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Visconti, do neorealismo ao decadentismo - parte 2

A mudança

“O Leopardo”, a valsa do Principe Salinas
A filmografia italiana do após-guerra sofreu uma impressionante alteração a partir de 1959 com o La Dolce Vita, de Federico Fellini, sucesso mundano internacional. Os personagens pobres e os atores amadores começam a rarear nos filmes da década de sessenta. O país, com o dinheiro do Plano Marshall, saíra da indigência material, saltando para uma situação de bem estar desconhecido. A prosperidade da Itália datou e sepultou o neorealismo. Visconti ainda realiza o seu derradeiro filme proletário encenando Rocco ei suoi fratelli, (“Roco e seus irmãos”, 1960), a tragédia de uma família de imigrantes sicilianos, recém-chegados a Milão. Entrementes, Anna Magnani, a musa do neorealismo, rosto vincado por dores e lágrimas, cede seu espaço no écran para a refinada Silvana Mangano, de beleza clássica grega, ela também vinda do neorealismo, mas que apresenta-se em nova figuração. Será uma das eleitas de Visconti na sua trajetória rumo à temática do decadentismo, quando ele volta a assumir a identidade com que nascera: a do Conde Luchino Visconti de Modrone.
Inspirado na Gesamtskunstwerke de Richard Wagner (a concepção de uma arte total, sincrônica, que abrace o teatro, o cenarismo magnifico, detalhista, perfeccionista, estonteante, a música e o libreto), Visconti dedica-se a ser o painelista-mor do eclipse social e moral do patriciado europeu, uma espécie de Miguel Ângelo do século XX, preocupado em estetizar a “queda dos Deuses”, isto é crise da aristocracia e da grande burguesia oitocentista européia. Tarefa que, depois da experiência de Saso, filme que se passa na época da libertação nacional italiana, ele dá andamento com a filmagem de Il Gattopardo (O Leopoardo, 1963). Baseado na novela do siciliano Giuseppe di Lampedusa, é a crônica do fim de uma era, o do domínio senhorial do Principe Salinas e da sua família sobre o seu feudo na Sicília.

A trilogia tedesca

O herdeiro pervertido (A queda dos deuses)
Herdeiro das artes plásticas e da extraordinária tradição operística italiana, rompendo com seus vínculos com o neo-realismo, Visconti pôs-se a erguer o seu imenso mural do declínio de uma classe. Tornou-se um gigante em meio a cinematografia mundial, dando seus largos passos quase que solitário em querer fazer do cinema uma arte maior, empregando um esmero na reconstrução das épocas até então sem paralelo na história dos espetáculos para melhor expressar a atmosfera refinada e sofisticada. Algo como jamais havia sido visto na dimensão de uma tela de cinema.
Em seguida, ao ter reproduzido o estertor da vida respeitável e mundana do Principe Salinas (Il Gattopardo, 1963), ele dedicou-se a chamada “trilogia tedesca”(La caduta degli dei, 1969; Morte a Venezia, 1971: Ludwig, 1973), um impressionante tríptico que cobre a história da Alemanha desde a ascensão ao trono do rei Ludwig II da Bavária, em 1863, até os princípios do colapso da elite industrial germânica (a família do barão do aço Von Essenbeck) quando ela aderiu ao nazismo nos anos trinta. No meio desta jornada, ele dedica-se, com o esmero de sempre, a fazer um retrato patético e devastador de um grande músico germânico(Aschenbach) que, nas vésperas da Primeira Guerra Mundial, solitário, refugia-se na praia do Lido em Veneza, fora da estação de veraneio, para ter seu encontro final com a beleza e com a morte. Os cenários, sensacionais, de cor e beleza poucas vezes vistas, reproduzem a atmosfera dos castelos que Ludwig mandou erguer em Linderhof (incluindo a luxuriante Gruta de Vênus), Neuschwanstein, Hohenschwangau e Herrenchiemsee, como depois ele irá fazer com as ruelas, pontes e canais de uma Veneza imóvel, assediada pela cólera, contrastando com as magnificas e confortáveis instalações do Hotel do Lido, onde morreu Aschenbach. A associação do luxo com a decadência fazem parte da sua retórica de marxismo adamado.

Os cavaleiros do apocalipse de Visconti

"O Inocente", o ciúme assassino
Nos seus outros dois filmes, um refinado professor, colecionador de retratos familiares do século XVIII (Gruppo di famiglia in um interno, 1974), um símbolo ainda vivo de um humanismo decadente, adota com sendo sua um estranho grupo familiar, liderado por um condessa romana, seu jovem amante, sua filha e o namorado. No outro (L´Innocente, 1976), seu filme derradeiro, inspirado numa novela de D´Anunzzio, é a destruição, pela morte propositada de um inocente, da possibilidade de vir constituir uma família é o que move Tullio, o personagem central. É um desfilar de gente refinada, muito bem vestida, cercada por trajes, objetos, móveis e cenários deslumbrantes, mas que se encontra ferida de morte, vitimada pelas paixões despertadas pelo nacionalismo europeu (garibaldino no caso do Principe Salinas, bismarckiano no que toca a Ludwig, ou nacional-socialista para os Essenbeck); pelas guerras que se aproximam (a da unificação italiana, a primeira e a Segunda guerra mundial), e deixando-se dominar e corroer pelas perversões sexuais (pedofilia, o voyerismo, a pederastia ou incesto), sintoma da sua esterilização, segundo Visconti. A tais cavaleiros do apocalipse (nacionalismo, guerra e perversões) ele acrescenta um quarto, que é a vulgaridade dos tempos modernos que invade e sufoca a elite por todos os lados. O afresco viscontiano revela a contradição, tipicamente decadentista, entre um ambiente dominado pelo tédio, luxo e requinte, onde se movem seus personagens, e a percepção deles de uma ausência de futuro, daí a lassidão e a morte estarem sempre presentes. Admirador de Thomas Mann, de Dostoievski, ele ainda pensou em levar Em Busca do Tempo Perdido de Marcel Proust ao cinema. Infelizmente, a queda final do patriciado francês terminou por ficar de fora desse magnífico, monumental e trágico relato sobre a vida daqueles que, até um ano antes da Segunda Guerra Mundial, eram universalmente vistos como os senhores do mundo.

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