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Dewey, na busca da certeza

John Dewey (1859-1952)
Seguramente John Dewey, educador, filósofo, homem da mais ampla cultura, falecido em junho de 1952, foi o intelectual mais importante dos Estados Unidos da América no século XX – um nome realmente universal. Ao contrário de boa parte dos filósofos da sua época, especialmente dos europeus, que sentiram-se atraídos por ditadores e por regimes fortes, Dewey foi um pregador intransigente das virtudes do individualismo e dos valores da democracia, identificando o seu nome de um modo definitivo com a educação secular, de massas, que caracterizou o século.

Interessado em tudo

William James (1842-1910), forte influência sobre Dewey
"Eu acredito que educação é o método fundamental do progresso social e da reforma (...). Através da educação a sociedade formula o seu próprio propósito, podendo o organizar seus próprios meios e recursos...dirigindo-os no sentido em que ela pretende mover-se."


John Dewey – My Pedagogic Owed, 1897


O reitor da Universidade de Johns Hopkins, Daniel Gilman, temia que seu dedicado aluno John Dewey, que lá graduou-se em filosofia em 1884, não conseguisse ir além do que ser um rato de biblioteca, pois era onde o jovem passava enfurnado a maior parte das suas horas de folga, devorando livros. Pois bem ao contrário. Com o canudo em mãos, Dewey foi um incansável homem de ação, um batalhador pela educação democrática nos Estados Unidos, um homem do mundo. Tudo o interessava. Tanto o ensino levado adiante na União Soviética, país que visitara em 1928, ciceroneado por Lunacharsky, o comissário da cultura do regime, quanto pela responsabilidade do Ocidente em provocar o vício do ópio entre os chineses. Dewey, mesmo reconhecendo os méritos da educação em massa que proliferaram no século XX, nunca entusiasmou-se pelos regimes coletivistas, pelo simples motivo dele ser um campeão da individualidade.
Ele era, como gostava de dizer, um ianque, aqueles homens que, sozinhos, querem enfrentar o mundo e a natureza. Se bem no passado Platão idealizara uma educação da total subordinação dos indivíduos à polis ideal, na qual cada um ocuparia um lugar previamente estabelecido ( como governante, guardião ou trabalhador), se no Iluminismo cultivou-se a visão de um ser subordinada às coisas do mundo, entendendo a sociedade como humanidade inteira, ele, Dewey afirmava que, no contemporâneo, chegara a vez do indivíduo ver-se inteiramente libertado de obrigações daquela ordem. Nada, portanto, de educá-lo submetido aos interesses da cidade-estado, do mundo inteiro, da cosmopólis dos Iluministas, ou da voracidade do Estado-nacional, como pleiteavam os filósofos do século 19.

Pragmatismo e ação

A participação democrática (pôster de N.Rockwell)
Discípulo do filósofo Charles Peirce, e admirador de William James, defensores e difusores do pragmatismo (a mais autêntica filosofia americana), entendia que a escola democrática devia formar gente pronta para a ação, capaz de por si mesmo, pela pesquisa ou pela atuação, encontrar os caminhos para o seu lugar na sociedade. Bem ao contrário da Europa, nada na América estava dado de antemão, tudo estava ainda por fazer, porque, como assinalou “ uma filosofia americana da história tem que ser uma filosofia do futuro e não do passado”. Ela devia despreocupar-se em tentar buscar a certeza – preocupação maior da maioria das correntes filosóficas dos outros tempos- e concentrar-se no processo de conhecimento. A escola era um viveiro que devia formar pássaros livres, conscientes das suas capacitações, prontos para o que der e vier. Dewey, porém, observou que mesmo na sociedade democrática alguns colossos se constituíam - as poderosas corporações, privadas ou públicas. Tais “ gigantes coletivistas”, constituíam uma contradição ao seu ideal de soberania do indivíduo. Como alguém, de sã consciência, poderia ter qualquer esperança na importância do indivíduo quando a própria economia americana gerava sem cessar poderosíssimos trustes com o de Rockefeller que vivia às turras com a não menos importante burocracia estatal? A solução que ele apontou era pelo incentivo à multiplicação de pequenas associações livres, minúsculas células de cidadãos que brotavam, aqui e ali, na sociedade democrática, que, ao tempo em que preservavam a identidade e a subjetividade das pessoas, poderiam ser usadas como instrumentos de crítica e de civismo, enfrentando e embaraçando “ o coletivismo privado” e o “coletivismo do Estado”. Sim, Dewey foi o patriarca das ONGs.

Na seita dos libertadores

Quando alguém lhe apontava ser sua aposta no radicalismo individual pura quimera, fantasia de filósofo, ele, otimista incurável, respondia que ninguém na Idade Média poderia ter imaginado que aquele grupo insignificante de comerciantes, de negociantes e artesãos, que vivam ao redor do castelo e da igreja, poderiam algum dia a vir a impor os seus valores sobre a sociedade inteira.
Com o tempo, ao longo da sua vida ( viveu até os 92 anos, morrendo em 1º de junho de 1952), ele tornou-se uma espécie de Platão dos norte-americanos, o grande homem do pensamento que imiscuiu-se em todas as esferas do conhecimento: além da educação, sua preocupação predominante, enfiou-se na vida política, nos costumes, na ciência, em tudo o que era atraído por sua infinita curiosidade, forçando o surgimento de uma maneira bem americana de entender as coisas da vida. Afastando-se das preocupações com o abstrato inclinou-se sempre em favor da ação, do agir constante, sempre fazendo com que seus seguidores buscassem, sem esmorecimento, a verdade, treinando-os a resolver os problemas que iam surgindo pela frente. Para Dewey - membro eminente, segundo Herbert Marcuse, “da velha seita dos libertadores” - não havia progresso humano sem haver dificuldades, entendendo “a ciência como o Messias do século futuro”, com a tecnologia fazendo a função do seu cajado. A ênfase que ele sempre deu ao futuro, expressão do otimismo dos americanos, fez com seus críticos o acusassem de desconsiderar a importância do passado e da continuidade das coisas, de exagerar no seu antieuropeismo. Sua vida deu-se em dois séculos, nascido na metade do século 19, faleceu na metade do 20, sem jamais ele desligar-se do contemporâneo, das coisas práticas que ajudam a Humanidade a livrar-se das assombrações.

Obras principais de Dewey:

The Influence of Darwin on Philosophy (1910)
How We Think (1910)
Essays in Experimental Logic (1916).
Democracy and Education (1916)
Reconstruction in Philosophy (1920),
Human Nature and Conduct (1922),
Experience and Nature (1925),
The Public and its Problems (1927),
The Quest for Certainty (1929).
Art as Experience (1934),
A Common Faith (1934),
Logic: The Theory of Inquiry ( 1938)
Freedom and Culture (1939),
Theory of Valuation (1939),
Knowing and the Known (1949),

    



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