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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Balzac e o imperador

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Mesmo derrotado em Waterloo em 1815, e, em seguida exilado na inóspita ilha de Santa Helena, no Oceano Atlântico, onde veio a falecer em 1821, o nome de Napoleão Bonaparte estava longe de se apagar da memória dos franceses. Bem ao contrário. A mediocridade dos seus sucessores, os monarcas Bourbons, e ainda o rei Luís Felipe, expunha a todos a enorme diferença do grande homem para com os pigmeus coroados que o substituíram no trono da França. Foi exatamente explorando a continuidade da enorme popularidade e estima que Bonaparte ainda gozava junto aos franceses que levou Honoré Balzac, a partir de 1830, a coletar um número apreciável de máximas e citações deixadas pelo general-imperador. Pequena obra que, desde então, teve impressionante aceitação e inúmeras reedições.

Vir a ser o Napoleão das letras

H.Balzac (1799-1850)
Nas suas contumazes escapadas dos credores, Honoré Balzac - um eterno endividado perseguido por letras vencidas - conseguiu alugar, em 1828, uma pequena e modesta vila na saída de Paris. Recorreu a um nome-de-palha para assinar o contrato. O local era um ponto estratégico situado entre o Observatório e um Convento, o que permitiria a ele, em caso de extrema necessidade, saltar o muro dos fundos e ganhar o campo para desaparecer. Nesta nova moradia, uma das tantas em que ele viveu, condenado àquela vida de cigano fujão, colocou sobre a caixa que guardava o seu arquivo um busto de Bonaparte.

Prometera a si mesmo, naquela ocasião, inspirando-se na impressionante aventura ensejada pelo aventureiro corso, "reconquistar a Europa com a pena de águia ou de corvo". O que Napoleão fizera com o seu exército, submetendo o continente Europeu inteiro à sua vontade, ele se predispôs a fazer com seus livros. De fato, La Comédie Humaine (a Comédia Humana), obra oceânica composta ao longo de vinte anos (de 1830 a 1850), dedicada a cobrir as mais vastas e variadas diversidades sociais e culturais da França de então, atuou como Grande Armée de Napoleão, arrebatando milhares de leitores em todas as partes do mundo. Fato que permitiu a ele, quando então escritor famoso, realizar inclusive uma Campanha da Rússia, pois graças às suas novelas conseguiu seduzir uma aristocrata russa, a Madame Hanska, née Rzowuska, (que, enviuvada, tornou-se a sua esposa em 1850, ano da morte do escritor).

A imaginação para conquistar o mundo

Seguramente foi o exemplo de Napoleão, um sujeito que saíra do nada, nascido numa ilha selvagem, para alçar-se Senhor-do-Mundo, quem serviu-lhe de farol e modelo. A ele e a tantos outro escritores daquela século. Aquela soma de audácia e vontade inquebrantável que imanara da presença do general, fez com que Balzac, aspirando a mesma fama, se tornasse um escritor-fábrica voltado exclusivamente para à produção de livros. Trabalhador incansável, movido a doses cavalares de café moca fortíssimo (combustível que o matou do coração aos 52 anos), composição que ele mesmo gostava de preparar, enfrentava jornadas dignas de um condenado às galés.

Do mesmo modo como o jovem tenente Bonaparte, ainda nos seus tempos de anonimato, sonhava com as pirâmides do Egito ou em reproduzir as façanhas de Alexandre o Grande ou de César, a imaginação de Balzac, que deu seus primeiros passos escrevendo literatura do tipo "B", o empurrou para vôos cada vez mais elevados. Dedicou-se a conceber aventuras incríveis, criando um sem-fim de personagens que segundo alguns peritos, especialistas no mundo balzaquiano, alcançou a mais de dois mil tipos. A infantaria, a cavalaria e a artilharia dele foram suas novelas, o seu gênio literário fez as vezes da pólvora para lançar-se na conquista do mercado de leitores que se estendeu por grande parte da Europa.

Napoleão na Comédie

Napoleão na batalha de Friedland (tela de Vernet)
Monumento literário inacabado, a La Comédie Humaine alcançou 26 tomos, compostos por 95 livros mais 48 esboços. Nela Napoleão, seus desfiles militares ou suas batalhas, aparecem como cenário de fundo de algumas das suas narrativas, num total de 564 páginas. O acampamento do imperador nas vésperas da batalha de Iena (1806) foi descrito por ele no Une ténébreuse affaire (Um caso tenebroso); a batalha de Eylau, travada em 1807, é narrada no conto sobre o pobre coronel Chabert (Le colonel Chabert), ocasião em que o personagem da novela é gravemente ferido na cabeça, enquanto que a terrível e heróica passagem sobre o rio Beresina, quando o imperador retirava-se da Rússia em outubro de 1812, apareceu no Adieu (Adeus).

O momento narrativo mais grandioso da presença de Napoleão na obra de Balzac dá-se no capítulo inicial da La Femme de Trente Ans, (A mulher de trinta anos) ocasião em que o imperador, em Paris, passa em revista o Grande Armée, perfilado e alinhado, antes de ser lançado nas batalhas finais travadas na Campanha da Alemanha de 1813. O vivo relato que o escritor faz das tropas enfileiradas no Campo de Marte, as fanfarras e o rufar dos tambores de guerra que anunciam ao povo e aos regimentos embandeirados à chegada eminente do grande homem, o silêncio respeitoso e a respiração em suspenso com que ele é recebido pela multidão, tudo isso, além de ser uma estupenda viagem no tempo, eletriza o leitor. Chega-se quase a ouvir-se o galope do belo cavalo branco do imperador, vestido com o seu capote cinza sem ornamentos e com o chapéu bicórneo à cabeça, passando à frente das águias da Guarda Imperial e dos símbolos gloriosos das divisões militares que se curvam frente a ele.

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