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Diego Velázquez e os tempos barrocos
Pintor exemplar da corte espanhola do século XVII, nascido em Sevilha no ano de 1599, Velázquez foi um dos maiores artistas de todos os tempos. Ainda que rodeado pelos fidalgos cortesãos, não deixou de inspirar-se em figuras populares para compor suas magníficas telas que se tornaram representação viva da sociedade castelhana daquele tempo. Nisso ele antecipou Goya.
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Velázquez, auto-retrato
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Quando o escândalo proporcionado por urna tela de Caravaggio alastrou-se pelas cortes monárquicas e eclesiásticas da Itália, por volta de 1600, Velázquez mal completava um ano de idade, Rembrandt, o gênio holandês, nasceria seis anos após. E, um ano depois, em 1607, na França, nasceria Luiz XIII. O estilo Maneirista dá lugar ao movimento subterraneamente desencadeado pela Renascença, ou melhor seu conseqüente, o Barroco. A violência lírica de Caravaggio é a moda na Itália: o "pintor maldito", "dos pés sujos", e outros pejorativos, impõem-se frente ao público mais refinado.A alta cultura, de preferência a clássica - fator fundamental para os artistas renascentistas - deixa de ter a importância anterior. São imagens de homens do povo quem, doravante, ao longo do Barroco, irão tomar lugar nas cortes européias. Os gostos burgueses e outros de forte inspiração popular, despertados nos séculos XV e XVI, fazem-se presentes de forma irreversível. É o gosto pela morbidez, que hoje enche páginas e mais páginas dos jornais, que faz com que Caravaggio pinte uma mulher afogada, usando-a como modelo da Virgem. A busca por temas populares se multiplica, os personagens santos são cada vez mais modelos tirados da plebe, extraídos da gente comum. A pintura religiosa perde o ar aristocrático que tinha na Renascença. Numa Cristandade dividida entre católicos e protestantes, cada facção religiosa tratava de ampliar ainda mais o apoio das massas. Note-se neste esforço a intenção propagandista da Igreja Católica, aturdida pela Reforma Luterana.
Preparando-se para as batalhas
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A divindade aparece aos ferreiros
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Inácio de Loyola, um soldado que aderira aos rigores mais extremos da fé, organiza um exercito de monges. Uniformizados com a roupa negra, disciplinados como se fossem cavaleiros templários, os jesuítas põem-se a campo na luta contra a heresia difundida por Lutero desde a Alemanha. A Europa era, para ele, o primeiro campo de batalha a ser vencido. Não podendo mais recuperar as áreas perdidas, irremediavelmente protestantes, aferra-se em solidificar o que restou, isto e, a Itália e a Espanha e a França. A dualidade da política do papado manifesta-se de forma ambígua. Permite apelos aos plebeus, mas na sua essência continua fundamentalmente aristocrática. As correntes da estética naturalista vindas do Renascimento e mesmo do Gótico, afloram aqui e ali, enquanto o passional, a emoção, pede em altos brados sua participação nas belas artes dos tempos barrocos. Se os santos são figuras populares, porque não utilizar esses mesmos modelos em suas atividades triviais? Então surgem nas telas ferreiros em suas tarefas cotidianas surpreendidos pela presença súbita de uma divindade qualquer, um menino trazendo nas mãos uma garrafa e uma abóbora enquanto a sua mãe frita ovos, moleques tentam subir numa árvore. O realismo de Velázquez faz sua fama.
Conciliando o povo com os fidalgos
Diego Velázquez, o grande artista da corte, é o elemento unificador desta nova mentalidade conciliadora que visa aproximar gente comum dos fidalgos, todos eles filhos de Deus, intercalando aspectos plebeus para atender sua freguesia burguesa e aspectos cortesãos para seu mecenas, Felipe IV. Ele apresentou-se no palácio real em 1622, no tempo do regime do Conde-Duque de Olivares, vindo de Sevilha, precedido pela fama de homem talentoso. Veio para substituir Rodrigo de Villandrando, até então o artista favorito do rei Felipe III, pai do novo príncipe que logo se entusiasmou com o recém-chegado. O pintor flamengo Brueghel, anterior ao sevilhano, já chamara atenção para o aspecto patético dos aleijões, dos mendigos, dos deserdados da terra que povoavam os quadros dele. Velázquez os promoveu da rua para dentro da corte. Os anões dele são figuras humanas, respeitáveis, não simples bobos da corte. O dualismo dos seus retratados é marcante. Os anões dele, imitando seus senhores, são retratados com a impassibilidade aristocrática, modo que se tornara corrente entre a corte de Luiz XIV, mostrando que apesar de bufões, possuem um notável censo da posição que ocupam na corte. Dois anos apos a morte de Shakespeare, em 1618, inicia-se a tragédia do século – a Guerra dos Trinta Anos – que engolfou toda a Europa. País por país, todos mergulham no sangrento conflito. Os camponeses, com suas choupas queimadas e vilas saqueadas pela soldadesca lansquenete, padecem de fome pelas estradas, exércitos se multiplicam vindo de todos os lados. Os suecos de Gustavo Adolfo são vistos como os novos hunos. A pilhagem da população civil que atinge as raias da perfeição pela tropa mercenária. A terra arrasada do inimigo tornou-se um principio militar: mata-se pelas armas e pela fome. Quantos padeceram ao longo da Guerra dos Trinta Anos? Questão sem resposta. Só existem estimativas, e elas indicam que a Alemanha perdeu 1/3 da sua população. Os fundos reais e eclesiásticos desviam-se das mãos dos artistas para a dos mercenários: a arte sofre com isso. Finalmente o Tratado de Paz de Westfália, de 1648, põe um termo não conflito A estrela da coroa da França passa a brilhar no cenário europeu. O reino dos Luíses foi o que menos padeceu com as terríveis agruras daquela longa guerra.
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