discurso do método é publicado na Holanda em 1637. Descartes, auto-exilado, havia procurado as terras protestantes para exercer melhor o pensamento. Cinco anos antes, Spinoza nascera em Amsterdã e inicia sua longa caminhada em favor do livre pensar, lutando simultaneamente contra sua origem judaica ortodoxa e o meio ambiente protestante de viés calvinista. Na França, a Académie Royale de Peinture et Esculture, fundada dez anos após o nascimento de Luis XIV, torna-se em 1665, subsidiária do Estado. Colbert o mais célebre ministro do "Grand Siecle" a coloca entre suas subvencionárias. O todo-poderoso Senhor Colbert, estendendo sua mão poderosa e generosa, concede uma bolsa a Jean Racine, esse em retribuição compõe A Fama das Musas e é recebido por Luis XIV. É a consagração. Tudo gira não redor do "roi soleil" que realmente não sabe avaliar o valor artístico daqueles que protege.
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A rendição de Breda, ou As Lanças
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Nas cortes espanholas, é Felipe IV, um medíocre, quem sucede uma longa fila de reis brilhantes, encabeçada pelo imperador Carlos V e por Felipe II. A Espanha encontra-se já em decadência. O ouro e a prata, trazidos pelos galeões espanhóis após as conquistas feitas por Cortés e Pizarro nas Américas, ale de gerar uma grande inflação dos preços, espalhou-se pela Europa em desperdícios inúteis. O Império de Carlos V, onde "o Sol nunca se punha", virara numa lenda. As tentativas de conquista da Inglaterra, ou pelo menos as tentativas de alijá-las do mercado internacional, haviam sido inúteis.A Inglaterra e a Holanda solidificavam suas posições como soberanas dos oceanos, após uma série de batalhas navais bem sucedidas. A Revolução Puritana nas Ilhas Britânicas (1642-1649), destronara e decapitara Carlos I. A nova ordem republicana foi imposta ditatorialmente. O puritano Cromwell assumia o controle completo do país dotando-o de forte poder marítimo. Felipe IV, então com 23 anos, jovem empoado e sem expressão política, assiste ao pintor que compõe Los borrachos. O realismo quase que fotográfico de Velázquez é a moda. O pintor, agora com 29 anos, chega à fama. O rei é o seu principal cliente, dotando-o com pensão e uma sortida biblioteca.
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Los borrachos
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Com Velázquez opera-se a fusão entre o caravaggismo com o ticianismo, as duas poderosas correntes do barroco italiano transplantado para a península Ibérica. A produção dele se multiplica. A liberdade do artista, que estando a serviço do rei escapa da censura e das exigências eclesiásticas, enseja a produção de obras-primas. O paroxismo está formado. Era preciso estar a serviço do poder para ter-se liberdade criativa. A rendição de Breda, ato de rendição da cidade holandesa frente aos fidalgos de Espanha, é um fantasma das glórias passadas da corte do Escorial. Tal como Cervantes intuíra, a decadência da cavalaria implicava por igual na decadência espanhola e do seu poder sobre o mundo de então. O status dele como cortesão é tal que comete a ousadia de retratar-se juntamente com o rei e figuras secundárias (tela As meninas). O claro-escuro inicial dele, determinado pelo caráter populista de suas primeiras pinturas (Mulher fritando ovos, O vendedor de água de Sevilha, O triunfo de Baco ou Los borrachos, A fagulha de vulcano, Cristo atado à coluna), vai gradativamente se alterando, a influência da vida na corte é imperiosa. Os temas ditos fidalgos (Retrato da senhora com leque As meninas, A infanta Margarida, Vênus no espelho, etc.) não seguem a mesma linha. A luz, antes tão bem utilizada para destacar as expressões da plebe, possui agora outra utilidade. Os modelos são gente que freqüenta a corte, senhoras, damas, áulicos, infantas, altos eclesiásticos, os quais devem obrigatoriamente possuir traços físicos refinados mesmo se a natureza lhes foi cruel. É o caso de Inocêncio X, tela na qual, não podendo evitar o físico grotesco do Papa, apela para seu quase esquecido claro-escuro, ressuscitando-o de forma magistral, fazendo com que o espectador esqueça a feiúra do pontífice. Retratou magistralmente a diversidade das expressões sociais: de um lado, as manifestações expressivas das figuras da plebe flagradas rindo ou concentradas em seu esforço diário. Do outro, os personagens palacianos, gravemente cientes da sua importância. Gente que posa estática, contida nos seus sentimentos, como manda o rigor de ser fidalgo. Mas, podemos igualmente observar nessas figuras empoladas da corte, um ar de estupidez, de parasitismo e de enfado, contrastando violentamente com o dinamismo das figuras populares. O grande pintor faleceu aos 60 anos de idade no dia 6 de agosto de 1660, oito anos antes de Rembrandt, seu contemporâneo, consagrado por todos. Um dos mais festejados artistas espanhóis de todos os tempos.
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