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A Fé e a Razão: São Paulo no Areópago
Nos começos evangélicos do cristianismo, São Paulo decidiu tentar convencer os atenienses das certezas da nova fé que encarnara. Para tanto apresentou-se no areópago da cidade para travar um encontro com os intelectuais de Atenas. Quis seduzir os veneráveis homens de pensamento, herdeiros das escolas platônica e aristotélica, com as proféticas mensagens de Cristo e sua certeza no advento do Reino dos Céus. Foi o primeiro embate entre a fé cristã e a razão pagã que se tem registro, embate que iria se prolongar por séculos, mesmo depois do desaparecimento do antigo mundo pagão.
Atenas nos tempos de Paulo
O apostolo Paulo, navegando pelo mar de Beréia, na Macedônia, chegara em Atenas adiantando em dois dias aos que o seguiam. Enquanto punha-se na espera de Silas e Timóteo, seus companheiros de evangelização, resolveu andarilhar pela cidade de cima a baixo, não recuando nem frente às estreitas e suspeitas vielas da outrora capital do mundo helênico. Quando ele apontou por lá (as datas divergem, variando entre os anos de 49 e 54), muito do antigo fausto da cidade de Péricles se fora. Mesmo os romanos, seus ocupantes, tendo-a tratado com respeito, fazendo dela um centro de referência para a elite política e intelectual do império (lá estiveram peregrinação Sila, Pompeu, César, Marco Antônio, Agripa, Cícero, Virgílio, e tantos outros mais), não puderam evitar os sinais de abandono e decadência que tomavam conta dos seus lugares públicos, dos seus templos e monumentos. Ficara-lhe porém um ar de pompa, apesar da grandeza passada ter sido devorada pelo tempo e pelas insânias das guerras intestinas travadas entre os gregos.Paulo, como consta no Ato dos Apóstolos ( At,17), andou proselitando por lá na única sinagoga existente na cidade. Parece ter comovido poucos. Depois, correndo a noticia da sua chegada, alguns filósofos, supõe-se que estóicos e epicuristas, teriam manifestado o desejo, simples curiosidade, de conhecer o evangelista mais de perto, pois, "os atenienses, com efeito, e também os estrangeiros aí residentes, não se entretinham com outra coisa senão em dizer, ou ouvir, as últimas novidades". Quais seriam suas idéias, e o que vinha aquele pregador da Judéia anunciar que eles de antemão já não soubessem? Nada ouviram falar dele, mas a cidade há séculos estivera com suas portas abertas para todo e qualquer tipo de pensamento. Atitude aliás, acerbamente reprovada por Sócrates e seu discípulo Platão. Mas Atenas era assim, um bazar da filosofia e da mais diversas excentricidades.
O Supremo Tribunal Sagrado
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Sócrates ( 470-399 a.C.) foi julgado no areópago
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O areópago ocupava um lugar especial na geografia da cidade e no coração dos atenienses. Creditavam-lhe uma fundação divina. Ninguém menos do que a deusa Atena, a deusa protetora da cidade, escolhera os seus primeiros juizes, "atados por um grande juramento" compondo "um augusto tribunal", tornado por ela perpétuo. A razão lendária da formação daquela primeira corte de justiça foi a necessidade de julgar Orestes pelo terrível crime do matricidio. Ésquilo, que venceu o concurso trágico de 458 a.C. com sua trilogia sobre o sangrento drama que quase dizimou a família dos Átridas (A Orestéia), deixou-nos descritos os preâmbulos que antecederam o lançamento mítico dos alicerces daquela instituição magnifica. Fôra lá , pois, que, por primeiro, o filho e vingador de Agamemnon defendeu-se, com sucesso, perante um júri de homens e deuses.Bem mais tarde, fugindo do império das lendas, o filósofo Sócrates também foi chamado às barras da corte sagrada, em 399 a.C., quando Anito, um democrata radical, responsabilizou-o publicamente como corruptor da juventude, além de, costumeiramente, destilar dúvidas sobre a eficácia dos deuses da cidade. Sócrates como se sabe, foi condenado à morte pela cicuta. Rejeitando o apelo de vários dos seus discípulos, Platão entre eles, negou-se a escapar da prisão, bebendo na presença deles o pote amargo do veneno oficial. Também foi no areópago que o grande orador Demóstenes apresentou sua defesa, provavelmente em 324 a.C., da acusação de ter recebido um suborno de 20 talentos das mãos de um malversador para deixá-lo escapar de Atenas, onde se exilara. Sua poderosa verve, entretanto, não impediu que o multassem e, em seguida, o levassem preso dali mesmo. Agora chegara a vez de Paulo adentrar naquele venerável recinto. Não viera no arrastado como um réu. O areópago, aquelas alturas, serviu-lhe como tribuna e não como tribunal, e aqueles que o assistiram, entre eles um número razoável de filósofos, se faziam presentes por interesse intelectual, por novidadeiros que eram, e não para fazer bom ou mau juízo de ninguém.
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São Paulo aparamentado como bispo
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"Sendo de origem divina, não devemos imaginar nunca que a divindade se assemelha ao ouro, à prata, esculpida pela arte e pelo gênio do homem"S.Paulo - Atos dos Apóstolos A exposição paulina foi curta. Disse à platéia dos aeropagitas que considerava os atenienses o povo mais religiosos do mundo porque, quando visitava a cidade, em meio a incontáveis estátuas de deuses, encontrara uma inscrição singular que lhe chamara a atenção: "ao Deus Desconhecido", dizia ela. Naquele cidade até um deus que ninguém sabia quem era, ou quem fosse, era digno de veneração! A existência desse deus abstrato entre tantos outros cultuados, mostrara a Paulo ter o nascente cristianismo um ponto em comum com os atenienses, pois o Deus que ele pregava "não habita em templo feito por mão humana" e, igualmente, "não é servido por mãos humanas". Era, pois, também um "Deus desconhecido", que paira sobre tudo e esta acima de tudo. Um colosso desses não precisa de templos. Por isto mesmo, observou Paulo, o verdadeiro templo dele é formado por seus fiéis seguidores. Fora Ele quem fizera o homem original de onde todo o resto provém, fixando os tempos e os limites da sua habitação. Disto procede sermos uma raça divina, trazendo em nosso interior o sopro divino. Um Senhor assim, tão magnifico, não pode ser seduzido por ouro, prata, ou ser reproduzido em pedra, ou qualquer outra matéria esculpida pelo engenho humano.Aliás, foram tais reproduções dos deuses, aquela compulsão idolátrica que, espalhando-se por toda a parte, causaram repugnância a Deus. Por isso ele pede a todos, em todos os lugares onde pregava que se arrependam, pois Ele já fixara o dia em que julgaria o mundo com justiça. E para anunciar a chegada desse Juízo Final, Deus designara um Homem, a quem, para dar-lhe crédito diante de todos, fizera ressuscitar dentre os mortos. Ao concluir a peroração com a "Anastasis de Jesus", a concepção de um salvador que morrera e voltara a viver para dar veracidade a mensagem divina, os filósofos presentes fizeram-lhe mofa, concluindo que o que ouviram, "em mau grego", era coisa de um spermologos, de um tonto.
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