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O pesadelo lunar de Kepler

J. Kepler (1571-1630)
Johannes Kepler, um dos fundadores da ciência moderna, morto em 1630, além de grande matemático, um verdadeiro gênio, praticava astrologia concebendo horóscopos para os poderosos da sua época, imperadores e generais. Pratica que seria inconcebível a um homem de ciência dos nossos dias. Mas suas excentricidades também alçaram-se para os lados da ficção, ao imaginar ele uma suposta viagem à Lua, relato considerado precursor e inspirador da futura novela de aventuras siderais que se tornaram moda na segunda metade do século 19

Salvando a bruxa

"Mas assim que alguém ensinar a arte de voar, não faltarão colonos entre a nossas espécie humana [para ir a Lua ou a Júpiter]. ...Se forem dadas as naves e adaptadas as velas ao vento celeste, haverá gente que não sentirá medo de enfrentar aquela imensidão."
J. Kepler -Dissertatio,1609

Nada mais poderia ajudar a má fama de esquisitice da mãe do grande astrônomo Johannes Kepler do que o pedido que ela fizera ao coveiro da sua cidadezinha, em Württemberg, na Alemanha. Desejando dar ao filho, recém nomeado Matemático do Imperador, em 1601, um presente inesquecível, encomendou-lhe uma caveira para que, embebida em prata, o filho a colocasse sobre a sua mesa de trabalho. Não demorou para que ela, de nome Katherina, indisposta com a vizinhança e mais meio-mundo, fosse denunciada como bruxa. Abriram um processo contra ela em 1615, e o pobre Kepler, além de atormentar-se com os cálculos sobre as coisas do céu, viu-se obrigado a suspender suas investigações estrelares para defender a mãe, um incômodo que roubou-lhe quase seis anos de vida laboriosa, mas que ao menos conseguiu poupá-la da fogueira.
O curioso disso é que a velhota era dada a bruxarias mesmo, provavelmente derivando dela o gosto que Kepler manteve pelo misticismo e pela magia negra a vida toda. E foi ele mesmo quem deu as provas disso. Não para os inquisidores, felizmente, mas para a posteridade.

O sonho/pesadelo de Kepler

As crateras da Lua
Durante mais de trinta anos, ao tempo em que, seguidor de Copérnico, fixava as três grandes leis revolucionárias da astronomia moderna, ele conservou junto de si um manuscrito sobre uma imaginária viagem a Lua feita por um adolescente, ele mesmo, onde relata, na primeira parte do livro, intitulado Somnium sive opus postumum de astronomia lunari (editado somente em 1634, quatros anos depois dele morto) as estranhas atividades da mãe, uma exímia e suspeitíssima traficante de ervas malignas. Papel que no seu livro é reservado a feiticeira Fiolxhilde. Quando garoto ele havia remexido nas misturas secretas dela, naqueles pacotinhos misteriosos, sendo punido com a expulsão de casa, vendido que fora a um capitão de navio. Mais tarde, reconciliado com a mãe, ela, invocando a sua intimidade com os demônios lunares, proporcionou-lhe uma viagem sensacional, nada mais do que uma visita à Lua. Os entendidos concordam que as etapas de aclimatação do corpo para aquele passeio sideral, imaginado e descrito em todos os detalhes por Kepler, confirmaram-se em grande parte quando os astronautas começaram a galgar os espaços no século XX.
O cenário lunar de Kepler, por sua vez, não tinha nada de aprazível. Concebeu a face da Lua voltada para a Terra subdividida em dois hemisférios - a prevolvana e a subvolvana, a parte de cima e a de baixo -, um pior do que o outro. As temperaturas eram apavorantes, um clima onde um frio gélido, dava lugar a calores espantosos, ardentíssimos, da intensidade de milhares de sóis. Em vista disso, as criaturas lá viventes, as mais variadas espécies da zoologia lunar, serpentes e répteis gigantescos, só podiam sair à noite, quando então arrastavam-se, repelentes, para fora das suas fendas e cavernas em busca de repasto. O pobre Kepler projetava neste delírio, um pesadelo, todos os seus tormentos terrenos. Além daquela mãe terrível, embaraçou-se ainda mais com a pavorosa Guerra dos Trinta Anos (1618-1648), que devastou a maior parte da Alemanha.

Levitando em meio a guerra


Nem católico, nem protestante, em meio a uma trovoada religiosa que dividiu a cristandade ocidental, sentiu-se então na mesma solidão de um ser flutuando no vácuo disputado por dois campos magnéticos. Idêntica sensação que ele descreveu ter passado o jovem viajante Duracotus, personagem central do seu Somnium, quando tentava escapulir da órbita da Terra para alcançar o seu luminoso satélite. Livro seminal este de Kepler, entre a autobiografia e a ficção, porque criou um gênero, o da ficção científica – J.L. Borges o colocaria na literatura fantástica - , sendo que a sua espantosa idéia de uma viagem à Lua, ainda no século 17, deu margem a que, dois séculos e tanto depois dele, Jules Verne escrevesse o De la Terre à la Lune (Da Terra à Lua, 1865), quando a façanha é completada em 97 horas por um poderoso obus expelido de um supercanhão, e a que H.G.Wells lançasse o seu The First Men in the Moon (Os primeiros homens na Lua, 1901), confiando sua aventura aos feitos de um balão. E, de certo modo, as mesmas formas de vida que ele projetou existirem na Lua, até hoje ainda povoam os filmes que tratam dessas viagens extraordinárias para planetas e galáxias cada vez mais distantes, onde pululam figuras todas elas repulsivas, de fato, projeções de nós mesmos, da nossa inconfessa ferocidade.

    



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