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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Giordano Bruno: errante e cosmopolita

Leia mais
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Ao ver desde cedo fechada a carreira acadêmica e sacerdotal ao ter sido ameaçado de excomunhão aos 28 anos (ele entrara como noviço no Mosteiro de San Domenico Maggiore, onde Tomás de Aquino morrera), Bruno, como se fora um cigano, tomou a estrada da vida. Forçou-se, desde então, a peregrinar de cidade em cidade, tornando-se um cosmopolita a contragosto.

Estar em Londres ou em Praga, em Wittemberg ou em Paris, era-lhe indiferente. Monge errante e renegado, a corte do rei francês ou um salão de conferências de uma universidade alemã não lhe causava estranheza. Qualquer lugar lhe bastava. Tanto é assim que ficou conhecido por ter dito que: "Al vero filosofo ogni terreno è patria", ao verdadeiro filósofo qualquer terreno é a sua pátria.

Nada, pois, espantar-se em morar ele em Genebra, graduar-se em teologia em Toulouse, e logo ingressar no Colégio dos Leitores Reais de Paris. Não eram só as fronteiras dos reinos e dos principados que ele ignorava. Estar a Europa envolvida na Grande Guerra Civil Teológica travada desde 1517 entre católicos e protestante, não o abalava. Nada viu de mal em ser católico e ao mesmo tempo ingressar numa congregação luterana na Alemanha.

Ele desconfiava dos césares que queriam unificar a Terra dotando-a de uma só lei e uma só fé, deplorando as técnicas que faziam com que os povos se aproximassem exageradamente. A simples existência das montanhas e dos mares, para ele, era uma advertência feita pela natureza para que cada povo fosse mantido no seu devido lugar. Melhor que assim fosse para manter-se a paz. Bruno, enfim, opunha-se à globalização, o que não deixa de ser contraditório para quem queria derrubar os muros que punham limites ao universo, mas aconselhava a manutenção deles aqui na Terra.

A intolerância das Igrejas

Cosmo de Copérnico
A Igreja Católica, por sua vez, via-se atolada numa interminável batalha de trincheiras, secular e teológica, contra a Igreja Reformada. Não foi sem razão que fez da Companhia de Jesus, fundada e mantida em disciplina militar pelo soldado espanhol Inácio de Loyola em 1540, a sua espada. Era um exército de uniforme preto, voltado para ação, para o assalto às fortalezas da heresia.

O Alto Clero Romano, e a corporação sacerdotal em geral, tornara-se, no decorrer do século 16, extremamente sensível às críticas, reagindo com brutalidade contra quem ousasse desafiar-lhe a autoridade ou colocasse em dúvida os seus dogmas. A curiosidade, a bonomia, e a tolerância, com que muitos papas do passado trataram o ceticismo e a incredulidade de muitos homens sábios, desapareceram com a morte de Leão X, em 1521.

Provocada por este clima radical de vida e morte, era natural que a Igreja Católica, como a Reformada, exigissem de todos posições bem definidas, a favor ou contra. Quem se mostrasse ambíguo ou neutro, era potencialmente um inimigo a quem não se concederia nem perdão, nem quartel. Até o grande Erasmo de Roterdã, o maior homem de letras daquele século, que falecera em 1536, e que tentou o quanto pôde manter-se eqüidistante, equilibrando-se entre as duas fés hostis, sofreram a dolorosa experiência de ver-se vilipendiado por ambos as partes.

A utopia de Bruno

O filósofo, porém, imaginou que se seguissem suas prédicas públicas, como a que fizera em Oxford, em 1583, enaltecendo a doutrina de Copérnico e manifestando-se a favor da restauração da magia e do hermetismo (a linguagem dos sábios egípcios do passado remoto), as brigas cessariam. Olimpicamente desconsiderou o cisma que então dividia o mundo cristão. Luteranos e católicos deixariam de se odiar, sonhou, se abraçassem à verdadeira religião nascida à sombra das pirâmides.

Repetindo Marcilio Ficino, o filósofo renascentista que fundara a Academia Platônica, morto em 1499, gostava de lembrar que a cruz era, bem antes da crucificação de Jesus, um símbolo sagrado de Isis, e fora bordada no peito de Serápis. Numa memorável invocação que fez a Asclepius (Esculápio), após descrever o cenário de um mundo melancólico, sofrendo de total inversão, onde "as trevas sepultarão a luz", e só "permaneceriam os anjos perniciosos", Bruno não duvidava que Deus poria fim a tal mancha, "chamando para o novo mundo a sua antiga fisionomia". Isto é, restaurando o culto egípcio.
Ele criticava o cristianismo ter destruído as honoráveis religiões do passado, pois eram tesouros de conhecimentos imemoriais. Vira em Hermes Trimegistro - um imaginário sacerdote egípcio que, pela santidade da sua vida, pela dedicação aos cultos divinos, e majestosa dignidade, consagrara-se como Três Vezes Grande - o fundador da prisca theologia, a teologia antiga, de onde todas as outras derivaram.

A doutrina heliocêntrica de Copérnico, que ele difundiu em incontáveis e sensacionais conferências nos meios acadêmicos europeus, pareceu-lhe, pois, um sinal do inevitável retorno às crenças desaparecidas.

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