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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Bruno e Campanella

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É bem possível que outras razões, além da acusação de heresia, pesaram na decisão das autoridades de levá-lo às chamas numa praça pública de Roma. Um pouco antes, em 1599, Tommaso Campanella, um outro frade napolitano, dominicano como Bruno, liderara uma rebelião dos calabreses contra o domínio espanhol em Nápoles. Campanella propunha, em substituição ao governo estrangeiro, a instalação da Cidade Mágica do Sol (que irá inspirar o seu livro La Città del Sole, escrito na prisão em 1602), uma sociedade utópica inspirada na "República" de Platão. Yates cogita que a execução brutal de Bruno poderia estar de alguma forma relacionada com a insurreição napolitana. Servira de advertência a qualquer tentativa futura de desafio à hierarquia e ao estabelecido. Bruno, é bom lembrar, era também um alvo fácil. Não pertencia a nenhuma corporação acadêmica ou ordem religiosa que intercedesse a seu favor junto à Cúria Romana.

Duas concepções cósmicas rivais

Os extremos a que a Inquisição chegou no caso de Bruno prestou-se a demonstrar à intelectualidade, em geral, até que ponto a determinação do Papado chegava. Ele eliminaria até um conhecidíssimo pensador se houvesse um ataque aos dogmas do catolicismo. Ao redor do corpo de Bruno enfrentavam-se duas Weltanchauungs (concepções do mundo) opostas: a Antiga, geocêntrica, herdada da física astronômica helenística, que referendava o Gênese bíblico (a Terra é o centro do universo), e a Moderna, a de Copérnico, heliocêntrica, filha da astronomia universitária moderna (Terra reduzida a um papel insignificante, uma poeira cósmica, perto do astro-rei). Os cientistas podiam acreditar que o heliocentrismo era a visão verdadeira, mas a Igreja sentiu-o como um rebaixamento: da Terra, do Homem, e dela mesma. A rivalidade entre essas visões cósmicas escondia as crescentes diferenças entre os sacerdotes e os sábios seculares, entre a teologia e a ciência, entre o sagrado e o profano, entre o espiritual e o temporal.

As consequências da morte de Bruno

O suplício de Giordano Bruno em 1600, seguido do julgamento de Galileu em 1616 (mais tarde renovado por um segundo julgamento e pela abjuração de 1633, onde condenaram-no à prisão domiciliar até a sua morte em 1642), provocou, desde então, uma irreparável desconfiança da ciência para com a religião. Para a Itália esta posição da Igreja Católica foi desastrosa. Os sábios da península, que até então lideravam o movimento científico europeu, ao sentirem-se intimidados pela fogueira da Inquisição, perderam a primazia do conhecimento. Esta se transferiu para os que viviam nos países da Igreja Reformada. Descartes, por exemplo, o grande filósofo e cientista francês, quando soube da abjuração forçada de Galileu, mudou-se em definitivo de Paris, capital de um país papista, para a Holanda reformada. A obra de Bruno, por sua vez, só foi retirada do Index dos livros proibidos aos católicos em 1948.

Um medo sombrio pairou sobre as ações da Igreja Católica. Viram-na como uma instituição capaz de perseguir os doutos e os sábios, caso eles questionassem o Alto Clero e a burocracia papal. Imagem negativa que perdurou até recentemente, quando o Papa João Paulo II desculpou-se pela infelicidade do processo contra Galileu, reabilitando-o em 1992. Porém, até o momento, o Pontificam Consilium Cultura que reabilitou Johann Huss e Galileu, ainda não tomou uma decisão favorável a Giordano Bruno. A Igreja Católica só deplorou a execução, mas não os motivos da sua condenação.

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