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O planeta Germânia
A sensação que os demais europeus tinham era de que a Alemanha - subdividida em mais de 300 pequenas e médias unidades políticas, ainda que ocupando geograficamente uma posição central no continente e abrigando um imperador (do Sacro Império Romano-Germano) - formava uma espécie de planeta a parte do restante das nações. Não só isso, o próprio Goethe, em conversa com Eckermann (registro de 23 de maio de 1827), lamentava a "vida isolada, paupérrima" que os intelectuais alemães levavam e o tão pouco de cultura que lhes chegava do exterior. Os pensadores, os poetas e demais homens-de-letras, gente de talento, os ditos Siebenhundert Weiser, os Setecentos Sábios da Alemanha, de quem Heine fazia menção, achavam-se espalhados por todas as partes, em Viena, Berlim, Königsberg, Bonn ou Düsseldorf, jamais ou raramente se encontrando para trocarem idéias, mantendo-se distantes entre si por centenas e centenas de quilômetros, cada um deles voltado para o seu próprio afazer. O resultado dessa fragmentação dos talentosos era um empobrecimento só, bem ao contrário do que ocorria em Paris, metrópole cerebral, na qual em cada esquina, por assim dizer, encontrava-se um Molière, um Voltaire ou um Diderot. A simples presença deles no mesmo espaço urbano, ainda que em épocas diferentes, é que permitia o surgimento de um cientista como o jovem André Ampère que se tornara uma celebridade como matemático e estudioso dos fenômenos do magnetismo com pouco mais de vinte anos de idade. Na Alemanha, ao revés, estava-se só, com enormes dificuldades em abrir-se um caminho por si mesmo. Uma simples conversa com um erudito, com um sábio como Alexander von Humbold, por exemplo, enfatizou Goethe, fizera com que os estudos dele progredissem "mais num único dia do que se eu tivesse viajado o ano inteiro". Mas isso era tão raro como a passagem de um cometa. Além disso, aquela dispersão dos talentosos era agravada pela pouca densidade de leitores, quando não da pouca cultura deles, como se queixava Goethe dos cortesãos com quem era obrigado a conviver em Weimar. Portanto, a nação, sob o ponto de vista da inteligência local, não havia ainda gerado um mercado interno que pudesse absorver produtos culturais o suficiente para emancipar seus escritores e artistas da dependência das cortes ou dos favores da nobreza fundiária. E, para culminar, não existia nada na Alemanha que fosse equiparado a um poder centralizado como existia na França ou mesmo no Reino Unido, um soberano poderoso que pudesse lançar sua proteção e estímulo às artes locais. Frederico II, o Grande, se bem que um monarca culto, um francófilo assumido, desconsiderava a literatura alemã.É ainda Goethe quem, a titulo de conclusão, disse: "Não sendo integrante de um grêmio que pudesse atuar como um só homem, os poetas alemães não gozavam de nenhuma vantagem na sociedade burguesa. Não tinham nem proteção nem categoria social, nem eram estimados a não ser em algumas circunstâncias alheias aos seus escritos... Um pobre mortal, consciente dos seus poderes mentais, condenado a abrir caminho na vida da melhor maneira possível, dilapidando seus dons que havia recebido das musas na luta para satisfazer as necessidades do momento... o poeta, sempre pobre, desempenhava um papel melancólico no mundo, como simples bufão ou parasita..." (Poesia e Verdade, vol II, 10). Todavia, uma inteligente e sagaz observadora estrangeira, Mme. Staël, a famosa filha do ministro Necker, viu vantagens na Alemanha ser "uma federação aristocrática", visto que – ao contrário do autoritarismo bonapartista dominante na França daquela época - provocava uma espécie de "anarquia doce e aprazível", no que tange às opiniões literárias e metafísicas, situação que permitia a cada homem desenvolver, cada um ao seu modo, um modo individual de ver as coisas.
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Kant, gênio da filosofia idealista alemã
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Era impressionante, ainda entre os séculos XVIII e XIX, o número de homens-de-letras alemães, entre eles Fichte, Hölderlin, Schlegel e Hegel, que antes de se projetarem, viviam modestamente como preceptores dos filhos dos nobres ou dos burgueses bem sucedidos. Um tanto como se fossem náufragos sobrevivendo numa ilha perdida, cada um fixado num condado ou num principado, jamais eles constituíram uma frente de intelectuais como os franceses alcançaram fazer por aquela época, quando bastava a censura ou uma autoridade qualquer implicar com um dos integrantes da "família iluminista", para que uma onda de solidariedade e apoio logo se formasse em torno do perseguido.Norbert Elias observou existir uma tensão permanente entre a intelectualidade de classe média e os freqüentadores das cortes. Uma espécie de desprezo mútuo entre as Letras e a Etiqueta os separava. Talvez fosse essa a razão dos pensadores alemães – como reação à indiferença com que eram tratados - desenvolverem uma prosa muito peculiar, quase que ininteligível para quem desconhecesse o assunto, colocando a filosofia alemã, por vezes, num patamar muito próximo ao esotérico. A exposição obscura era um modo deles se distinguirem ainda mais dos áulicos que cercavam os príncipes e os barões. Heine, todavia, acreditava que a dificuldade deles em expor claramente o que pensavam, "de discorrer de forma popular sobre religião e filosofia", decorria deles temerem as conseqüências disso junto ao povo. (H.Heine, Contribuição à História da Religião e Filosofia na Alemanha, 1834). De recearem que suas idéias, por mais moderadas e conservadoras que fossem, de algum modo – se claramente expostas - pudessem provocar algum tipo de agitação social inconveniente aos príncipes e barões a quem mal ou bem serviam. O incidente que certa vez envolveu o filósofo Kant parece exemplar disso. Após ele ter publicado suas críticas à religião constituída no seu ensaio Religion innerhalb der Grenzen der blossen Vernunft ("A religião dentro dos limites da razão pura"), em 1793, como súdito obediente, ele concordou com a advertência que o rei lhe enviara de próprio punho e despachada como Cabinetsordre König Friedrich Wilhelm's II, datada de 1º de outubro de 1794. Ordenou-lhe o soberano para que ele não mais "abusasse da sua filosofia para tergiversar e desprezar algumas doutrinas fundamentais e mais importantes das Sagradas Escrituras e do cristianismo", intimando-o a não mais incorrer em tal tipo de falta, pois neste caso ele se veria "werdet zu Schulden kommen lassen, sonder vielmehr", ("a ditar irremediavelmente certas medidas mais desagradáveis contra vós"). A submissão de Kant à ordem real de certo modo pautou a relação dos intelectuais alemães com as autoridades. Bem poucos deles tinham a ousadia dos franceses em afrontar as instituições. Foi somente durante o alçamento das barricadas de 1848 - época da Revolução dos Poetas - que eles encontraram um clima favorável à aberta insubordinação, ainda que por pouco tempo, permitindo-lhes desaforarem o poder, como foi o caso de Heinrich Heine, Ferdinand Freiligrath, Richard Wagner, Max Stirner, David Strauss, Moses Hess, Karl Marx e Friedrich Engels. Exatamente em razão disso muitos deles tiveram que levar a vida no exterior experimentando o pão salgado do exílio, em meio à brumosa camaradagem dos refugiados. Assim, pois, a língua alemã, depois de mil anos de existência, cultivada primeiro pelos monges, seguidos pelos poetas-cavaleiros como Walter von der Vogelweide, por mestres cantores como Hans Sachs e outros, utilizada polemicamente por reformadores como Lutero e Melanchthon como arma de combate contra Roma, tornou-se, por fim, instrumentos dos sábios. Pensadores como Kant e Hegel fizeram dela expressão de todas as sutilezas, ambigüidades, ou precisões possíveis do pensamento alcançar (de fato, nenhum outra língua ocidental contribuiu mais para o vocabulário filosófico do que o idioma alemão), sem esquecer-se da redação imprimida por Karl Marx no Manifesto de 1848, considerada por muitos filólogos como uma das mais raras e exemplares peças da retóricas revolucionária escritas num idioma ocidental. Era a pena de um moderno profeta conduzida por um cérebro monumental, totalizante.
A descoberta da cultura alemã
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Werther em galanteios com Lotte (Os sofrimentos de Werther, 1774)
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Sob o ponto de vista das demais nações ocidentais - se bem que Goethe, com o seu Werther, editado em 1774, conseguira a façanha de tornar-se o primeiro nome das letras teutônicas a circular fora das suas fronteiras – a cultura alemã era algo assim um tanto misteriosa como o lado oculto de Marte. Continuava praticamente invisível aos outros países ocidentais. Coube à Mme. de Staël, citada acima, num famoso ensaio, o De l ´Allemagne, realizar uma verdadeira geografia cultural da Alemanha do seu tempo, apresentando a todos as gentes de letras e os filósofos do país vizinho, denominando a Prússia e seus arredores como "o país do pensamento". Ao escrever em francês, língua franca daquela época, ela que pessoalmente conhecera Goethe, Schiller, Wieland e August Schlegel, quando em viagem pelo país entre 1803-1804 - apresentando-os como "os homens mais instruídos e os mais meditativos da Europa" - difundiu as idéias e obras deles por todas as partes. Ainda que sua primeira edição de 1810 fosse interditada por Napoleão, em 1814 foi republicado na Inglaterra, de onde ganhou o mundo. Isto fez de Mme. de Staël uma espécie de Tácito de saias. Apesar dela reconhecer as diferenças existentes entre os pequenos estados e as monarquias da Prússia e da Áustria, as diversidades entre as cidades comerciais e os centros universitários, bem como um clima variado que diferia entre o centro e o norte, havia um conjunto de traços comuns a toda a nação alemã, entre eles a importância dada ao trabalho e à reflexão. Não se esquecendo de mencionar como característica deles uma difundida sinceridade e fidelidade, que implica um alemão jamais faltar com a palavra, sendo que a trapaça lhes era estranha (Mme. De Staël – De l ´Allemagne, Vol I, pág. 56-57).Não sem razão Goethe classificou-lhe o ensaio "como um poderoso instrumento que foi a primeira brecha na muralha de antigos preconceitos erguidos entre nós e a França". Um tanto antes da visita da Mme. Staël, o provinciano mundo cultural alemão fora abalado pelo Sturm und Drang, movimento nacionalista de fervor romântico, situado entre 1760 e 1780, que procurou sacudir a letargia dos seus poetas e autores dramáticos, dando-lhes uma injeção de paixão por meio da exaltação da inconstância da natureza e do sentimento, incitando-os à rebeldia e ao inconformismo para com o que consideravam a frieza do racionalismo. Obtendo o ativo engajamento de Goethe e Schiller, valorizou os aspectos, digamos não-nobres. Temas e matérias que até então eram tidos como não sendo merecedores dos olhos dos intelectuais, tais como as histórias e cantigas populares, o estranho universo das aparições, as lendas de fantasmas, as celebrações feitas pelas bruxas durante a Walpurgisnacht, a Noite de Valpurgis, ocorrida nos montes Harz, e imortalizadas por Goethe no Fausto(Iª parte, 2 ato, II), ocasião em que as feiticeiras... "Reúnem-se.../Vagueiam ao redor, quedam-se entre as fogueiras, Imagens fabulosas de épocas passadas/ Radiante, ainda que incompleta, a Lua sobe ao alto.../Eis que sobrevoa um cometa imprevisto...da vida sinto o hálito/"
Quantas vezes já se ouviu dizer que aos alemães, desprovidos das conquistas dos oceanos e dos feitos do moderno racionalismo, obra dos ingleses e dos franceses, seus vizinhos próximos, só lhes restou a teoria, terem que tomar de assalto o prodigioso e fantástico mundo das idéias. Continente intelectual que eles, começando pela filosofia kantiana, se lançaram a ocupar ao longo de boa parte do século XIX. Se bem que não houvesse uma Era de Ouro da literatura alemã, como ocorreu na Espanha cervantina ou na Inglaterra elisabetana, houve sim, nos tempos modernos, uma Idade de Ouro da música e do pensamento alemão.O da música teria se iniciado com os Brandenburg Concerto nº 1 in F major, os "Concertos de Brandenburg" de Sebastian Bach, de 1717, encerrando-se com o ato final da ópera Parsifal de Richard Wagner, em 1877; o dos pensadores com a edição da die Monadologie, "A Monadologia" de Leibniz, em 1714, finalizando com o Sein und Zeit, o "Ser e o Tempo" de Martin Heidegger, aparecido em 1927. De certo modo foi a construção de um sólido e poderoso estado-nacional alemão unificado - a construção do Segundo Reich, obra de Otto von Bismarck, erigido entre 1861 e 1871 - quem mais fez por projetar o pensamento e a cultura alemã no século XIX. O espantoso sucesso econômico do Império Germânico (1871-1918) inevitavelmente atraiu as atenções do mundo para os seus filósofos, cientistas e artistas, fazendo com que os nomes de Kant, Hegel, Marx, Nietzsche, o dr. Koch e Einstein começassem a se universalizar juntamente com as sinfonias de Beethoven, as canções de Schubert e as óperas de Wagner. A primeira fase da catástrofe econômica, política e social que se abateu sobre a Alemanha, aquela gerada pela participação do Segundo Reich na Grande Guerra de 1914-18, por incrível que possa parecer, rendeu mais tarde muito para o prestigio cultural alemão, visto ser durante o reduzido período de quinze anos de duração da República de Weimar, de 1918-1933 - regime rejeitado e desprezado pela maioria dos cidadãos daquela época - que se lançaram as bases da tão celebrada modernidade nas artes (movimento expressionista, a Escola de Frankfurt, o teatro de vanguarda, o estilo Bahaus, o cinema-arte, a foto-montagem, etc...). Fenômenos culturais esses que foram repudiados tanto pelos nazistas como pelos stalinistas, mas que posteriormente vieram a ser reconhecidos como os marcos fundamentais de uma nova época que então começava.
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