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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Goya e a Espanha do seu tempo (parte III)

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» Goya e a Espanha do seu tempo (parte I)
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte II)
» Goya e a Espanha do seu tempo (parte IV)

 
Como nas tantas histórias encantadas conhecidas, arábicas ou persas, foi de certo modo através dos tapetes que Francisco Goya y Lucientes (1746-1828), artista até então desconhecido na Espanha, chegou às portas da Corte de Madri no ano de 1774. Começava assim, com o seu amparo técnico às artes das tapeçarias, uma das mais prolíferas e espantosas carreiras artísticas de um grande mestre das cores e do desenho, tido por alguns críticos como o primeiro dos pintores modernos dos tantos que a Espanha gerou.

Espanha e França

Manuel de Godoy, valido de Carlos IV ( Goya)
As relações da Espanha monárquica com a França revolucionária, tema central na época de Goya, podem ser divididas em três momentos distintos. Num primeiro, logo que chegou a confirmação da execução de Luís XVI por ordem da Convenção Jacobina, ocorrida em 21 de janeiro de 1793, a Coroa espanhola decidiu-se pela guerra visto que Luís pertencia à mesma família reinante ao sul dos Pirineus. Carlos IV manifestava assim uma reação à morte de um parente seu, algo que não poderia deixar passar em brancas nuvens. De curta duração, foi encerrada em 22 de julho 1795, com a assinatura da Paz de Basiléia, sem que as armas espanholas tivessem tido qualquer sucesso.

Além disso, indispor-se com a França, inimiga do Império Britânico, implicava em expor as colônias americanas ao poderio dos ingleses sem haver apoio de qualquer outro aliado. Uma Espanha já bastante enfraquecida não podia enfrentar a esquadra britânica que então dominava boa parte dos mares e oceanos sem que de algum modo não contasse com o amparo dos franceses, fossem eles revolucionários ou não.

O artífice dessa nova política pró-francesa, de selar o destino da Espanha aos sucessos do Diretório e depois ao de Napoleão, que vai se estender por treze anos, foi Manuel de Godoy. Este era um jovem comandante da Guarda Real que ascendera a posições extraordinárias junto à corte de Carlos IV e da sua esposa, a rainha Maria Luísa. Intitulado como "Príncipe da Paz" e "Ministro Universal", ele governou o reino como seu virtual ditador, ainda que benigno. De certo modo, Godoy, um protetor de Goya que, como o pintor, não tinha origem aristocrática, estava totalmente adequado aquele momento histórico. Tratava-se de um daqueles "homens novos" que proliferaram então pela Europa como símbolo da Nova Era provocada pela Queda da Bastilha que projetou tipos ambiciosos, sem vínculos com a fidalguia governante, e que eram tidos como "aventureiros", pelo olhar das classes conservadoras.

A política externa pró-francesa, ainda que conduzida pela lógica do pragmatismo, não era bem vista pelos espanhóis em geral, na medida em que deixava Madri politicamente subalterna aos interesses gerais do Império Napoleônico. Feria-lhes o orgulho e o sentimento de honra ver o seu soberano depender dos humores do general corso, além de amarrar-lhes o destino à política de conquistas da França.

Tudo de certo modo foi tolerado até ocorrer o desastre naval de Trafalgar, durante a Segunda Guerra contra a Grã-Bretanha (1805-1808). Batalha travada em águas da Espanha, no dia 21 de outubro de 1805, na qual marinha real aliada à esquadra francesa, foi fragorosamente batida pelos navios do almirante Nelson, dando início à decadência do império marítimo dos Bourbon espanhóis, o que abriu caminho para a terceira e derradeira etapa daquele relacionamento difícil, quando os desentendimentos internos entre o rei e o príncipe da Espanha conduziram ao motim de Aranjuez, de 19 de março de 1808, seguida da violenta intervenção militar francesa a partir de 2 de maio de 1808.

No entendimento dos iberos, fossem fidalgos ou gente comum, não haviam mais sentido em manter-se ao lado de Napoleão pois aquela aliança em nada garantira a segurança dos mares e a manutenção dos territórios coloniais, como logo iriam constatar com a eclosão da revolta geral do Novo Mundo contra os vice-reis da Espanha.

Buenos Aires, por exemplo, capital do longínquo Vice-Reino do Prata, ameaçada pela esquadra inglesa do comodoro Popham e pelo desembarque do general Beresford, entre 1806-1807, deles se livrou com um levante popular em que milícias urbanas de portenhos, comandadas pelo capitão honorário Manuel Belgrano, tiveram papel ativo na expulsão do inimigo, sem que a metrópole lhes pudesse auxiliar no que fosse (acontecimento que antecipou o que iria ocorrer em seguida na própria Madri, em 2 de maio de 1808, quando o povo da metrópole por igual insurgiu-se contra os estrangeiros, no caso, os franceses). Tudo então conduziu para um aberto enfrentamento entre os antigos aliados: os regimentos de Napoleão não eram mais bem vindos na Espanha.

O Motim de Aranjuez

O motim de Aranjuez, o povo em frente ao palácio real (março de 1808)
Trafalgar não fez afundar somente as esperanças da esquadra espanhola, levou consigo igualmente o pouco prestígio que ainda restava a Manuel Godoy, o valido do rei Carlos IV. O mal estar reinante depois da derrota, a busca por um culpado pelas mazelas nacionais, fez com que o ministro "afrancesado" se visse alvo do ódio de todos. O que havia de ruim que estava acontecendo no reino devia-se aquele homem. Explorando em seu proveito o descontentamento crescente, Fernando, o Príncipe das Astúrias, aliando-se a inúmeros nobres e militares descontentes, propôs abertamente remover do trono o seu pai, o rei Carlos IV. A oportunidade surgiu quando Godoy, sentido um clima cada vez mais pesado cercando o rei, tentou fazer com que a corte - imitando o ocorrera em Portugal invadido pelos franceses, ocasião em que o príncipe João e seus cortesãos foram removidos pela esquadra britânica para o Brasil – fosse removida de Madri para Sevilha ou, talvez, para transportá-la para a América.

A notícia do abandono da capital por Carlos IV gerou uma grande revolta. No 19 de março de 1808, multidões tomaram as ruas. O Palácio Real em Aranjuez, situado a 48 quilômetros de Madri, viu-se cercado por multidão amotinada. Não queriam que o rei partisse. Não só isso, exigiram que ele renunciasse ao trono. Enquanto isso, grupelhos mais extremados invadiram a residência de Godoy arrasando com tudo. Em menos de 24 horas o poder do Ministro Universal, acusado de "despotismo ministerial", se esvaiu para sempre. Este episódio frente ao Palácio Real ficou na história da Espanha como o equivalente a Tomada da Bastilha. Carlos IV era o segundo monarca Bourbon, depois de Luís XVI, a vir abaixo por motivo de uma sublevação generalizada do povo.

O vexame de Bayone e o Levante de Dois de Maio

O povo contra os soldados (Goya – Os desastres da guerra)
Até aquele momento, as tropas franceses acampadas na Espanha - de acordo com o Tratado de Fontainebleau, de 27/10/1807 - em apoio à campanha contra Portugal, comandadas pelo marechal Murat, não haviam ainda sido envolvidas nas confusões espanholas. Todavia isso não perdurou por muito. Insatisfeito com a situação, com a instabilidade que começou a se alastrar pela península inteira devido a briga dos soberanos, Napoleão convocou os dois reis da Espanha, Carlos IV e Fernando VII, para um encontro em Bayone, no sul da França, em 20 de abril de 1808, para encontrar uma solução. A dele foi a pior possível.

Obrigou a que o pai e o filho, que descendiam de uma dinastia que reinava há mais século, renunciassem à coroa e indicou para ocupar o lugar deles ninguém mais senão que o seu irmão José, entronando-o como José I de Espanha, apelidado pelo povo de Rei Intruso. Até uma nova magna carta ele mandou redigir: a Constituição de Bayone. Esta manobra desastrada, ofensiva aos brios nacionais, foi demais para a insuportável amargura da gente ibera. A Espanha não somente perdera Trafalgar, e o que restava do domínio dos mares, como ainda era constrangida a assistir o Palácio Real vir a ser ocupado por um rei estrangeiro. A tensão na capital subiu então a níveis inauditos, visto que os sentimentos patrióticos atiçados pela arrogância de Napoleão viram-se arrastados na lama.

Então, assim do nada, explodiu o Dois de Maio de 1808. As patrulhas de Murat logo foram atacadas de todos os lados. Tiros partiam das janelas enquanto água e azeite fervendo eram jogados do alto das sacadas contra os soldados estrangeiros. Pelas ruas, empunhando o que tinham a mão, fossem foices, achas, pás, facões ou simples porretes, turbas de patriotas vagavam, coléricos, dando caça aos franceses. Muitos deles, extraviados, foram linchados. Junto, naquela orgia desbaratada de violência, eram por igual perseguidos os afrancesados, os que colaboravam com Napoleão ou lhe eram simpáticos.

Foi uma revolta anárquica sem comando ou direção. A intenção de muitos madrilenos era conseguir fechar as portas da cidade para que os franceses não pudessem mais entrar nela. Dai ter havido um memorável combate corpo a corpo na Porta Del Sol e no Parque Monteleón. Era o chuço contra a espada.

Bravura popular que não demorou a ser cruelmente reprimida pelas brigadas ocupantes, inclusive contando com tropas polonesas e muçulmanas. As ruas e vielas de Madri tornaram-se um matadouro em céu aberto. O Marechal da França fez a cidade calar-se aterrorizada. Goya, impotente, segundo um criado dele, assistiu as execuções por detrás das venezianas da sua casa.

O próprio Napoleão viu-se obrigado a se deslocar para península para por um término na insurreição geral que ameaçava o seu domínio. Se conseguiu reverter a situação nas cidades maiores, como Valladolid, Santander, Saragoça, Sevilha e Cádis, no campo proliferaram ações de "partidas" formadas por camponeses e pequenos fazendeiros armados. Os franceses que tinham 80 mil homens em 1808, ampliaram-nos para 200 mil em 1811, o que de pouco lhes adiantou. "Exasperamos os povoados", escreveu um general ao Imperador, "e não sabemos ganhar os indivíduos".

Ninguém captou melhor o sentimento de ódio e de vingança pelas humilhações sofridas pela gente de Madri naquela ocasião como Goya o fez numa série de 82 estampas denominadas de Los desastres de la guerra (1810-1820).Como ele escreveu ao rei na ocasião em que o trono havia sido recuperado por Fernando VII, o Desejado, "sentia o desejo mais ardente de eternizar com o pincel as cenas mais honrosas do nosso levante contra o tirano".

Como registro literário do ocorrido, o poeta, Don Juan Nicasio Gallego (1777-1853), deixou o seguinte verso:

O Dois de Maio

Noite, tenebrosa noite, eterno asilo
do miserável que esquivando o sono
em teu silêncio pavoroso geme,
não desdenhes minha voz: narcótico letal
empresta as minhas têmporas, e em teu horror sublime
empapada a ardente fantasia,
dá a meu pincel fatídicas cores
com que o tremendo dia
trace ao fulgor de vingadora tocha
e o ódio irrite da pátria minha,
e escândalo e terror ao orbe seja...

Quando José I por fim, em 5 de dezembro de 1808, entrou na capital, apoiado na Guarda Imperial de Napoleão para assumir o trono de Espanha, o país estava exausto mas longe de querer depor as armas. Ao contrário, tomou fôlego para a longa Guerra da Independência espanhola que se estendeu até 1814, quando por fim os franceses recuaram em definitivo, assolados por nuvens de guerrilheiros, "simples labriegos, artesanos anonimos", liderados por Juan Martin El Empecinado, e pelo cura Merino. Na Península Ibérica repetia assim, com seus padres e pobres do campo rebelados, a guerra da Vendéia de 1793.

Fernando VII, convertido a uma posição ultra-reacionária, então voltaria ao trono em Madri para impor um longo reinado (1814-1833) de poucas luzes, atraso e imobilismo. Situação da qual a nação somente se recuperou ao redor de 1850.

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