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História - Cultura e Pensamento
CULTURA E PENSAMENTO

A Sociedade Lunar, os construtores do futuro - parte 2

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Com o tempo, aqueles encontros acertados desde 1765, adquiriram maior dimensão com a crescente adesão de mais gente talentosíssima. Era um estado-maior de gênios e de empreendores que, a partir de 31 de dezembro de 1775, decidiram oficialmente tomar o nome de Lunar Society of Birmingham. Compunham-na, além do dr. Darwin, Matthew Boulton (1728-1809), o sócio de James Watt (1766-1819) na construção de máquinas a vapor, seguido por John Whitehusrt (1713-1788), um rico fabricante de relógios de Derby, que lidava com instrumento científicos, o inventor Richard Lovell Edgeworth (1744-1817), um educador renomado, o pioneiro da indústria química James Keir, Joseph Priestly, um emérito químico, e Samuel Galton, fabricante, patriarca de uma dinastia de cientistas que, depois, por casamento, juntou-se à família Darwin. Eram cientistas bem antes do mundo descobri a palavra para defini-los. Um conclave de bons amigos que, uma vez ao mês, juntavam-se para trocar idéias, comer e beber alguma coisa, e provocar discussões para estimularem-se a fazerem novos inventos. O acervo deles, como alencou Jenny Unglow (*), não foi nada mau: descobriram o oxigênio, inventaram a máquina a vapor, a água com gás, alinhavaram um esboço bem plausível de uma teoria da evolução, e fizeram maravilhas com máquinas e peças de louças e demais jogos de chá, verdadeiras jóias até hoje apreciadíssimas.

(*) The Lunar Men; The Friends Who Made the Future, 2002)

Um malabarismo ideológico

Otimistas assumidos, em respeito ao progresso humano, os integrantes da Sociedade Lunar arranjaram um modo engenhoso de superar as inibições impostas pela religião e possíveis ataques dos fanáticos, para continuarem produzindo em função da prosperidade da humanidade. Frente a questão teológica de que se era legítimo tentar melhorar a vida do homem na Terra, visto ser ela um lugar de expiação, o vale de lágrimas da Bíblia, defendiam-se argumentando que o mesmo livro anunciava a existência de um outro mundo feliz, um Reino dos Céus disposto ao alcance dos bons. Viam-se, por conseguinte, como os que, de algum modo, com seu engenho e criações, mostravam aos daqui da Terra, os ainda vivos, as coisas maravilhosas que eles certamente encontrariam no outro mundo. Os inventos deles deixavam antever os além-portas do Paraíso.

O Jardim Botânico

O Jardim Botânico , livro de Erasmus Darwin (1789-1791)
Coube a Erasmo Darwin dedicar-se a construção de uma síntese entre as projeções da sociedade inglesa do seu tempo, dividida entre o jardim e a fábrica, no sentido de alcançar uma conciliação entre a beleza e a utilidade. Dedicou-se por alguns anos a escrever um notável poema neopagão, inspirado na Metamorfose de Ovídio, sobre a vida exuberante e a sensualidade das plantas e flores, denominado The Botanic Garden (1789-1791), dedicando versos esplêndidos à sexualidade da flora. Como , segundo ele, era o caso da flor Amabillis formosissima, percebida por Darwin, um erotômano, como um pequeno centro lascivo composto por seis machos e uma só fêmea, (o que fez com que uma crítica, irônica, dissesse tratar-se da descrição de um harém floral, no qual estamentos e peristílos faziam as vezes dos belos e das belas). Não deixando Darwin, entrementes, de estimular os seus amigos fabricantes a avançarem nas artes práticas e no avanço tecnológico. Além disso, influenciado por Lamarck, aproveitou aquela oportunidade para expor alguns questionamentos ao que se pensava serem as verdades consagradas pela religião.

Darwin, que previu resultados revolucionários para a eletricidade, abraçou uma espécie de precoce teoria evolução natural, que nós não éramos um produto feito, saído diretamente das mãos de Deus, como consta no Gênesis, mas que provínhamos de formas bem mais toscas, mais primitivas, que foram se aperfeiçoando e se amoldando através dos tempos (*). Graças aos seus amigos geólogos, igualmente descreu que as montanhas fossem recentes como constava no Livro Sagrado e, por fim, para escândalo dos pastores e teólogos, ainda que ele não conseguisse localizar um “ cérebro” nelas, disse que as plantas tinham algo equivalente a uma alma, e, portanto, eram passíveis de sentimentos. Temas que ele tratou de aprofundar no seu ensaio em versos “The Temple of Nature”, ou “The Origin of Society” (publicado em 1802), onde expôs a sua visão naturalista da formação da Natureza, ausente de menções da presença divina, situação resumida por ele nos versos iniciais:

“ A vida orgânica derivou das ondas litorâneas/ Nasceu e nutriu-se nas cavernas opalinas do oceano/ Num primeiro minuto suas formas foram invisíveis tal vidro esférico /Movendo-se na lama, ou perfurando a massa d’água/ Isto, em sucessivas gerações de florescimento/ novos poderes assumiu, adquirindo longos membros / Então, quando incontáveis grupos de vegetação floriram/ o fôlego agitou as barbatanas, os pés e as asas.”
(Erasmus Darwin – The Temple of Nature, 1802)

Naturalmente, que com tantas coisas explodindo naquela usina de sábios que era a Sociedade Lunar, não é de estranhar-se que também entre eles difundira-se a expressão “ gênio”, aplicada no sentido de definir o ser excepcional, alguém privilegiado pela natureza que, num instante, em um só momento de imaginação, através de um invento, mudava o destino das coisas e das gentes. Nesta mesma época, esta palavra, atravessando o Canal da Mancha, chegava na Alemanha de Goethe, contemporâneo de Erasmus Darwin, adquirindo por lá um significado ainda bem mais amplo.

(*) Esta, a doutrina da evolução, foi uma das suas heranças mais promissores deixadas para ao seu famoso neto Charles Darwin, quem demonstrou empiricamente como se dava o processo da evolução no seu clássico ensaio A Origem das Espécies, publicado em 1859.

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