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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Jean-Paul Sartre, o pensador engajado

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Jean-Paul Sartre
» O pensador engajado
» As grandes forças da época
» A tribo existencialista
» Nos braços da revolta
» Agonia e morte
 
Nascido em Paris no dia 21 de junho de 1905, Jean-Paul Sartre foi o mais famoso, odiado e celebrado, intelectual francês do século 20. Homem de sete instrumentos, ao longo dos seus 74 anos de vida, nenhum gênero das letras lhe foi estranho.

Mostrou-se extraordinariamente hábil e criativo não só na filosofia, romance, novela e teatro, mas até nos roteiros de filmes que deixou. Mas Sartre, prodigiosa máquina de gerar palavras, foi isso e muito mais, pois ele lançou-se na indagação da situação da humanidade e da cultura, podendo seguramente ser colocado no Panteão dos “heróis da razão pensante” do século 20. Foi o Sócrates do nosso tempo.

Longe da Torre de Marfim

JP Sartre (1905-1980)
Avesso à Torre de Marfim, - refugio do escritor simbolista alheio ao mundo real que desprezava - quis servir como um exemplo para os intelectuais do seu tempo estimulando-os a que eles escapassem dos seus gabinetes, arquivos e bibliotecas e, seguindo a tradição francesa de Voltaire, de Victor Hugo e de Émile Zola, se engajassem nas coisas do seu tempo. Que participassem ombro a ombro com os homens comuns das tragédias, dos dramas e das felicidades da sua época, porque, afinal, “o lugar do intelectual crítico é o cárcere, o exílio ou o museu. Tem que eleger”.

Por conseguinte não lhe ficou mal terem-no batizado de “o pedagogo da segunda metade do nosso século”, ou o “Sócrates da nossa época”, dando a todos uma “lição permanente de independência absoluta”. Ainda que educado como uma criança sedentária em meio aos livros do seu avô Charles Schwitzer, considerando a biblioteca como um templo, Sartre, adulto, transformou-se na inquietação em forma humana.

Uma filosofia da ação

J.P.Sartre nos começos do existencialismo, 1945
Ao contrário do que marcava o pensamento existencialista anterior a ele, que defendia uma posição filosófica intimista, extremamente subjetivista, um tanto quanto refugiada do mundo, Jean Paul Sartre defendeu um existencialismo ativo, engajado. Não era para menos. O seu antecessor e ainda contemporâneo, o famoso filósofo Martin Heidegger, propusera uma filosofia da existência (Zein und Zeit, de 1927) numa Alemanha apática e ainda apalermada pela derrota sofrida na Primeira Guerra Mundial.

Ocasião em que desabara o poderoso IIº Reich construído por Otto von Bismarck, destroçado nas trincheiras de 1914-18 e sepultado pela Revolução de Novembro de 1918. Toda a expectativa de uma grandeza futura, num repente, desaparecera do horizonte dos alemães.

Ora, o existencialismo sartreano foi forjado em outras circunstâncias. Se bem que a França fora derrotada em 1940, e, em seguida, ocupada até 1944, de certo modo ele foi a espiritualização da Resistência, do movimento clandestino gaullista-comunista que articulou-se contra a presença nazista durante a guerra.

Por conseguinte, a reflexão dele nasceu marcada pelo agir, pela ação, e não pela inanição, daí também entender-se ele classificar os intelectuais como “teóricos do saber prático” (esta definição colhida do “O Escritor não é político?”, resultava de Sartre entender que todo o saber moderno, pelo menos desde Descartes, “é prático” e não mais desinteressado como fora outrora).

Neste afã de tomar a peito as coisas da vida, o homem desejava, não mais crer em Deus, como propunha Gabriel Marcel, o filósofo cristão, mas ser ele mesmo um tipo de Deus. É a luta dos franceses pela libertação nacional que também fará com que se entenda a ênfase que ele depositou na questão da liberdade (palavra chave do existencialismo sartreano) e do engajamento, tornando-se Sartre o maior profeta da liberdade do mundo do após-guerra.

Se o homem é livre para escolher o seu caminho e fazer da sua vida um projeto que dê sentido a ela, isto só pode ser realizado se os seus atos articularem-se com os demais. Não há liberdade de um só. É impossível alguém ser livre numa caverna habitada por escravos, por conseguinte a liberdade de um somente pode ser concretizada obtendo-se a liberdade de todos. Ora, esta conclusão tornava obrigatório o engajamento, de participar ativamente das coisas do mundo. Não é possível alguém trancar-se ou fechar-se numa redoma qualquer e desinteressar-se daquilo que o cerca. É praticamente imoral voltar às costas aos outros, pois “o homem está condenado a ser livre, com outros homens livres”.

Assim sendo, como ele assegurou numa entrevista em 1964, “A política não é uma atitude que o indivíduo possa tomar ou abandonar segundo as circunstâncias, senão uma dimensão da pessoa. Na nossa sociedade, faça-se ou não política, já se nasce politizado: não pode haver vida individual ou familiar que não esteja condicionada pelo conjunto social de onde nós aparecemos e, por conseguinte, todo homem pode e deve atuar, ainda que seja para defender sua vida privada, sobre os grupos que o condicionam.” (cit.p/A.Gorri Goñi, 1986, p.131)

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