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CULTURA E PENSAMENTO

Arnold Toynbee, um estudo de história

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Arnold Toynbee
um estudo de história
a grande crise da civilização
 
Durante quase trinta anos, de 1934 até 1961, o historiador Arnold Toynbee reservou a maior parte das suas horas de lazer e descanso para redigir aquela que veio a ser a mais impressionante obra da história do século XX: A Study in History, Um Estudo de História.

Magnum opus imaginado e executado por um só homem, ambicionando cobrir em doze volumes, fora a introdução, a crônica das mais conhecidas civilizações que a história registrou, e que ele enumerou em 21, expondo quais aos mecanismos que as levaram a ascender e, percorrido um tempo de maturidade, a decair. Toynbee não apresentou apenas a fisiologia das civilizações, mas também alçou-se como um dos mais importantes filósofos da história do século passado.

Filho do patriciado intelectual

De certo modo não foi de causar estranheza ou surpresa o sucesso intelectual de Arnold Joseph Toynbee, tido como uma dos maiores historiadores de todos os tempos. Arnold, que nascera em Londres, em 18 de abril de 1889, era sobrinho de um tio homônimo, o reformador social Arnold Toynbee que escrevera um elogiado ensaio sobre a revolução industrial na Inglaterra, publicado em 1884. Outro dos seus tios era um tal de Paget, renomado erudito, filólogo de fama e biógrafo de Dante, cujo biblioteca foi freqüentada pelo jovem Arnold, fazendo com que ele herdasse os pendores familiares pelas leituras e livros.

A devoção pela história veio-lhe diretamente da sua mãe, dedicada historiadora, dotada de visão amplíssima. Estudante de Oxford, desde logo inclinou-se pelos estudos gregos que o levaram bem mais tarde a escrever um dos mais belos ensaios sobre a Grécia Antiga (Hellenism, the History of a Civilisation, 1959), talvez um dos mais traduzidos desde que apareceu. Portanto, seja pelo lado paterno seja pelo materno, Toynbee era herdeiro de uma linhagem de homens e mulheres de letras que deitavam suas raízes na mais funda tradição do patriciado intelectual do Reino Unido.

Uma exceção no seu tempo

Arnold Toynbee (1889-1975)
Se Arnold Toynbee pode ser politicamente enquadrado como um pensador conservador (Simone de Beauvoir o colocou com destaque no seu livro “O Pensamento de Direita, hoje”), ele, sob certo ponto de vista, deve ser visto como um rebelde na sua área, pois foi uma exceção no século XX. Alguém que remou contra as ondas da sua época.

Toynbee simplesmente negou-se a ser um especialista, um autor de monografias históricas pontuais que se dedicassem a um só aspecto, a um tema isolado, exagero que nos levou hoje aos extremos da micro-história, à “história em migalhas”.

Ou, com ele denunciou ter sido a história afetada pela “ industrialização do pensamento histórico alcançou tão longe que até reproduziu os exageros patológicos do espirito industrial” (Estúdio, vol. I, pág. 27) Se bem que reconhecesse que a especialização era decorrência natural da revolução industrial e sua obsessão por ir catar fatos cada vez mais precisos, negou-se a segui-la.

Afirmou que fazer História monográfica - além de ser um desperdício de tempo, pois exigia um esforço concentrado para captar o que tinha pouca significação, o desimportante, o trivial - era uma perversão oriunda da sociedade industrial que estreitava ainda mais os horizontes de quem a escrevia. Para ele a História era algo maior, algo grandioso, tratava-se de um instrumento monumental de compreensão e ao mesmo tempo uma vasta possibilidade de descortinar a humanidade em todo os tempos.

Deste modo, ele perfilou-se entre aqueles pensadores de bem antes como o bispo Bossuet (1627-1704) ou G.W.F. Hegel (1770-1831), alinhados numa visão providencialista de grandes proporções, nos quais mesclou-se a erudição com a procura de uma razão finalista para a existência das culturas e das civilizações.

Fascinou o público com suas incontáveis digressões onde, em prosa literária de fazer inveja a um ficcionista, deixava transparecer um conhecimento incomensurável, universal. Dominava, pois duas das grandes artes que imortalizam um historiador: a erudição e o estilo narrativo., Intercalando a apresentação com observações pessoais extraídas das incontáveis viagens que realizou por grande parte do mundo, lembrando um tanto o estilo de Heródoto.

Viagens e doença

Aposentando depois de trinta anos dirigindo o Royal Institute of Internationals Affairs (1925-55) dedicou-se a trotar pelo quatro cantos da Terra. Experiência que rendeu um excelente manual de viagens intitulado East to West: A Journey Round The World (editado pela Oxford University Press, em 1958).

A importante lição que deixou dela para os historiadores é da importância de se poder observar a geografia e a paisagem sociocultural sobre o que se vai escrever: o impacto do meio ambiente, a acidentalidade dos terrenos, as oscilações do clima...tudo aquilo enfim que de certo modo ajuda a explicar o porque de certas coisas ocorrerem de um modo e não de outro.

Nas suas memórias (Experiences, Oxford, 1969) , Toynbee relatou um curioso episódio que o fez ser dispensado do serviço militar quando da eclosão da Iª Guerra Mundial. Era costume nas escolas superiores inglesas, enviar seus alunos mais qualificados da área humanística para um demorado estágio de estudos na Grécia.

Certa ocasião, fazendo uma das suas tantas caminhadas por aquelas terras ilustres, Toynbee sentiu-se invadido pela sede. Perto de uma choupana passava um córrego no qual fartou-se. Da porta do casebre um camponês o olhava e, depois de tê-lo visto saciar-se, disse-lhe: “água ruim”. Constrangimento esse que lhe aconteceu em 1912 e que pelos anos seguintes fez com que padecesse de uma desinteria crônica, grave o suficiente para que não o convocassem, como ocorreu com seus colegas de Oxford, para ir servir nas mortais trincheiras de Ypres ou do Somme, sumidouro onde sangrou boa parte da juventude universitária inglesa.

Massacre que fez com que a visão esperançada do futuro constante no verso de Tennyson que previa a forma “maravilhosa que o mundo tomaria”, expectativa que o poeta depositava ainda nos inícios dos tempos vitorianos, soasse como uma amarga ironia pregada pelo destino à gerações européias, contemporâneas de Toynbee, formadas na crença da racionalidade e na eficácia da ciência e nas virtudes da civilização ocidental.

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