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Maugham, os conselhos de um escritor - Leituras e observações
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Voltaire era o favorito de Maugham
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Se bem que Maugham tenha dito que bastava-lhe passar umas horas na presença de alguém, na companhia de uma pessoa de razoável interesse, para que ele conseguisse extrair material suficiente para escrever uma boa história, ele tratou desde cedo de tratar das questões do estilo e da técnica da prosa. Maugham, paradoxalmente, considerou a tão afamada Bíblia do Rei James, que fixou a estrutura do idioma inglês para todo o sempre, exerceu uma influência negativa para os escritores ingleses. A razão que ele aponta é um tanto exótica: para ele a Bíblia “ é um livro oriental” ( sic), acrescentando que “ aquelas hipérboles, aquelas metáforas sumarentas são estranhas ao nosso gênio”. Tudo isso teria contribuído para que a chã e honesta fala inglesa fosse “ sobrecarregada de ornamentos”. Viu-se, pois como alguém que procurou restaurar um inglês escrito como se fora “um telegrama imensamente longo”, desprovido de metáforas bíblicas e da moral daí decorrente. Por isso, ou talvez por isso mesmo, pelo seu propositado afastamento da escrita com fins morais, seus críticos o apontaram como um cínico incorrigível. Foi veemente também na condenação, fosse ela resultado da negligência ou do capricho, da prosa obscura, aquela que, pretendo-se profunda, só confunde e embaraça, com sua nebulosidade estudada, o leitor desavisado. Para ele, na maioria dos casos, como ocorria com os seguidores do simbolista Guillaume Apollinaire, tais “contorções de linguagem disfarçam verdadeiros lugares-comuns”, fazendo com que somente “ os tolos descobrissem nelas um sentido oculto”. Assim, nada de estranhar-se ele considerar Voltaire, de longe, o melhor prosador da idade moderna, sendo que para ele das suas páginas as histórias fluíam com a maior naturalidade. No dizer dele “se puderdes escrever claramente, simplesmente, eufonicamente, e ainda com vivacidade, escrevereis perfeitamente: escrevereis como Voltaire”. Entre os prosadores ingleses a sua admiração centrou-se em Thomas More, em Swift, em Dryden, em Hume, em Shelley, no dr. Johnson, devotando reiterados agradecimentos ao Dictionary of Modern English Usage de Henry Fowler que, segunde ele, “amava a simplicidade, a retidão e o bom-senso”, não aconselhando que os escritores se deixassem tiranizar pelas difíceis regras da gramática inglesa. Ao contrário, o bom prosador era um infrator nato, alguém que podia se permitir, volta e meia, a certas liberdades desde que elas dessem maior fluidez e harmoniosa continuidade ao texto escrito, atingindo a tão por ele apreciada eufonia.
O escritor comercial
Quanto aos que o criticavam por ser um escritor de sucesso, um autor de livros bem digeridos pelo mercado, Maugham reclama por tolerância. Para ele nenhum escritor sério escreve por dinheiro. Se bem que a pressão seja grande, o que realmente o move é a paixão por escrever, é a paixão pelo trabalho, a dedicação integral ao seu métier, porque em geral, o que ele recebe em troca de um livro poderia ser alcançado fazendo qualquer outra coisa. É claro que qualquer um gosta de ser lido pelo maior número de pessoas possíveis e nenhum autor aceita considerar que o seu livro não foi bem escrito ou tinha pouca coisa capaz de agradar, preferindo acreditar na ingratidão ou na ignorância do público. Dito isso, as concessões que muitas vezes um homem de letras é constrangido a fazer não significa adesão ao mercantilismo da arte. Se é um fato que muitos autores precisam ser pressionados à escrever, “precisam de espora”, não o fazem, porém, por dinheiro. Maugham se felicitava em ser alguém que tinha a seu favor as potencialidades do mercado da língua inglesa. Graças a isso, ao dispor de um dos maiores públicos leitores do mundo, ele se tornara um homem de letras profissional, consagrando-se totalmente à escrita pela vida a fora. Somente autores de países pequenos e de idiomas poucos conhecidos, ponderou ele, é que precisavam manter uma segunda profissão, tendo que despender energias em ganhar o pão longe das amadas letras. Os que tinham o inglês como ferramenta, se bem sucedidos, estavam livres disto. Tais reclamos por indulgência, entretanto, não o livraram de que os críticos o considerassem brutal (quando ele tinha vinte anos), irreverente (ao atingir os trinta), cínico (aos quarenta), ou superficial (depois dos cinqüenta). Apesar dele mesmo considerar-se um preguiçoso, deixou copiosa obra. Ocorre que ele, disciplinado, comprometeu-se por toda a vida, logo ao levantar-se pela manhã, só dedicar-se a outras coisas do dia desde que antes escrevesse religiosamente uma só página sobre um tema qualquer. Que, segundo ele, nunca lhe faltaram. No final do ano ele sempre tinha uma maço de mais de trezentas folhas prontas para o prelo. Material suficiente para um, dois ou três livros.
Obra seleta de Somerset Maugham
LIZA OF LAMBETH (O pecado de Lisa), 1897 MRS. CRADDOCK (Mrs. Craddock), 1902 A MAN OF HONOUR (Um homem de honra), 1903 THE MAGICIAN (O mágico), 1908 PENELOPE, 1909 LADY FREDERICK. 1912 JACK STRAW, 1912 MRS DOT, 1912 OF HUMAN BONDAGE (Servidão humana), 1915 THE MOON AND SIXPENCE ( Um gosto e seis vinténs), 1919 THE CIRCLE, 1921 SADIE THOMPSON (A chuva), 1921 THE TREMBLING OF A LEAF (Histórias dos mares do sul), 1921 EAST OF SUEZ, 1922 ON CHINESE SCREEN(O biombo chinês), 1922 OUR BETTERS, 1923 THE PAINTED VEIL (O véu pintado) , 1925 THE CONSTANT WIFE, 1925 THE CASUARINA TREE (A casuarina), 1926 THE LETTER (A carta), 1927 THE SACRED FLAME, 1928 ASHENDEN (O agente britânico), 1928 THE BREADWINNER, 1930 CACES AND ALE, 1930 FIRST PERSON SINGULAR, 1931 COLLECTED PLAYS (Seis novelas), 1931-34 THE NARROW CORNER, 1932 FOR SERVICES RENTED, 1932 COLLECTED PLAYS, 1933 SHEPPEY, 1933 AH KING ( Ah King), 1933 COSMOPOLITANS, 1936 THE THEATRE, 1937 THE SUMMING UP (Confissões), 1938 CHRISTMAS HOLIDAY(Férias de natal), 1939 THE MIXTURE AS BEFORE, 1940 UP AT THE VILLA, 1941 STRICTLY PERSONAL, 1941 THE HOUR BEFORE THE DAWN, 1942 THE RAZOR'S EDGE (O fio da navalha), 1944 THEN AND NOW (Maquiavel e a dama), 1946 CREATURES OF CIRCUMSTANCES, 1947 CATALINA (Catalina), 1948 A WRITER'S NOTEBOOK (Diário de um escritor), 1949 THE COMPLETE SHORT STORIES (29 histórias), 1951 THE VAGRANT MOOD, 1952 SELECTED NOVELS, 1953 TEN NOVELS AND THEIR AUTHORS, 1954 FAR AND WIDE, 1955 BEST SHORT STORIES, 1957 POINTS OF VIEW, 1958 LOOKING BACK, 1962 SELECTED PREFACES AND INTRODUCTIONS, 1963 SEVENTEEN LOST STORIES, 1969 SEVENTEEN LOST STORIES, 1969 A TRAVELLER IN ROMANCE, 1984
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