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Lord Acton e a marcha da liberdade

Lord Acton (1834-1902)
Lord Acton, o eminente historiador liberal inglês do século 19, falecido em junho de 1902, elegeu como os principais inimigos da individualidade e das minorias, o Estado e as multidões. Sua obra concentrou-se basicamente num conjunto de ensaios onde defendeu o principio de que a História deveria ser entendida na perspectiva da liberdade, dela progredir ou regredir. Celebrizou-se igualmente por sua frases, quase todas elas repudiando a concentração do poder, adversário da liberdade, tornando-o um precursor do pensamento neoliberal dos dias de hoje.

Da rejeição à consagração

“E, lembre-se, quando se tem uma concentração de poder em poucas mãos, freqüentemente homens com mentalidade de gangsters detêm o controle. A história provou isso. Todo o poder corrompe: o poder absoluto corrompe absolutamente.”

Lord Acton, em carta ao Bispo M.Creighton, 1887.


O jovem John Emerich Edward Dalberg, o futuro historiador Lord Acton, teve sua matricula rejeitada em Cambridge em 1850 por ser católico (ser da “Velha Fé”, como denominavam o catolicismo na Inglaterra daquela época, era, quase sempre, condenar-se ao ostracismo ou à marginalidade). Situação que o obrigou a uma vida diferente dos demais letrados da aristocracia inglesa , indo estudar na Bavária, terra dos seus antepassados pelo lado materno. Deve, pois, ter saboreado bem o momento quando, quase quarenta anos depois, agraciaram-lhe com um doutorado e, em seguida, deram-lhe a cadeira de História Moderna naquela mesma universidade que antes o rejeitara.
Ter sido tratado como se fosse um estranho no seu próprio meio, de sentir-se um outsider entre a elite imperial britânica, vocacionou-o para desprezar o nacionalismo, a desconfiar das autoridades estatais e a temer a presença das massas. Tanto é assim que sua tão comentada definição de liberdade, constante no seu The History of Freedom in Antiquity, como sendo o direito à certeza de estar-se protegido em relação as suas crenças, mesmo que elas desagradem as autoridades, as maiorias, os costumes e as opiniões dos outros, tornou-se até hoje um lema das minorias. Lord Acton, ao longo da sua vida, converteu-se num militante dos direitos do individualismo, sonhando algum dia poder escrever uma “História da Liberdade” voltada para denunciar a concentração do poder como o seu inimigo mortal. Ocorre que o que ele concebia como “minoria” estava bem longe do que hoje se entende por tal.

A defesa da minoria

Universidade de Cambridge, o castelo de Lord Acton
Para Lord Acton, minoria era a ínfima parcela da sociedade composta por gente sofisticada e culta, a levedura da nata, extremamente consciente da sua proeminência social e da sua exuberância intelectual e financeira, que tinha ojeriza a qualquer controle estatal sobre suas vidas, costumes ou patrimônio. Se bem que entendesse a democracia, que avançava célere no século 19, como legítima expressão do repúdio à monarquia dinástica e à tirania, temia que a maré montante da massas viesse a afogar os direitos de exclusividade de alguns poucos eleitos.
O momento pior de Lord Acton deu-se quando lamentou a derrota do Sul escravista na Guerra de Secessão de 1861-5 . Mesmo concorde de que a manutenção da escravidão era algo que feria sua visão da história – pautada pela slow evolution, a evolução vagarosa - como marcha da liberdade, ele posicionou-se a favor dos estados confederados terem todo o direito de separam-se da União. Imaginou, erroneamente, que o Sul , por si mesmo, lenta e gradualmente, encontraria um caminho para a emancipação dos seus negros, sem que fosse preciso ser “estimulado” pelos canhões do General Grandt e pela cavalaria do General Sherman. No seu raciocínio, quanto mais poder o estado centralizado e unificado acumulasse - o que dera-se com a vitória da União em 1865 - , pior seriam as condições para a expansão do individualismo. Deu-se ao revés. Nunca as liberdades nos Estados Unidos prosperaram tanto quando desde aquele momento, ampliando ainda mais os direitos individuais (as Emendas Constitucionais triplicaram: saltaram de 12 para 27).

Uma revolução permanente

A concepção de história dele centrou-se na importância das idéias e o papel revolucionário que elas tinham nos tempos modernos – foi ele quem cunhou a expressão “ revolução permanente” . Bem ao contrário da escola alemã, especialmente a hegeliana que via o estado como a única garantia da liberdade, Lord Acton pregava, para que ela fosse conquistada, a luta contra o estado e contra as maiorias. Via o pensamento alemão, em geral, atrelado a uma celebração da Idade Média, como hostil ao otimismo do Iluminismo, com sua fé infalibilidade da consciência, a metafísica da lei natural, e a confiança na mecânica newtoniana. Lord Acton, porém, apesar de alinhar-se a muitos do propósitos do Iluminismo, continuou sendo um católico. Discordava do costume, tão comum entre os historiadores, de enxergarem o passado pelas idéias do presente, assegurando, tal como Ranke, a quem ele admirava, que “cada período da história deve ser visto sobre sua própria luz natural” (History of Progress in Britain). A ênfase dele nas história das idéias é porque, dentro da tradição idealista, as acreditava responsável pelos acontecimentos, na medida em que, especialmente nos Tempos Modernos, elas encontravam maior e mais rápida difusão.

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