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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Renascimento: o reino dos homens

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Exatamente no ano em que deu-se a descoberta do Novo Mundo, em 1492, o filósofo renascentista Marsílio Ficino (1433-1499), em carta a uma amigo, celebrou o grande século em que lhe coube viver, o século XV. Documento esse que mostra a extensão da consciência que os pensadores humanistas tiveram da sua época. No final da missiva ele registra o espetacular invento que se dera na Alemanha, a imprensa, acontecimento revolucionário que iria auxiliar a implantação do Reino dos Homens aqui na Terra..

Marsílio Ficino

Marsílio Ficino e seus discípulos

"E assim, portanto, há uma idade que temos que chamar de ouro... e que o nosso século seja assim, áureo, ninguém duvidará disso se tomar em consideração os admiráveis engenhos que nele se achou."
Marsilio Ficino, Epistole IX, 1492

Profetas não são otimistas. Ao contrário. Se os santos anunciam as graças, os profetas somente operam com desgraças. Mesmo que eles acreditem que bem lá longe, no fim dos tempos, haverá a recuperação da humanidade, o caminho a ser percorrido até lá, para eles, é um percurso pleno de horrores, uma trilha sobre a qual somente desabam raios e trovões. Assim é que, entre o delírio profético com suas imagens de catástrofes e abismos, e às aparições dos santos com suas mensagens de purificação e absolvição, abre-se o espaço para o filósofo, de quem, afinal, espera-se bom senso.

No Renascimento esse filósofo chamou-se Marsílio Ficino, que antes de tudo foi um homem de sorte. Quando ele nasceu em Figline Valdano, um lugarejo perto de Florença, em 1433, já se passara um século da devastação causada pela Peste Negra com seu impressionante caudal de vítimas. Marsilio, filho do médio particular de Cósimo de Medici, o homem mais rico de Florença, da Itália, e quiçá da Europa, logo caiu nos favores do magnata, um entusiasta da cultura grega antiga. Recebeu então uma educação requintada, e por influência do seu preceptor, o bizantino Argiropoulos, além dos conhecimentos de medicina e música, revelou-se um tradutor de mão cheia. Por sua vez, Lourenço, neto de Cósimo e discípulo de Ficino, gostara muito da história de celebrar o dia 7 de novembro como o dia de Platão, pois a tradição dizia que naquela data os discípulos do grande mestre homenageavam-no com um banquete.

A academia platônica de Florença

Se era para fazer festa porque não dar um passo adiante e reviver o próprio espirito da Academia de Platão, instituição desaparecida há mais de 900 anos atrás, quando o imperador bizantino Justiniano a fechou em 526 ou 529? Essa foi a tarefa que Cósimo delegou a Marsilio. Enviou-o para Careggi, uma das suas magníficas propriedades em Fiesoli, perto de Florença, para que o jovem estudioso começasse o seu trabalho de emérito tradutor. Nada do grego parecia-lhe estranho.

Depois de verter quase todos os Dialogos de Platão, lançou-se sobre Plotino, Jâmbico, Proclo e Sinésio. A partir de 1459, Ficino transformou o local na Academia Platônica de Florença, recebendo os luminares do seu tempo: o arquiteto Alberti, o filósofo Pico della Mirandola, o poeta Poliziano e até Maquiavel andou por lá. Em geral os participantes dos encontros reduzia-se a nove, o mesmo número das musas da mitologia grega. Os temas debatidos entre eles eram livres e mesmo quando o todo-poderoso Lourenço estava presente nas reuniões era tratado com um deles, como um igual. Foi assim que não se limitaram, pelo menos Ficino e della Mirandola (um fenômeno que dominava 22 línguas), a cultivar somente a sabedoria grega antiga.

Em busca de outros mares

Cena urbana da Itália renascentista
Não demorou para estarem traduzindo o Corpus Hermeticus atribuído a Hermes Trismegisto, um deus egípcio helenizado que acreditavam ser o deus da Palavra e iniciador dos Mistérios da Cosmogonia. Daí foi um passo para estudarem a cabala judaica, os antigos livros de Zoroastro, os de Orfeu, e os escritos árabes. Rompiam assim com a ditadura teológica imposta pelo Papado, procurando outras formas e estruturas de pensamento que não fossem somente às vindas das fontes e da tradição cristã.

Quase que junto com eles, os seus conterrâneos Cristóvão Colombo, Américo Vespucci, Giovanni Verazano, Giovanni Caboto, e tantos outros marinheiros italianos, por igual iriam desbravar mares jamais navegados, irmanando-se aos integrantes da Academia de Florença que antes ousaram lançar-se na busca de saberes outros, dos tesouros de conhecimento enterrados nos antigos solos da Grécia, do Egito, da Caldéia e da Judéia , bem distantes da dieta teológica em que foram educados. Recorrendo a uma expressão da moda, os integrantes da Academia Platônica de Florença tornaram-se pensadores multiculturalistas.

Posição essa que, como viu-se, também seduziu a Lourenço de Medici, o neto e herdeiro de Cósimo, e que se consagrou na história como o grande impulsionador das artes florentinas. Deram-se conta, aquele pequeno grupo de humanistas, que estavam vivendo numa época excepcional. Em qualquer canto da Itália havia um gênio, em cada esquina de Florença brotava um Masaccio, um Botticelli, um Leonardo da Vinci, um Miguel Ângelo (que parece ter estudado com Ficino), um Ghiberti, um, Brunelleschi Verocchio , um Donatello, um Michelozzo ou um Filippo Lippi, artistas que imortalizaram a arte italiana.

Ficino, na carta que escreveu ao amigo Paulo de Medelburgo, no ano de 1492 , não teve dúvidas em envaidecer-se da sua época acreditando-a ser uma verdadeira Idade de Ouro. Tudo assegurou ele, aparentava ter emergido à luz, ao esplendor, fosse a gramática, a poesia, a oratória, a pintura, a escultura, a arquitetura, ou a música. O que parecia ter estado escondido para sempre voltara, inteiro e reunido, a superfície. Até “o antigo som da lira órfica” se fazia ouvir . E, enquanto em Florença assistia-se o renascimento da filosofia de Platão, arrematou ele entusiasmado, na Alemanha “inventou-se um instrumento para imprimir livros”. E com eles, com os livros, deu-se início ao regnum hominis, o Reino dos Homens. Quando Marsílio Ficino faleceu, no ano de 1499, o antigo continente da cultura grega tal como a redescoberta da mítica Atlântica se realizara, a América, um novo continente fora descoberto e um tão extraordinário, o da impressão de livros, tivera o seu começo.

Bibliografia
Burckhardt, Jacob – O Renascimento Italiano, Lisboa, Editorial Presença, s/d.
Dresden, Sem – O Humanismo no Renascimento, Porto, Editorial Inova, 1968
Garin, Eugenio – El Renacimiento italiano, Barcelona, Editora Ariel, 1986.
Kristeller, Oskar P. – El pensamiento renacentista y suas fuentes, México, Fondo de Cultura Económica, 1982
Idem – Ocho filosofos del Renacimiento italiano, México, Fondo de Cultura Económica, 985
Yates, Francis – Ensayos reunidos, II – Renacimiento y reforma; la contribución italiana, México, Fundo de Cultura Económica, 1991

    
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