Duas faces do mercado - A semente do totalitarismo
Hayek viu tudo ao contrário. Para ele, contemporâneo das engenharias burocráticas do nazismo e do comunismo russo, eficientes opressoras dos indivíduos tornados peões dos macro-planejamentos econômicos, só via a solução em promover ainda mais o mercado. Mesmo o mais róseo dos programas socialistas, assegurou, era portador de sementes totalitárias. Planejar, para ele, era sufocar, era inibir, era constranger, era amestrar. Mesmo o pacífico Welfare State, o Estado de Bem-estar Social, bandeira dos trabalhistas ingleses do após-guerra, parecia-lhe uma temeridade, um risco permanente às liberdades maiores ( o que era um tanto irônico, pois a London School of Economics da qual ele participava, fora fundada pelo casal Webb, uma dupla de socialistas fabianos). Entretanto não era só ela, a liberdade, quem se via ameaçada com a subordinação dos cidadãos aos quesitos do superburocrata. O clima criado pelo controle econômico pareceu-lhe tão nocivo quanto à submissão às regulamentações. Era a inventiva humana quem se via ameaçada, tolhida, bloqueada, senão castrada, pelas ingerências do Estado Interventor. Destaque-se a coragem moral dos dois. Polanyi execrou o mercado vivendo num país, os Estados Unidos, em que ele era quase uma divindade. Hayek celebrou-o exatamente no momento em que a Grã-Bretanha, com a vitória de Attle e dos trabalhistas em 1945, se encaminhava para uma longa experiência de estatizações e programas sociais distributivistas. Hayek, Prêmio Nobel em 1974, foi visto como profeta depois da débâcle soviética e da crise do Estado de Bem-estar Social europeu. Polanyi, por sua vez, volta a ser lembrado agora, com os impasses, limitações e decepções causadas pelas atuais políticas liberais. Mais de meio século depois e os dois vienenses continuam em trincheiras opostas.
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