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Goya, o pintor das mil caras (parte III)
Nascido em Fuendetodos, aldeia da província de Saragoça, em 30 de março de 1746, capital de Aragão, Francisco de Goya aos treze anos já adentrava no atelier de José Martinez Luzán, para fazer da profissão de pintor o seu destino e consagração. Ainda que rejeitado pela Real Academia de Bellas Artes de Madri, e após uma proveitosa viagem à Itália no ano de 1770, ele abandonou em definitivo a província. Graças ao empenho de Francisco Bayeu, seu cunhado e mestre, alcançou chegar-se à Corte, na capital. O grande Velásquez, morto em 1660, tinha em fim um sucessor a sua altura.
As Impressionantes Gravuras de Goya
"O autor está convencido de que é uma tarefa do pintor criticar os erros e vícios humanos da mesma maneira que o fazem a poesia e a prosa."- Goya - Provavelmente depois de Rembrandt, poucos mestres conseguiram atingir o preciosismo da técnica da gravura como Goya. Pode-se considerá-la como a arte do instantâneo, daquilo que não demanda muito tempo na sua feitura, o que corresponde mais rapidamente a uma idéia fugaz do artista. A prática da água-forte e da litografia era recente, e o artista fez largo uso delas para atender aos flagrantes das diversões do povo (as cenas de touradas e as popularíssimas corridas de touros), assim como as peripécias do dia-a-dia dos espanhóis, captando o instante maravilhoso, insólito, em que algo, real ou imaginário, sucede na mente do criador, que logo lhe da vida em forma de imagem qualquer. Essas gravuras estão dividas em quatro grandes blocos e formam um conjunto que é bem superior a 200 estampas, separadas entre: 1) Os Caprichos: 80 imagens realizadas entre 1797 e 1799, cuja temática satiriza, com forte teor crítico, caricatural, os vícios e defeitos latentes na sociedade espanhola do Antigo Regime. As cenas, em sua grande maioria desenvolvidas em ambientes noturnos, giram em torno de dois temas principais: a prostituição e a superstição. Nas palavras do próprio artista, seus caprichos tinham o intuito de "fustigar preconceitos, imposturas e hipocrisias consagradas pelo tempo". A comercialização das obras chegou a ser proibida pela Inquisição (quando vivo, das 300 reproduções que Goya fez da coleção vendeu apenas 83 delas). 2) Os Desastres da Guerra: 82 estampas fortemente realistas sem data certa de execução, que conduzem à sátira política e a um irado protesto contra os crimes da humanidade. Os horrores da Guerra da Independência Espanhola (1808-1814) foram impressos com muita força dramática, juntamente com títulos em formato de comentários, provérbios, insultos ou elogios. "Eu o vi", escreveu ele numa delas. Era uma visão completamente oposta a daqueles tantos outros artistas convencionais que a pintavam como palco da grandeza e da honra. Como seu antecessor somente se aponta Jacques Callot (+ 1635), que desenhou os tormentos da Guerra dos Trinta Anos, numa série de estampas em 1633. Provavelmente em função do receio da pena de morte, Goya tenha escondido seu testemunho até o final de sua vida: Os Desastres da Guerra só foram impressos em Madri em 1863, trinta e oito anos após sua morte e desde então a série foi entendida como um libelo contra a guerra, uma das maiores contribuições de um artista na denuncia da barbárie humana.. 3) A Tauromaquia: conjunto de 40 gravuras sobre as touradas, engendradas a partir de 1815, foi realizada em uma época de dificuldades financeiras do artista e num período de intensificação da censura e vigilância da parte do Tribunal da Inquisição. A maioria das suas cenas apresenta o dinamismo e a violência do encontro entre o homem e a fera com intenção documental ou como se fora um jornalismo de espetáculos que testemunha o que se passou na arena de touros. Uma espécie de versão castelhana do combate dos lápidas contra os centauros esculpidos nos frisos do Pártenon. 4) Os disparates, por fim, resulta na série de mais difícil interpretação: as especulações circulam em torno de uma concepção surrealista da sociedade, da sátira aos acontecimentos políticos, da psicologia e das tradições folclóricas e carnavalescas do povo da Espanha. Acredita-se que esse trabalho - também conhecido como Provérbios - não chegou a ser concluído, sendo a última grande coleção de Goya. As gravuras mostram impressões oníricas e fantásticas, repletas de monstros, assombrações, bruxos, fantasmas gigantescos, de máscaras voadoras, de animais e pássaros estranhos, de morcegos, de espíritos assustadores e outros seres inexplicáveis. Para tanto, o artista mergulhou nos fundos mais sombrios das fantasias e fobias humanas, algo assim como a visão de um lunático ou de um desvairado na cata dos mistérios do inominável. Composições que foram uma inesgotável fonte de inspiração para Salvador Dali e Luís Buñuel e tantos outros artistas surrealistas do século XX. O filósofo Ortega y Gasset, num ensaio famoso e um tanto equivocado, considerou Goya "um monstro...e o mais decidido monstro dos seus monstros", visto que agia como um "sonâmbulo" em meio às duquesas e aos ilustrados, não sabendo captar o entusiasmo que o povo espanhol daquela época devotava ao teatro e às touradas (grande festa nacional na qual o povo comum atraiu a nobreza para a arena numa rara confraternização interclassista). Quando não estava pintando gente da corte, preferiu reservar-se às escuridões, cultivando delírios e fantasias doidas. Para Ortega, o pintor era um perdido, um extraviado, sem entusiasmo suficiente para levar a diante um projeto autêntico.
Surdez , isolamento, repressão e exílio
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Os desastres da guerra (Goya)
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Perdendo a audição desde que sofrera uma grave e estranha doença em 1792, durante uma viagem, Goya isolou-se cada vez mais. Comentam que seu lado dramático aflorou mais ainda depois disso. O fato dos franceses terem se retirado e um rei espanhol voltar a empunhar o poder não livrou o reino das desgraças nem trouxe a almejada paz ao país. Vingativos, os partidários de Fernando VII, um absolutista convicto e intransigente, deram caça a todos aqueles políticos e figuras eminentes que haviam apoiado as reformas iluministas desde a época de Carlos III e de Godoy, culpando-os pelas perdas do império.Eram os tempos da Santa Aliança na Europa (1815-1848). A coligação legitimista e reacionária, restaurando o mando dos nobres e do clero, espanta os burgueses e o povo e sufoca as liberdades. O Santo Oficio reabriu suas inquisições contra os inimigos do rei e da Igreja, submetendo-os aos sanbenitos (traje obrigatório usado pelo réu). Os amigos de Goya e o próprio artista, então com mais de 70 anos de idade, vivendo retirado desde 1819 na sua propriedade La Quinta del Sordo, situada nas margens do rio Manzanares, sentiu-se ameaçado. Eram vistos, pelo rei e pelo populacho, como os odiados afrancesados caídos em desgraça com a derrota de Napoleão. Mais de 50 mil espanhóis emigraram fugindo das purgas dos absolutistas vitoriosos e de sacerdotes vingativos. O clima reinante, perigoso e soturno, seguramente o conduziu às Pinturas Negras, sucessão impressionante de 14 obras, pintadas entre 1819-1823, realçando a estupidez e os pavores coletivos. Em vista da situação política, não houve para ele outra solução senão que se abrigar no exílio. Ainda que anistiado e tendo recebido uma generosa pensão real, faleceu octogenário em Bordéus, na França, junto com seus companheiros liberais, Leandro Fernández de Moratín e o poeta, Silvela, entre outros, no dia 28 de abril de 1828. Certa vez, um criado dele, Isidro, impressionado com as Pinturas Negras com que decorou La Quinta, perguntou-lhe qual o motivo dele enfocar "as barbáries dos homens", Goya então lhe respondeu: "Eu as pinto para ter o gosto de dizer eternamente aos homens que não sejam bárbaros".
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Um julgamento pelo Tribunal do Santo Ofício (Goya)
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1746 - Nascido em 30 de março, Goya recebe as crismas na igreja de Fuendetodos, aldeia da província de Saragoça, capital de Aragão.1770 - Viagem à Itália como bolsista da Academia de Arte de Parma, retornando no ano seguinte a Saragoça, onde começa os afrescos da igreja da Cartuxa de Aula Dei. 1774 - Mudança para Madri. Produz cartões para a Real Tapeçaria de Santa Bárbara, o que logo o habilita a ser recebido na corte. Carlos III o protege e encomenda-lhes retratos. 1783 - Retrata os ministros do rei e membros da alta nobreza. 1786 - Nomeado pintor do rei, com proventos de 15 mil reais. 1789 - Nomeado como pintor da câmara. O novo rei Carlos IV por igual o apóia. Eclode a Revolução Francesa. 1792 - Goya adoeça com gravidade. Nunca mais recuperou a audição. França proclama-se republica, Luis XVI e sua esposa são encarcerados no Templo em Paris.Condenados pela Convenção são executados no ano seguinte. 1795 - Ironicamente torna-se diretor da Real Academia de Bellas Artes que o havia rejeitado quando pintor iniciante. Retrato da famosa Duquesa de Alba e do seu marido. A Paz de Basiléia põe fim ao conflito da Espanha com a França do Diretório. Começa a ascensão de Manuel Godoy, o valido do rei Carlos IV e protetor de Goya. 1800 - Famosa tela La família de Carlos IV 1805 - Batalha naval de Trafalgar. Desaparece o poder naval da Espanha Imperial, começo do declínio de Manuel Godoy e dos afrancesados. 1807 - Tropas francesas, de acordo com o Tratado de Fontainebleau, entram na Espanha para conquistar Portugal devido sua negativa em participar do Bloqueio Continental. 1808 - Motim de Aranjuez. Carlos IV abdica. Godoy é perseguido. O príncipe Fernando ambiciona o trono como Fernando VII. Napoleão os convoca para o Acordo de Bayone. Os reis da Espanha renunciam em favor de José Bonaparte. Multidão em Madri se revolta contra as tropas francesas. A guerra se alastra pelo país. Napoleão ocupa a península ibérica. 1810 - Goya começa a série Los Desastres de la Guerra. 1814 - Com a retirada francesa, Fernando VII retoma a coroa da Espanha. Seguem-se tumultos e desacertos de toda ordem. Pintura do El 2 de mayo de 1808 em Madri, e do célebre Los fusilamientos del 3 de mayo. Acusado pela Inquisição de pintar obscenidades devido ao encontro da tela La maja desnuda, confiscada dos bens de Godoy. 1816 - Aparecimento da série Tauromaquia 1819 - Goya adquire La Quinta Del Sordo, Começo das Pinturas Negras, que marcam o fim artístico do Século das Luzes. 1820-1823 - Guerra civil entre liberais e absolutistas. Nova Intervenção militar francesa, desta feita em nome da Santa Aliança, para restabelecer o absolutismo de Fernando VII. Onda de perseguições aos liberais. Goya teme por sua segurança e transfere a propriedade ao seu neto Mariano. 1826 - O rei termina por conceder-lhe generosa pensão, depois dele ter passado um tempo exilado na França. 1828 - Faleceu no dia 16 de abril em Bordéus, na França, cidade em que decidiu passar os seus últimos momentos. Seus restos mortais, suas cinzas, encontram-se na ermida de San Antonio de la Florida, cujo interior ele pintou. BibliografiaAymes, Jean-Renné – La Guerra de la Independencia en España(1808-1814). Madri: Siglo XXI de España editores, 1974. Anes, Gonzalo – El Antiguo Régimen: Los Borbones, in Historia de España Alfaguara IV.Madri:Alianza Editorial, 1975. Artola, Miguel – La Burguesia Revolucionaria (1808-1874). Madri. Alianza Editorial.1973. Bennassar, Bartolomé – Historia de los españoles. Barcelona: Editorial Crítica, 2v.1989. Bozal Fernández, Valeriano; Goya y el gusto moderno. Madri: Alianza Editorial, 1994. Carr, Raymond – España: 1808-1939. Barcelona: Editorial Ariel, 1969. 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Moreno, Ceferino (org.) – Grabados Españoles de los Siglos XVIII y XIX..Madri: Dirección General de Relaciones Culturales del Ministerio de Asuntos Exteriores, 1982. Ortega y Gasset, José - Preludio a un Goya e Sobre la Leyenda de Goya. Madri: Revista de Occidente, 1958. Ortiz, Antonio Domínguez - Sociedad y Estado en el siglo XVIII español. Barcelona: Ariel, 1981. Sarrailh, Jean – La España ilustrada de la segunda mitad del siglo XVIII. México: Fondo de Cultura Económica, 1992. Seco Serrano, Carlos – Godoy: el hombre y el político. Madri: Epasa-Calpe, 1978. Tizón, Héctor – La España Borbonica. Madri:Altalena D.L., 1978. Torri, Julio – La Literatura Española. México: Fondo de Cultura Económica, 1952. Wilson-Bareau, Juliet – Goya. Yale University Press, 1997.
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