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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Rembrandt e o barroco holandês

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» Rembrandt entra em cena
 
Numa Europa formada quase que inteiramente por regimes absolutistas, a Holanda do século 17 ensaiou seus primeiros passos no sentido de adotar um regime liberal ao constituir as Províncias Unidas. A sangrenta e demorada luta pela libertação contra o Poder Espanhol, que se estendeu por oitenta anos (1568-1648), colhera seus frutos, ao tempo em que despertou o espírito nacional entre as várias regiões que compunham os Países Baixos.

A região durante aquele século de ouro tornou-se um oásis de tolerância e abrigo para todos os perseguidos e exilados políticos europeus. Foi em meio ao clima de prosperidade comercial, respeito às individualidades e à capacidade de criação dos seus artistas, que resplandeceu o gênio de Rembrandt, nascido em Leiden em 15 de julho de 1606.

O grande refúgio

Rembrandt, auto-retrato
O filósofo e matemático Descartes, um dos fundadores do pensamento moderno, escolheu lá viver e a família de judeus sefarditas de Spinoza, expulsa de Portugal para lá emigrara. Franz Hals, o grande pintor, era um meridional que também buscou abrigo nas Províncias Unidas (formadas pela aliança de Brabante, Drende, Frísia, Frevolândia, Groninguen Gueldre, Holanda do norte e do sul, Limburgo, Overissel, Utrecht e Zelândia).

Quando todos os regimes europeus esforçavam-se para centralizar cada vez mais o estado e conseqüentemente reforçar o poder do rei, a Holanda marchou ao revés: inclinou-se pelo federalismo e pela descentralização do poder. Seus cidadãos confiavam nos diques para protegerem-se das invasões do mar, nas guildas profissionais para os manterem materialmente e nos parlamentos municipais para evitarem a ingerência indevida de um rei ou de um arcebispo. Deste modo, criaram-se as condições para que nem uma monarquia todo-poderosa nem uma corporação sacerdotal teocrática viessem a oprimir-lhes os cidadãos. A Holanda virou na pátria da tolerância.

O stadhouder (estatúder), o grande magistrado, símbolo mor do poder executivo, possuía uma autoridade limitada, ferozmente controlado pelos parlamentos dominados pela burguesia mercantil. Todos os esforços da Casa de Orange para adquirir o poder absolutista, igual ao que imperava entre seus vizinhos, até então malogram.

Frederico Henrique, um dos mais capazes stadhouder, tentou desesperadamente assegurar a coroa para seu filho Guilherme, casando-o com Maria Stuart, filha de Carlos I. Sem o saber, pois morre em 1647, o sucesso da Revolução Puritana liderada por Cromwell na Inglaterra põe termo a suas ambições. É nas planícies da ilha britânica, sob as patas da cavalaria "roundheads", que o sonho de uma monarquia absolutista, tanto na Inglaterra como na Holanda, se esvaiu. Portanto, sem ater-se a uma só corte ou a um só papa, afastada do palácio e da catedral, a arte holandesa, especialmente a pintura, adotou o lar burguês entre suas preferências.

O domínio dos mares

O cavaleiro cede lugar ao barco (gravura)
Se os séculos XV e XVI assinalaram a hegemonia dos reinos ibéricos sobre os grandes Oceanos, os séculos seguintes foram dominados pelos navegadores e almirantes batavos e britânicos.

A expansão marítima da Holanda foi um fato notável: Piet Hein em Cuba, em 1628 e Martin Tromp, onze anos depois, na baia de Duins, dão os tiros de misericórdia na Armada Espanhola e conseqüentemente no seu mercado internacional. A estrela do Império Filipino vai gradativamente se apagando, até se tornar opaca.

Nesta euforia, possuída pelo sucesso nos mares, a Holanda, particularmente Amsterdã, reúne fundos suficientes para assumir-se como o maior mercado de arte não-estatal da Europa. Os ricos mercadores embriagados pelo sucesso proporcionam o desenvolvimento das artes nacionais. No século XVII na Holanda, pintou-se de tudo: copeiras, ricos burgueses, médicos, camponeses, oficiais das corporações, paisagens com moinhos ou sem eles, cidades, vilarejos, embarques e desembarques de mercadorias, cenas marítimas, batalhas navais, a bolsa de valores, etc. Os temas parecem ser inesgotáveis, havendo compradores para tudo o que o mundo das artes lançava nas ruas.

O mercado das artes

A guarda noturna (1642)
As atividades artísticas são incessantes; os preços dos quadros os mais em conta da Europa inteira. Nas épocas em que a oferta era maior do que a procura, as telas eram vendidas por um nada: Jan Steen vende três retratos pela insignificante quantia de 27 florins, pela mesmo valor Isaak Van Ostade entrega treze de seus quadros. A lei do mercado é soberana na relação do artista com o comprador.
O protestantismo, vitorioso nas Províncias Unidas, contribuiu para a diminuição de obras com temas religiosos ou para a renovação delas visto que, entre outras razões, as igrejas reformadas são sóbrias, adotando uma posição reservada e modesta bem distante do luxo exorbitante e chamativo das catedrais católicas. Novas formas de apresentar os motivos religiosos foram apuradas e aperfeiçoadas, mas não se tratava de uma arte devocional como a pintura dos santos e de Jesus e os seus o é para os católicos.

A inclinação dos holandeses pelo naturalismo fazia-se presente em toda a parte. Pintores, numerosos, com seus pincéis e telas sob o braço, passeando pelas margens dos canais ou inspirando-se no horizonte dominado pelas ondas do mar, escolhendo uma paisagem que lhes aprouver, integravam-se no panorama e no cotidiano da população. Pelo menos nas épocas de clima mais amenos eles são figuras comuns na vida social do país, tal como o marinheiro, o estivador ou mercador atarefado.

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