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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Montaigne e o mirante do sábio

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Michel de Montaigne (1533- 1592), o grande pensador e escritor humanista da renascença francesa, o celebrado autor dos Ensaios (1580-1588), era pessimista e cético em relação a sociedade da sua época. Achava-a viciosa e falsa. Por isso, empenhou-se em encontrar um espaço próprio, um recanto onde pudesse estabelecer-se com toda a tranqüilidade, dedicando-se dali, no seu refúgio – o Mirante do Sábio - a observar o jardim e a paisagem que o circundava. Na torre do seus castelo em Bordeaux, escreveu então, em prosa soberba, as mais belas páginas da literatura francesas em todos os tempos.

O mundo é um teatro

Michel de Montaigne (1533-1592)

"...há uma peste no homem, é a pretensão de saber alguma coisa"
Montaigne – Ensaios, 1580

Numa sociedade embebida em falsidades, obcecada por representações e aparências - na qual as pessoas tratam de esconder o que verdadeiramente são, atuando como se fossem atores e atrizes - qual o lugar de um homem sábio? Como lidar no Mundus universus exercet histrioniam? (O mundo é o universo do histrião). Meditando sobre isso, sobre o mundo parecer-se a um teatro, o filósofo e humanista Michel de Montaigne, morto em 1592, disse que “ há em nós mais vaidade do que infelicidade, mais tolice que malícia, mais vazio do que maldade, mais vileza do que miséria.” Vivendo em meio a uma comunidade tomada por viciados, ele deve evitar o contagio com o mal, pois tal conúbio o obrigava a duas alternativa: ou adere aos viciados ou os odeia. Ambas ruins e negativas. Onde, pois, encontrar um sitio que o afastasse do “malefício do parecer”? Visto que nem o mais prudente dos pensadores escapava da sedução das ilusões - pois tudo que o circundava era feito de “trapaça, mentira e traição”, onde, raios, ele podia achar um refúgio?

Os sábios gregos antigos, sabedores disso, abrigavam-se em asilos muito próprios, originais: Pitágoras entre os esotéricos, Platão na Academia, Aristóteles no Liceu, Zenão no Stoa, e o cínico Diógenes num barrica. Mas Montaigne não pretendia fundar nenhum escola, nem queria discípulos ou seguidores ao seu redor. Desejou somente retirar-se das coisas do mundo para, à distância, poder entendê-lo: encontrar um mirante para o sábio. No caso dele, a biblioteca que possuía na torre do castelo da sua família em Bordeaux, onde nascera nas propriedades da família, em 1533.

Somente ali, gozando da solidão em meio aos papéis à tinta e aos livros, sentia-se livre, liberto de qualquer convenção. Seguia assim o preceito dos estóicos e dos epicuristas que indicava a necessidade de estabelecer-se “ num lugar” que repelisse “a imaginação, a presunção e a vaidade”, para bem longe de si. Privar do seu próprio jardim, enfim. Como dissera Plínio, no passado: “No retiro absoluto que criaste, é onde tendes a possibilidade de viver como entendes...te entregues ao estudo das letras, a fim de chegares a produzir alguma coisa pessoal” (citado nos Ensaios, I, XXXIX) Eis que o verdadeiro sábio seqüestra a si mesmo e, encurralando-se num recanto, afasta-se das “falsas fisionomias” e das “mascaradas” com que antes era constrangido a conviver.

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