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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Elia Kazan, o delator

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Faleceu aos 94 anos, no dia 28 de setembro de 2003, em Nova York, um dos mais importantes diretores do cinema americano do século XX. Elia Kazan, filho de imigrantes gregos, nascido em Constantinopla, literalmente “fez a América”. Nos anos trinta conseguiu projeção como diretor das peças de vanguarda no circuito nova-iorquino, o que lhe valeu convites para ir dirigir filmes em Hollywood. Com a histeria provocada pela caça às feiticeiras nos começos da Guerra Fria, a perseguição aos artistas, roteiristas e diretores pró-comunistas, ou simples simpatizantes da causas marxistas, no meio cinematográfico norte-americano, Elia Kazan fraquejou. Para que o livrassem dos interrogatórios ele, que militara no partido comunista, entre 1934-6, colaborou com os inquisidores macarthistas, dando os nomes de ex-companheiros para que fossem investigados e presos. Não só isso, inaugurou nos anos 50 um subgênero dramático, o da valorização do delator.

O testemunho de Arthur Miller

Elia Kazan (charge do Village Voice)

"Então um dos Doze, chamado Judas Iscariotes, foi até o chefe dos sacerdotes e disse: O que me dareis se eu o entregar?" Mateus, 26

Quando Arthur Miller foi ao encontro de Elia Kazan, num chuviscoso dia de abril de 1952, intuiu que coisa boa não era. A relação profissional deles, na época, assemelhava-se a uma fraternidade. Uns anos antes, em 1949, fora Kazan quem dirigira o que viria a ser um dos estrondosos sucessos teatrais de Miller, “A Morte do Caixeiro-viajante” (Death of a Salesman), tornando-o universal. Esperava Miller o pior porque o meio artístico norte-americano vivia um dos seus momentos mais depressivos e vergonhosos.

O macarthismo - a caça organizada aos comunistas e simpatizantes, desencadeada pelo Comitê de atividades Anti-americanas (HOUAC) no show-business-, devastava a todos. Miller angustiava-se pelo amigo, um notório homem de esquerda que, até então, levava “uma vida de ar de secreta conspiração contra a sociedade, contra o capitalismo”. Evidentemente não esperava ouvir o que escutou. Kazan, frio, racional, confessou-lhe que decidira-se colaborar com o senador MacCarthy. Afinal, disse ele, não tinha mais nenhuma simpatia pelo comunismo e o chefão do estúdio da 20ª Century Fox garantira-lhe que se o comitê não lhe limpasse a ficha, as portas estariam fechadas para ele. E Kazan, doravante, só via um destino para ele: o cinema. Argumentou ainda que as pessoas que ele denunciara, seus ex-companheiros do The Group Theater, uma dúzia mais ou menos de membros do PC americano, todos sabiam quem eram. Miller enregelou-se. De chofre percebeu que se estivesse com ele desde os anos trinta, no tempo do Group, Kazan não hesitaria também em dar seu nome para preservar a carreira. Uma das mais promissoras amizades do mundo dos espetáculos acabou ali mesmo.

A delação é uma virtude

Marlon Brando, a glamourização do delator (filme On Waterfront)
O mais irritante de Kazan porém veio depois. Ao perceber que seu nome se tornara num sinônimo de Judas (crédito, em seu favor, que seu nome, uma abreviação do grego Kazanjoglous, portanto estrangeiro, foi mais fácil de ser associado à traição), empenhou-se não só em justificar-se como fazer da delação uma virtude. Se John Ford, em 1935, pintara no “The Informer” o personagem Gypo Nolan, um militante irlandês que entregara seus camaradas aos ingleses, como um ser abjeto, Kazan agiu ao revés. Em 1954, com a ajuda de um outro delator, o roteirista Budd Schulberg, converteu o dedo-duro Terry Malloy (imortalizado por Marlon Brando), num herói das lutas portuárias. O sucesso do “Sindicato dos Ladrões” (On the Waterfront) foi tal que pode-se dizer ter inaugurado um subgênero cinematográfico: o do delator positivo.

Nos anos 50, Hollywood produziu uma série de estranhos filmes onde o rebelde terminava sempre por converter-se no seu contrário, num servidor da ordem.. Ora era um índio apache que, abandonando a peleja contra a cavalaria, encerrava a vida como.......polícia apache servindo os brancos! Outra, era um jovem marginal que cansado das atrocidades feitas pelo seu bando de celerados, entregava a gangue inteira ao delegado. Sim, Kazan fez escola. Conseguira glamourizar o delator!

Miller, por sua vez, no dia seguinte ao infeliz encontro, chegou a Salem, na Nova Inglaterra. Queria ter um contanto direto com as provas do que lá se passara em 1692 quando, naquele vilarejo remoto, um surto persecutório, alimentado por denúncias de garotas histéricas, resultou no enforcamento de 19 inocentes acusados de feitiçaria. Espantou-se com a idêntica ausência de lógica, a mesma busca da completa abjeção das vítimas; o mesmo fanatismo, covardia e perfídia, que Miller, no ano seguinte, em 1953, imortalizaria na "As feiticeiras de Salem"(The Crucible). Enquanto um dos seus personagens, John Proctor, o rude aldeão de Salem, rasgava no ato final, indignado, uma falsa confissão que os inquisidores exigiam que firmasse, condenando-se ao patíbulo. Kazan, o alcagüete do macarthismo, ainda foi homenageado pela Academia de Artes de Hollywood que deu-lhe o “Oscar” pelo conjunto dos seus filmes, num gesto que muitos entenderam como de perdão para com um artista moralmente indigno.

    
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