Educação História por Voltaire Schilling Cultura e Pensamento
Boletim
Receba as novidades no seu e-mail!
Fale conosco
. Envie releases
. Mande críticas, dúvidas e sugestões
EducaRede
Entre no portal da escola pública
História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Bruno em Shakespeare

Leia mais
» Giordano Bruno: o martírio de um sábio
» O interrogatório e o ultimato
» Giordano Bruno: errante e cosmopolita
» A doutrina de Copérnico
» O cosmos heliocêntrico de Copérnico
» Bruno e Campanella
 
Frances Yates, a grande historiadora da ciência, sentiu a imagem espelhada de Bruno em duas figuras de William Shakespeare. Tanto em Berowne, personagem de Love´s labour lost (Trabalhos de Amor Perdido), como na de Próspero, o náufrago da The Tempest (A Tempestade) - o mago bonachão italiano capaz de embasbacar nativos como Caliban, com seus tubos enfumaçados e aparelhos de ensaio(*). Para escândalo dos teólogos, o filósofo não distingia mágica boa da má. Como uma espada, dizia, as artes do ocultismo eram neutras, podendo fazer-se bom ou mau uso do seu fio, era uma linguagem da natureza e não do demônio. Tanto Moisés como Jesus eram grandes magos para ele.

Bruno, no entanto, ao contrário de Shakespeare, reprovou a conquista da América bem como o comércio de ouro e prata que se seguiu. Não atribuía nenhum direito especial no homem branco que o autorizasse a submeter os nativos.

Sobre a conquista do Novo Mundo opinou que ela só servira "para perturbar a paz do próximo, violar as próprias pátrias das regiões, confundir o que a previdente natureza distinguiu, redobrar os defeitos mediante o comércio e agregar vícios aos vícios de cada povo, mediante a violência impor novas loucuras e demências inéditas aonde não existem, mostrando, enfim, ser mais sábio o que é mais forte: ensinar novos cuidados, instrumentos e artes de tirania e assassinar um ao outro" (Ceia..)

Shakespeare, por sua volta, pintou o filósofo na corte de Henrique de Navarra, pondo-lhe na boca um discurso hedonista, sem muito entusiasmo em seguir com rigor a disciplina que o rei, um homem culto e estudioso, desejava impor no seu grupo de estudos ( Ver Cena I, ato I, do Trabalhos de amor perdidos)

A infinitude dos mundos

A irritação maior dos inquisidores e do papado derivou, porém, da convicção de Bruno de existir, bem além da Terra, uma infinitude de outros mundos e de outras vidas no Cosmos. Citando Epicuro e Lúcrecio, celebrava a possibilidade de haver outros tantos sóis, e outros tantos planetas. Essa idéia viera-lhe de Nicolau de Cusa, o humanista alemão que, na sua consagrada, mas então pouco divulgada obra De docta ignorancia (A douta ignorância, 1440), antecipou Copérnico. Assegurou ainda haver o movimento da Terra e a sua rotação ao redor do Sol, repudiando a concepção do mundo fechado e finito de Aristóteles, dizendo não haver centro no universo, e que "o seu centro está em toda parte e sua periferia em parte nenhuma". Essa afirmação, retomada por Bruno, discípulo confesso de Nicolau de Cusa, a quem chamou de "divino", implicava em duvidar ter Deus feito a Terra à razão de tudo, sendo o Homem o objeto único da Criação. Induzia também, esta teoria dos mundos múltiplos, a que se acreditasse, como no paganismo, na existência de outros deuses, rompendo com o monoteísmo oficial.

O mais vasto império de Deus

Para Bruno, ao contrário, quanto mais mundos houvesse, maior ainda seria o império de Deus. Via mesquinhez e mediocridade em acatar-se o princípio que dizia que o universo que nos envolve - comportando miriades de esferas cósmicas, "estes corpos heterogêneos, estes animais, estes grandes globos" -, girava apenas para atender a minúscula Terra (Acerca do infinito, do universo e do mundo, 1584). Só os matemáticos bisonhos e os filósofos vulgares, disse ele, é que eram dados a construir muralhas imaginarias no céu, fechando-o inutilmente aos espíritos abertos, pois:
"Or ecco quello ch´há varcato l´aria, penetrato il cielo, discorse le stelle, trapassati gli margini del mondo, fatte svanir le fantastiche muraglie de le prime, ottave, none, decime, et altre che vi s´avesser potute aggiongere sfere per relazione de vani matematici e cieco veder di filosofi volgari".

("Ora, aquele que cruzou o espaço, penetrando no céu, descortinando as estrelas, ultrapassando as margens do mundo, faz com que desapareçam as fantasiosas muralhas da primeira, oitava, nona, décima, e tantas outras que os maus matemáticos e o beco sem saída da visão dos filósofos vulgares puderam agregar às esferas").

página anterior      próxima página
Veja todos os artigos | Voltar