Georg Simmel e a filosofia do dinheiro
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George Simmel (1858-1918)
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A sociologia alemã, ciência de grande vigor nos finais do século XIX, mobilizou-se naquela época para tentar entender as profundas e aceleradas transformações que se sucediam, a toque de caixa, na sociedade de então. Acontecimentos espetaculares ocorriam um após o outro. Em 1871, o IIº Reich Alemão fora proclamando por Bismarck, unindo finalmente os vários estados germânicos baixo um só império. Em seguida, aproveitando-se de um mercado integrado, brotaram indústrias por todo os lados, enquanto estradas-de-ferro cortavam o Reich de cima a baixo. A nação fervia de entusiasmo crente num futuro magnífico.
Entrementes, gente do campo e das aldeias, abandonando seus lugarejos aos milhares, vinham tentar a vida nas fábricas, atraídos pelos salários e pelas oportunidades de uma vida mais diversificada. A Alemanha, em curtíssimo tempo, deixara de ser um pais feudal e entrava aos trancos e aos espantos no mundo moderno. Daí entender-se a preocupação dos intelectuais em estudar o capitalismo, a bolsa de valores, a tecnologia, o status social, os tipos de lideranças, as finanças, as classes sociais e, como Georg Simmel fez: o dinheiro.
Enfrentando a metrópole
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O jornaleiro, a solidão na metrópole (tela de C,Felixmuller, 1928)
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"Simmel investiga, quando em leitura, como um perfeito dentista, com a mais delicada sonda ele penetra na cavidade das coisas.. Com a maior das deliberações ele separa o nervo da raiz, devagar ele o remove..."Emil Ludwig
Até quase o final do século XIX, o povo alemão desconhecia cidades grandes. Berlim, a capital do Reich, a maior da Alemanha, estava bem longe de ser comparada nas suas dimensões à Londres, Nova Iorque ou Paris.
Nada mais natural, por conseguinte, do que a sociologia daqueles tempos, especialmente a de Georg Simmel ( 1858-1918), preocupar-se primordialmente com as reações do indivíduo frente ao mundo urbano. Para ele, tido hoje como o principal sociólogo da avant-garde do principio do século XX, o problema primordial circunscrevia-se na questão de como era possível manter e preservar a autonomia e a existência individual face as impressionantes forças impessoais da época. Os desafios representados pela presença da coerção social, da herança histórica, da cultura externa e da crescente tecnificação da vida, produziam alterações irreversíveis na vida dos indivíduos. De que modo, pois, um interiorano, daqueles milhares que desembarcavam diariamente nas estações das cidades, conseguiria adaptar-se aos grandes conglomerados humanos que surgiam a toda hora sem ver sumir suas características mais pessoais, sua singeleza, sua afabilidade e pureza aldeã? Como evitar que o seu estupor frente ao ineditismo de tudo o que via não o paralisasse, permitindo que ele se sentisse esmagado, impotente, frente aos mecanismos ocultos da tecnologia e da impessoalidade onipresente que agiam sem esmorecimento sobre ele?
Expressionismo e antiurbanismo
O trauma da cidade grande, quase uma urbofobia, por assim dizer, tema que ele tratou no seu Die Großstädte und das Geistesleben (A Metrópole e o Espirito da Vida), de 1903 , também foi recorrente em boa parte da temática do expressionismo alemão, no qual um conjunto notável de artistas, tais como Herwarth Walden, Otto Dix, Ludwig Meidner, Ernst Ludwig e Georg Grosz, expuseram nas suas telas a sensação de solidão, abandono, indiferença, medo e pânico que uma metrópole provocava nos indivíduos. O interessante é que Simmel havia nascido exatamente no coração de Berlim (na Leipzigstrasse com a Friedrichstrasse) e, como cientista social, teve sua atenção despertada exatamente para o que ele passou a ver ao seu redor, o constante afluxo da gente do interior para tentar a vida na capital.
Segundo ele, se o século XVIII fizera o indivíduo libertar-se dos elos que o ligavam ao estado e à igreja, dando-lhe autonomia moral e econômica, o século XIX exigia agora a especialização. Esta, ao tempo em que dotava-o de uma prática e uma função, fazia-o sentir-se ainda mais solitário, sentindo-se como um minúsculo e alienado elo de uma cadeia de produção impressionante e interminável.
Tipos sociais
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Mulheres na cidade (tela de Ernst L.Kirchner, 1914)
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Aquela posição privilegiada, de poder assistir da janela do lugar em que nascera o desfilar constante de gente vinda de todos os lados, seguramente deve ter contribuído para que ele, mais tarde, em 1885, ao assumir como sociólogo o posto de Privatdozenten do Departamento de Filosofia da Universidade de Berlim, preocupar-se em construir uma galeria de tipos sociais. Desinteressado em criar um sistema psicológico ou sociológico, como tantos outros pensadores alemães fizeram até então, meio que seguindo as pegadas de Nietzsche, a quem tanto admirava, preocupou-se com fenômenos mais prosaicos, tal como “ o estrangeiro”, “ o pobre”, “o aventureiro”, “o mediano”, “o renegado”, e tantos outros mais, concebendo-os, cada um deles, com reações e expectativas próprias mas pertencentes ao todo. Percebeu cada um deles movia-se num circulo muito singular, deduzindo então que o fenômeno social mais evidente provocado pela industrialização e urbanização, foi a ampliação assombrosa dos círculos em que cada um se inseria. O que o atrai era a diversidade social da cidade e não a estandardização.