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Jay Gould e a Paleontologia - O equilíbrio pontual

O Museu Americano de Historia Natural, fundado em 1869, templo sagrado dos naturalistas
Gould, entretanto, não foi somente um divulgador. Desde menino revelou-se um amante dos dinossauros. Tudo deu-se a partir do dia em que o seu pai o levou a ver um Tyrannosaurus rex no American Museum of Natural History, de Nova Iorque, quando ele fez cinco anos. Sendo natural a adesão dele ao darwinismo, única doutrina cientifica e social séria seguida pelos norte-americanos. Procurou corrigi-lo, defendendo o Punctuated equilibria - a tese do equilíbrio pontual que o tornou famoso no meio dos estudiosos de ciência natural - , segundo a qual a evolução não se faz necessariamente aos poucos, de acordo com o phyletic gradualism, o gradualismo, como ainda hoje acreditam os neodarwinistas. As circunstâncias, o clima, a geografia, o inesperado, podem provocar o rápido surgimento de uma espécie, ou alterações substantivas na estrutura e na aparência delas. Pareceu-lhe bem plausível que algumas delas passassem por uma brusca mutação para depois estabilizarem-se, seguindo por séculos a fio sem conhecerem outras alterações. Ao gradualismo dos darwinistas ortodoxos ele opôs o espontaneísmo e o stop and go do pontualismo.

O gene regulador

E.Haeckel (1834-1919), o evolucionista alemão admirado por Gould
Defendeu, além disso - restaurando o antigo e desacreditado conceito de heterocronia, apresentado pelo alemão Ernst Haeckel em 1886 - a existência de um gene regulador, chamado de homeótico, provocado pela mudança do ambiente. Trata-se de uma espécie de autocorretivo que permite que certas espécies sofram modificações especiais, apresentando novos fenótipos, que só se processam localmente, não incidindo sobre as demais. Tudo isso levou-o, a este entusiasta da história natural, a defender um novo paradigma para o progresso, um modelo que enfatizasse não mais a complexidade mas a diversidade da vida, dando munição aos ambientalistas com sua crítica à visão excessivamente antropocêntrica que mantemos sobre as coisas do mundo. Ao ver a historia da vida como algo não necessariamente progressivo e muito menos previsível, como era crença entre os naturalistas evolucionistas da época de Darwin, afirmou que as criaturas da terra estão evolvidas em meio a uma série de eventos contigentes e fortuitos que as alteram significativamente. Do mesmo modo que Darwin pagou seu tributo a fé otimista no progresso ininterrupto do seu tempo, Gould, cedendo ao relativismo e ao multiculturalismo ( que desde os anos 60 tomou de assalto os campi universitários dos Estados Unidos), assegurou que a suprema excelência da vida dá-se pela variedade e diversidade dela. De certo modo ele foi o introdutor do politicamente correto nos estudos evolucionistas do seu tempo.

Um ardente polemista

Jay Gould, lembrando a impetuosidade dos ianques, gostava de desafios, de lançar-se em eruditas polêmicas, brandindo para tanto o martelo dos paleontólogos. Além dos que ele denominou de fundamentalistas darwinianos e dos racistas, os seus adversários favoritos eram os criacionistas, os teólogos cristãos que, especialmente nos estados do sul dos Estados Unidos, combatem o evolucionismo por acreditá-lo doutrina atéia. Afinal a teoria da evolução, ao dotar o Homem de um passado simiesco, equiparando-o às demais espécies existentes na Terra, desmente o Gênese. Para o paleontólogo, ao revés, o Homem é fruto da Natureza e de si mesmo, não de um sopro divino. Ou como ele disse a respeito de Darwin, endossando-o “Nada de leis supremas sobre o bem das espécies ou dos ecossistemas, nenhum regulador sábio e vigilante nos céus – apenas organismos lutando”(Zoonomia” in O Sorriso do Flamingo, Cia das Letras, p.31) e exceções. De fato, ele era um deslumbrando pela vida, Gould era mesmo ouro!

A crônica da vida

Milhões de anosEraPeríodoDescrição dos fenômenos
650ArcaicaArqueozóicaBem depois do aparecimento dos oceanos e das primeiras rochas magmáticas (4 bilhões de anos), surgem os micróbios e os metazoários, seres multicelulares, as medusas e os vermes.
600-550PaleozóicoCambrianoDá-se a explosão cambriana dos invertebrados complexos (*). Seres em forma de conchas e com carapaças, formas primárias de peixes, tribolites, esponjas, tubulares e caracóis.
500 OrdovicianoMultiplicação dos seres marinhos, cefalópodes de corpo cônico e escorpiões aquáticos. Primeiras bactérias e algas, liquens e fungos
450 SilurainoPeixes com esqueletos, tal como o Pterygotus. Amplia-se a diversidade da vida terrestre, a plantas sem raízes e sem folhas (cooksonia) e o surgimento dos aracnídeos e escorpiões
350 DevonianoOs vertebrados tornam-se anfíbios tetrápodes (dois pares de membros, estrutura óssea), multiplicam-se os insetos, além da rãs, sapos e salamandras
300 CarboníferoGrandes floresta tropicais, concentração de carvão, os répteis destacam-se dos anfíbios
250 PerminianoAumentam os predadores insetívoros. Ao redor de 250 milhões de anos ocorre o " dilúvio", com o desaparecimento de 90% das espécies assinalando o fim do Paleozóico.
200MesozóicaTriássicoMudança gigantesca da flora e da fauna. Intensa variedade de plantas, expandem-se as florestas. Aparecem os primeiros mamíferos e o reino dos dinossauros tem o seu início, prolongando-se por 140 milhões de anos
150 JurássicoPrimeiros vôos das aves (pássaro Archaeopteryx), um pássaro reptilforme. Dinossauros gigantescos e os saurópodes atingem pesos colossais
100 CetáceoDinossauros, répteis voadores e marinhos desaparecem, porém os herbívoros vivem em mandas que emigram em busca de alimentos. Ataques de tiranossauros e velociraptor, predadores de dinossauros. Os dinossauros desaparecem há 65 milhões de anos, resultado de uma extinção em massa.
50CenozóicaTerceárioAves, insetos e flores proliferam por todo os lados. Mamíferos de sangue quente, adaptam-se a vários climas e expandem-se sobre a Terra. Ocorre, a partir de 25 milhões de anos, a evolução dos primatas superiores (Aegyptopithecus, o Dryopithecus, o Autralopithecus, o e o Homem de Neanderthal)
159 mil anos QuaternárioSurge o Homo sapiens, a espécie humana começa o seu longo império sobre o planeta Terra


(*) Duas teorias sobre a explosão da vida no período Cambriano interessam ser mencionadas: a) a dos físicos Lloyd V.Berkner e Lauriston C.Marshall (em artigo publicado em 1965, Dallas) que propuseram ser a abundância de oxigênio, com níveis extremamente elevados, quem exerceu o controle físico direto sobre a explosão da vida cambriana e; b) a de Steve M. M.Stanley (Universidade de John Hopkins, 1973), com sua teoria da colheita, segundo a qual um colhedor, ao atacar as espécies abundantes, abre espaços para as outras, que se multiplicam em massa. (ver S. Jay Gould – Padrões e pontuações na história da vida, in Darwin e os grande enigmas da vida, Martins Fontes, RJ, 1992)

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