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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

Montaigne: recolhendo-se

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» Montaigne e o mirante do sábio
» Montaigne: recolhendo-se
 
A decisão de Montaigne de enfurna-se, desde 1571, na biblioteca da torre do seu castelo e lá dedicar-se à leitura e às letras, pode ser entendida com uma expressão secularizada da opção feita por um eremita. Não se tratava do retiro cristão, ocasião em que o fiel apartava-se de todos seguindo severos jejuns e flagelações para, daquele modo, mortificando a carne, liberar o espirito para melhor poder ouvir a voz de Deus. Ao contrário, Montaigne abominava a expiação do corpo e a obsessão em querer separá-lo do espirito, pois entendia-a como um exercício típico de fanáticos (o tipo de gente que, naquela época, insuflava o ódio teológico entre católicos e huguenotes, alimentando na França uma terrível e sangrenta guerra civil religiosa).

Tratava-se de um retiro secular, do ócio útil, proveitoso, digno de um homem de sentimentos nobres, elevados, atividade já recomendada por Aristóteles com a única merecedora a ser seguida por quem deveras aprecia a liberdade e que não dispensava as condições mínimas de conforto. O sábio, ao revés do eremita, quer estar presente no mundo, não quer ausentar-se dele, quer entendê-lo sem perder a consciência, sem delírios e mortificações, agilizando a sua “atividade de julgamento”, onde sua atenção e curiosidade alterna-se entre a compreensão do mundo e dele mesmo: um ir e vir do Cosmo ao Homem.

O recolher-se de Montaigne
Retiro secular. A sua origem remonta á cultura greco-romana, dos filósofos clássicos. O único interlocutor do sábio era ele mesmo, entregue a um "especular exercício do seu próprio julgamento". Não havia necessidade de passar por nenhuma privação, fosse física ou mental. Situação em que ele não sofria a submissão a nenhuma autoridade externa.

O retiro de um cristão
Retiro religiosoRemonta às recomendações de S. Agostinho e a outras práticas monacais.Busca a piedade cristã, no sentido de "ouvir a voz de Deus"Sacrifícios físicos, jejuns e abstinências voluntárias, fazem parte do esforço. O subsumir-se era a condição para conseguir o envolvimento total com Deus

Livros e leituras

O mirante do sábio (a torre do castelo Montaigne)
Montaigne, como em geral os humanistas do século XVI, nunca entusiasmou-se por batalhas ou pelas artimanhas da estratégia. Descendia da burguesia togada, da gente dos tribunais e dos parlamentos, do comércio, não dos campos de combate. Era um cavalheiro da palavra não da espada. Apreciava Minerva mas não Marte. Assim é que, tendo uma educação refinada, nem cultivou o gosto em ler as aventuras de cavalaria, tão populares na sua época. Nem mesmo o “Amadis de Gaula”, que era leitura obrigatória entre os rapazes, o atraiu. Depois de ter aproveitado por um bom tempo da vida mundana, com seu roteiro de delícias, abandonou a vida cortesã por não gostar dos salamaleques e das lisonjas. Tornou-se leitor voraz. De autores mais ou menos próximos da época dele, gostara de Bocccaccio (Decamerão), de Rabelais (Gargantua e Pantagruel) e Jean Second, a quem admirava especialmente Les baisers (os Beijos).

De resto, sua inclinação concentrou-se nos grandes clássicos, em Virgílio (de quem ele recomenda o Livro V da “Eneida”), em Lucrécio, Catulo e Horácio, e também em Lucano e Terêncio, a quem atribui uma escala menor. Fez ainda respeitosas considerações a Plutarco e a Sêneca, lembrando ainda de Diógenes Laércio, o historiador dos filósofos gregos. Disse que Cesar merecia ser estudado como historiador, pois admirou-lhe o distanciamento, a ausência das paixões, o relato objetivo e preciso. Talvez, por isso, tenha gostado também de Francesco Gucciardini, o historiador florentino que inspirara-se no grande romano para redigir suas Storia d´Italia e Storia Fiorentine, porém com estilo moderno.

A Cícero, entretanto, a quem ele lera desde garoto, fez ressalvas. Reconhecia-o como orador, como homem corajoso, o tribuno senatorial e grande causídico, mas considerou-o aborrecido como escritor. Desprezou igualmente autores que lançavam mãos de artifícios para passarem por sérios, comparando-os a certos mestres de dança que, cientes da sua desimportância, lançavam mão das piruetas e das acrobacias para chamar a atenção do público.

Ao devorar tudo aquilo, ao percorrer as milhares de páginas que leu, Montaigne, um cético, concluiu que poucas ações na história podiam ser atribuídas à virtude, à consciência. Mesmo as que aparentavam ser motivadas por belas e bem intencionadas razões, sempre havia por detrás delas alguma coisa de viciosa. Em vista disso, considerou a leitura , além de um honesto passatempo, uma oportunidade para conhecer a si mesmo, um poderoso auxilio para ajudá-lo “a viver e morrer bem”, escapando assim dos enganos. Por isso enfatizou que ninguém deveria perder tempo com textos ininteligíveis, dizendo que se um determinado livro o entediava, ele, de imediato, saltava para outro. A leitura presta-se, pois, a engrandecer o indivíduo, auxiliando-o a encontrar o seu papel no mundo, temperando-o para enfrentar as borrascas e as demais vicissitudes da vida.

O site recomenda

Michel de Montaigne - Ensaios (SP. Editora Nova Cultural, 1992, 2 vols)
Jean Starobinski – Montaigne em movimento (SP. Cia das Letras, 1993).

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