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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PESAMENTO

O visível e o inteligível

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» Platão e o Mito da Caverna
» O visível e o inteligível
 
Há pois dois mundos. O visível é aquele em que a maioria da humanidade está presa, condicionada pelo lusco-fusco da caverna, crendo, iludida, que as sombras são a realidade. O outro mundo, o inteligível, é apanágio de alguns poucos. Os que conseguem superar a ignorância em que nasceram e, rompendo com os ferros que os prendiam ao subterrâneo, ergueram-se para a esfera da luz em busca das essências maiores do bem e do belo (kalogathia).

O visível é o império dos sentidos, captado pelo olhar e dominado pela subjetividade; o inteligível é o reino da inteligência (nous)percebido pela razão (logos). O primeiro é o território do homem comum (demiurgo) preso às coisas do cotidiano, o outro, é a seara do homem sábio (filósofo) que volta-se para a objetividade, descortinando um universo diante de si.

O desconforto do sábio

A caverna de Platão
Platão então pergunta pela boca de Sócrates, personagem central do diálogo A República o que aconteceria se este ser que repentinamente descobriu as maravilhas do mundo dominado por Hélio, o fabuloso universo inteligível, descesse de volta à caverna? Como ele seria recebido? Certamente que os que se encontram encadeados fariam mofa dele, colocando abertamente em dúvida a existência desse tal outro mundo que ele disse ter visitado.

O recém-retornado certamente seria unanimemente hostilizado e ridicularizado. Dessa forma Platão traçou o desconforto que o sábio sente quando é obrigado a conviver com os demais seres comuns, presos à ignorância. Não acreditam nele, não o levam a sério. Imaginam-no um excêntrico, um idiossincrático, um extravagante, um tonto, alguém não dotado de um sentido prático, quando não um rematado doido (stino comum a que a maior parte dos cientistas, inventores, e demais revolucionários do pensamento tiveram que enfrentar ao longo da história)

Quais as alternativas

Deveria, por essa razão, o sábio desistir? O riso e o deboche com que invariavelmente é recebido, tomando quase sempre como um homem que vive com a cabeça metida nas nuvens, fariam com que ele devesse se afastar do convívio social? Quem sabe não seria preferível o isolamento num retiro solitário qualquer, com as costas voltadas para a cidade.

Hostil à idéia da vida monacal ao estilo dos pitagóricos, Platão foi incisivo: o conhecimento do sábio deve ser compartilhado com seus semelhantes, deve estar à serviço da cidade. O filósofo cheio de sabedoria e geometria que leva uma existência de eremita, acreditando-se um habitante das ilhas afortunadas, sem ter contato com ninguém de nada serve. Isto porque a lei não se preocupa em assegurar a felicidade apenas para uma determinada classe de cidadãos (no caso, os sábios), mas sim se esforça para "realizar a ventura da cidade inteira".

A liberdade que os sábios parecem gozar - o conhecimento dá aos seus portadores a sensação de liberdade - não é para eles "se voltarem para o lado que lhes aprouver, mas para fazê-los concorrer ao fortalecimento do laço do Estado".

O governo dos sábios

Platão não ficou apenas na recomendação de que os sábios devem socializar o conhecimento. Ousou ir bem mais além. Justamente por eles, os filósofos, serem menos "apressados em chegar ao poder" (sabendo perfeitamente distinguir o visível do inteligível, a imagem da realidade, o falso do verdadeiro), é que eles devem ser chamados para a regência suprema da sociedade.

A sua presença impediria as sedições e as intermináveis lutas civis internas travadas entre políticos ambiciosos, desacertos tão comuns entre os diversos pretendentes rivais, "gente ávidas de bens particulares", sempre em luta, divergindo com espadas e não com idéias ou palavras na tentativa de ficar com o poder.

O governo da cidade, a Platonópolis a ser erguida no futuro, caberá pois aos mais instruídos, os que possuiu tékne politikos, uma especialidade de conhecimentos que manifestam mais indiferença ao poder, ainda que seja a característica do sábio "o desprezo pelos cargos públicos", pela simples razão deles terem sido os únicos a terem vislumbrado o bem, o belo e o justo (agathos, kalos e dikê).

Os dois mundos de Platão

Mundo visível

  • A sua geografia limita-se ao espaço sombrio da caverna.

  • Caracteriza-se pela escuridão, é um mundo de sombras, de lusco-fusco, de imagens imprecisas (ídolos).

  • Nele o homem se encontra encadeado, constrangido a olhar só para a parede na sua frente, ficando com a mente embotada, preocupando-se apenas com as coisas mesquinhas do seu dia-a-dia.

  • Homem dominado pelas sensações e pelos sentidos mais primários.

  • Em situação de desconhecimento e ignorância (agnosis).

  • Condição em que se encontra o homem comum.


    Mundo Inteligível

  • É todo universo fora da caverna, o espaço composto pelo ar e pela terra inteira.

  • Dominado pela claridade exuberante de Hélio, o Sol que tudo ilumina com seus raios esplendorosos, permitindo a rápida identificação de tudo, alcançando-se assim a ciência (gnose) e o conhecimento (episteme).

  • Plenitude do homem liberto da opressiva caverna, podendo investigar e inquirir tudo ao seu redor conhecendo enfim as formas perfeitas.

  • Homem orientado pela inteligência (nous) e pela razão (logos).

  • Em condições de cultivar a sabedoria e a busca pela verdade e pelo ideal da junção do bem com o belo (kalogathia).

  • Condição do filósofo.

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