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Goya, o pintor das mil caras
Nascido em Fuendetodos, aldeia da província de Saragoça, em 30 de março de 1746, capital de Aragão, Francisco de Goya aos treze anos já adentrava no atelier de José Martinez Luzán, para fazer da profissão de pintor o seu destino e consagração. Ainda que rejeitado pela Real Academia de Bellas Artes de Madri, e após uma proveitosa viagem à Itália no ano de 1770, ele abandonou em definitivo a província. Graças ao empenho de Francisco Bayeu, seu cunhado e mestre, alcançou chegar-se à Corte, na capital. O grande Velásquez, morto em 1660, tinha em fim um sucessor a sua altura.
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Auto-retrato de Goya (1746-1828)
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O jovem Goya deixou para trás um conjunto de temas religiosos por ele executado nas igrejas de Calatayud, Muel e Remolinos, no Palácio dos Condes de Sobradiel, além das que realizou na Cartuxa Aula Dei e no Coreto da Basílica do Pilar, em Saragoça, nas quais são evidentes as influencias dos temas classicistas e mitológicas adquiridas pela viagem à Parma, terra de Corregio e Carraci. Período esse considerado de aprendizado, sem maiores conseqüências para o seu desenvolvimento posterior, pois logo ele encontrou outros caminhos para expressar sua arte. Não tardou para que, a força do seu evidente talento, de colaborador da Real Tapeçaria, se projetasse como um dos melhores artistas à disposição de Carlos III. Deslumbrou-se com o acervo de telas de Velásquez encontrado no Palácio Real de quem, a força de muita repetição, aprendeu a fazer retratos, gênero que ele dominou com brilho, vigor e intensidade, formando grossa clientela.Na Corte, onde trabalhou prodigiosamente por 40 anos, Goya estreitou seu convívio com os ilustrados, os reformistas afrancesados que cercavam ou compunham os ministérios, primeiro com Jovellanos e depois com Manuel Godoy. Neste ambiente, tornou-se íntimo da Duquesa de Alba, tida por mulher airosa e sensual, de quem deixou inúmeros retratos. Sucedem-se as obras. Trafega com desembaraço crescente entre as solicitações dos religiosos (frescos de San Antonio de la Florida, Jesus en el huerto), dos soberanos (Carlos III, Carlos IV e a família real, do infante don Luís de Bourbon), dos ilustrados amigos (Jovellanos, Godoy) dos fidalgos (Conde de Floridablanca, don Martínez y Pérez, conde de Altamira) e das fidalgas (além da Duquesa de Alba, retratou a duquesa de Osuna, condessa de Chinchón), e, finalmente, aquilo que ampliaria ainda mais seu nome, a massa de mais de 200 gravuras testemunhais ou imaginativas, fruto do que viu e do que possivelmente sonhou/delirou.
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A Duquesa de Alba, favorita da Corte (Goya)
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A multiplicidade dos temas das suas telas e desenhos foi ímpar. Dos salões da fidalguia e dos familiares do soberano, de incontáveis retratos dos "grandes" do reino, passava às cenas de galanteria e de aprazíveis encontros campestres ou de caçadas. Em seguida, abria as portas do mundo popular, aquele dos palcos da farândola, das exibições das guitarras, dos bailes folclóricos, dos carnavais e das praças de touros. Ou ainda expondo o horripilante planeta dos endemoniados, espiando para dentro dos pátios dos hospícios com seus "currais" de loucos.Do palácio real à rua, do nobre ao comum, do ambiente refinado ao lugar miserável, sórdido mesmo, tudo foi por ele revelado, tal como se ele fora um ativo jornalista de costumes, sempre atento ao exótico e ao bizarro, ao que chamasse a atenção dos outros, pela beleza, pelo espanto ou mesmo pelo terror (como sua célebre tela "Saturno devorando o seu filho", 1820-1823). Mereceu-lhe atenção inclusive um pobre coitado que desabara de uma obra em construção (El albañil herido, 1786-7). Deste modo ele se conduzia como que levasse uma espécie de vida dupla, uma voltada para a Corte, atuando profissionalmente como um favorito, um artista à disposição do poder, e a outra como um homem livre/ ou desgarrado que freqüentava o mundo plebeu, atraído pela variedade das coisas que o atraem (touradas, festas populares, procissões, passeios,etc..)
Peregrinação a San Isidro
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A procissão de San Isidro (Goya –1820-3)
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Esta oscilação de 180° no entendimento dele sobre as coisas do mundo, observado com muito acerto por Robert Hughes, exemplar são as duas telas que ele compôs sobre o mesmo tema, distanciadas uma da outra por mais de trinta anos. Na primeira, La pradera de San Isidro, pintada num cartão em 1788, ele mostra um piquenique de fidalgos nas cercanias de San Isidro, então um parque natural na periferia de Madri, assim batizado em homenagem ao santo patrono da cidade.Casais de jovens bem nascidos, dândis e graciosas, se espalham pela colina para um almoço amigável, no qual salientam-se gestos educados, gentis, em meio a uma conversa que parece ser aprazível, enquanto que pela pradaria, vindas da cidade, se espalha uma enorme quantidade de diligências e coches trazendo mais pessoas da cidade para acampar naquelas aprazíveis delícias para homenagear o santo no seu dia. É um momentoso flagrante das coisas boas da vida aristocrática no Antigo Regime. Trinta e tantos anos depois, aquele mesmo local vê-se invadido por uma outra multidão, na verdade uma turba tenebrosa. Passados aquele tempo, com revoluções, invasões e guerras, os peregrinos de San Isidro são outros. Assemelham-se a uma horda fantasmagórica saída dos breus da terra. É um povo bruto e feio, assustado e assustador, que se comprime no alto da colina santa. Por detrás da primeira leva, um miolo caricaturesco formado por aleijões e alucinados, estende-se uma fila sombria de encapuzados, marchando como se fora um pesadelo, encobertos por um cenário dominado pela obscuridade de um entardecer repentino. É a procissão dos desgraçados da terra. Como nunca na história cultural da Espanha, fidalgos e a gente comum foram mostrados de um modo tão contrastante como pela composição e cores daqueles dois quadros de Goya, tendo San Isidro como pano de fundo. Não foi sem razão que ele morou em Madri durante algum tempo na calle Del Desengaño, nº1.
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