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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

O Cosmos heliocêntrico de Copérnico

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Anos depois da morte de Bruno, Galileu irá transformar esse paradoxo, isto é o Cosmos inteiro existir apenas em função da terra, numa das suas mais sarcásticas afirmações, quando, num dos seus diálogos, faz Sagredo (o próprio Galileu) dizer a Simplicio (um tolo que defende a ortodoxia e o geocentrismo):

"Como assim? Estas afirmando que a natureza concebeu e produziu tantos e tão vastos corpos celestiais, nobres e perfeitos, invariáveis, eternos, divinos, sem nenhum outro propósito que o de servir a esta Terra mutável, transitória e perecível? Servir a isto que chamas os detritos do universo, e esgoto de toda a imundície?" ( Diálogos sobre os dois sistemas do mundo, 1632).

Anunciando os astronautas

Bruno, como lembrou Maurice de Grandillac, antecipando em quatro séculos a viagem dos astronautas deixou-nos uma bela descrição de um viajante imaginário que, abandonando a Terra em direção às estratosferas, viria o nosso planeta encolhendo: "inicialmente parecendo-se a um astro brilhante, converte-se depois apenas num ponto luminoso perdido num horizonte sem limites", num universo que não tinha lado, nem fundo; nem alto nem baixo (Sobre lo inmenso, IV, 3). Bruno foi um dos que abriu ainda que intuitivamente, sem os recursos da matemática e da geometria utilizados por Galileu, as portas da percepção do homem renascentista para que ele vislumbrasse o novo universo que o aguardava (*), interminável, assombroso, com possibilidades infinitas.

(*) Foi o silêncio dos espaços infinitos, de onde não se recolhera ainda nenhuma prova de existências extraterrestres, que, mais tarde, levou Pascal à reflexão sobre a terrível situação em que se encontrava a humanidade, para a qual seria psicologicamente insuportável viver sem Deus. A crença no Ser Supremo era a compensação para a sua solidão absoluta.

As esperanças de Bruno

Ainda que sabedor da atuação do Santo Oficio (desde 1542, o Papa Paulo III oficializara o funcionamento do nefando tribunal), resta responder porque Giordano Bruno voltou a Itália? É certo que a vida não lhe corria bem. Em Paris, quando retornara da corte de Isabel da Inglaterra, chegou a passar fome e frio. A tentativa de abrigar-se em Praga também fracassou. Em 1590, era um homem maduro, fatigado das incertezas e das andanças que pareciam não ter fim. Além disso, Yates supõe que, devido a um fator político, Bruno esperava encontrar um ambiente mais liberal e ameno para as suas perigosas especulações e seus exercícios de magia.

Na França, entronara-se um novo rei em 1589: Henrique de Navarra. Um homem culto, um renascentista dos pés à cabeça. Ele derrotara a Santa Liga dos católicos, propondo em seguida conciliar as duas religiões rivais (proposta que materializou no Édito de Tolerância de Nanes de 1598). Bruno arriscou. Talvez a Igreja relevasse os tumultos que ele provocara no passado, inclusive sua estada em Wittemberg, a capital da heresia (onde publicamente elogiou Lutero). Afinal, a expectativa otimista que depositara no "efeito Navarra" de se poder dali em diante "viver e pensar livremente", não era só dele. Pagou com a vida pelo engano.

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