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Georg Simmel e a filosofia do dinheiro - Círculos sociais

Nos tempos feudais, na época pré-moderna como ele preferia dizer, a dilatação dos círculos em que um indivíduo vivia era mínima. Os círculos eram conexos, rijos, hierárquicos, não se ampliando além da choupana, da capela e do castelo. E, se o sujeito fosse um mestre de oficio, sua vida confinava-se aos horizontes da corporação a que pertencia, atingindo no máximo a Hansa, um conjunto de cidades comerciais associadas, da qual a sua fazia parte. Na cidade moderna a configuração era outra. O operário podia estar submetido ao olhar do patrão, mas depois que ultrapassava a porta da fábrica, ao contrário do súdito ou do servo feudal, ele cultivava outros círculos (do sindicato, do clube social ou esportivo, etc.), nos quais ele era livre para poder assumir posições de mando que bem compensavam a subordinação que exigiam dele durante o trabalho.

Possibilidades ilimitadas

Portanto, a vida moderna oferecia uma possibilidade quase ilimitada para um indivíduo ser muitas coisas ao mesmo tempo (empregado, sócio, síndico, diretor de uma entidade social, etc..), alargando assim as suas possibilidades de liberdade. Segundo Simmel “o número de diferentes círculos no qual o indivíduo se move, é um dos indicadores do desenvolvimento cultural, pois permite que ele ocupe distintas posições na interseção de vários círculos”. O “envolvimento multifacetado numa variedade de círculos contribui sem dúvida para incrementar a autoconsciência, pois conforme o indivíduo se liberta do círculo que o aprisiona, ele adquire uma consciência cada vez maior da sua liberdade” – ampliando assim o seu senso de singularidade e liberdade. Naturalmente que tudo isso cobrava um preço. A principal característica psicológica do ele definia como de Tipo Metropolitano, submetido à intensificação da estimulação nervosa, era um estado de excitação permanente, no qual somente uma sólida estrutura intelectual poderia proteger sua subjetividade das “ forças abrumadoras da vida metropolitana”. Exatamente o que faltou a Franz Biberkof, o personagem de Alfred Döblin do seu clássico romance expressionista “Berlin, Alexanderplatz”, de 1930, um pobre diabo, um ex-correcional que se vê envolvido em incontáveis peripécias em sua desastrada tentativa de reintegrar-se até que se vê engolfado pela maré nacional-socialista.

A filosofia do dinheiro

Bem ao contrário da tradição intelectual, que sempre uniu tanto teólogos como pensadores socialistas em seu repudio total ao dinheiro, Simmel lançou um outro olhar sobre a importância dele. Pontualmente, no iniciar do século XX , em 1900, tido como o Século do Dinheiro, ele publicou o seu "Philosophie des Geldes", a Filosofia do Dinheiro, ensaio no qual, além de apresentar uma outra visão, não pecaminosa, da função do dinheiro, chamou a atenção para as conseqüências da impessoalidade na sociedade moderna e seus efeitos sobre os indivíduos. O enfoque de Simmel evitou a habitual demonização do dinheiro feita pelos sacerdotes, pelos poetas e intelectuais em geral, como uma cunhagem satânica, fabricada nos porões da maldade, com a tarefa de vir corromper, degradar e aviltar o ser humano. Simmel entendeu a sua difusão e ampla aceitação na moderna sociedade como resultado lógico de uma época onde os laços históricos tradicionais haviam sido rompido ou perdidos. Os que, anteriormente, prendiam o vassalo ao suserano, o servo ao seu senhor, o mestre à guilda, o artesão ao grêmio local, o filho e a mulher ao pai e este, por sua vez, ao avô na família patriarcal, todas as relações estabelecidas pelos vínculos de fidelidade e compromisso que caracterizavam os hábitos e costumes na vida pré-moderna.

Dinheiro e impessoalidade

Potsdamer Platz, centro dinâmico de Berlim na época de Simmel
Para Simmel a monetarização da vida moderna foi a decorrência natural da necessidade da substituição dos vínculos de sangue e de parentesco por algo impessoal, inodoro, prático e universal como o dinheiro. Entre outras razões porque na sociedade moderna declinara a dominação tradicional que fazia com que, como na idade medieval, um senhor dispusesse a seu bel prazer de um outro, seu servo ou criado doméstico. Se bem que a dominação não desaparecesse de todo, ela limitava-se agora à certas funções específicas e por um certo tempo e num lugar particular. Era impossível imaginar-se o funcionamento do capitalismo urbano de hoje estribado em valores, códigos e liturgias associadas aos idos pré-modernos, época em que um fio de barba ou do bigode era a garantia da palavra dada. O dinheiro tornou-se a mais eficaz expressão da impessoalidade, a mais adequada de todas para estabelecer um convívio harmônico e um relacionamento social que envolvia não uma centena ou um milhar de pessoas, mas sim de milhões delas.
O sonante era bem mais do que um padrão de valor ou meio de troca, pois “simboliza e corporifica o espirito da racionalidade, da calculabilidade e da impessoalidade”, servindo, igualmente, como “um medidor das diferenças qualitativas entre as coisas e as pessoas”. É ele, o dinheiro, por fim, quem pavimenta o caminho entre a velha Gemeinschaft , a comunidade, e a Gesellschaft, a sociedade, fazendo com que cálculos abstratos invadam a vida social, libertando os indivíduos das amarras que antes o prendiam ao estado, a igreja, a aldeia, ao grêmio e à família. Simmel, portanto, mostrou-o, o dinheiro, resultante da interação crescente da economia de mercado e não como o “vil metal” tão difamado ao longo da história. Para ele dinheiro era liberdade!

“Meu legado será que nem uma caixa, a qual será distribuída entre muitos herdeiros, cada um deles transformará em algo lucrativo conforme a sua natureza: este lucro, por sua vez, não demorará muito em revelar ser derivado do meu legado”.
Georg Simmel (1918)

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