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O Renascimento e os novos mundos - O mapa de Toscanelli

Paolo Toscanelli (1397-1482)
Uma das edições do livro chegou às mãos de Paolo dal Pozzo Toscanelli, astrônomo e geógrafo, nomeado astrólogo judicial pela Signoria, o governo de Florença. Consta que teria sido dele a idéia de assinalar numa carta, portulano ou mapa, as possibilidades de se chegar-se à China não pelos caminhos terrestres convencionais, percorridos anteriormente por Polo, mas sim dirigindo-se ao Ocidente, enfrentando o Oceano Atlântico, ou o Mar Oceano como então era chamado. Esta especulação de Toscanelli teria chegado ao conhecimento de Cristóforo Colombo(*). Nela a largura do Atlântico estava escandalosamente subestimada, mas a possibilidade de tal viagem ser realizada nunca mais abandonou Colombo.
(*) Umas fontes apontam que Toscanelli, um ex-professor de Pádua, foi em algum momento mestre de Colombo. Outras apenas indicam que o geógrafo sabendo da curiosidade do navegador, fez chegar as suas mãos a carta onde assinalava a hipótese de atingir-se a Ásia navegando pelo Ocidente.

O Ulisses de Dante

Dante revisando a Comédia
“Noi oi allegramo e tosto tornó in pianto: chi de la nova terra um turbo nacque, e percose del legno il primo canto.
Ulisses e Dante (inferno, canto XXVI)

É difícil saber se Dante Alighieri chegou a tomar conhecimento das narrativas de Marco Polo. Há indícios de que aquele fantástico livro de viagens tenha começado a circular em latim por volta de 1312-1316, mais ou menos à época em que Dante deu início a primeira parte da “comédia”. Seja como for, ali também encontra-se um conciso registro de uma possível viagem feita por Ulisses para além das colunas de Hércules ( canto XXVI do “Inferno”).
Dante na companhia de Virgílio, seu cicerone na grande aventura pelo outro mundo, depara-se num lugar qualquer do Inferno com algumas almas completamente envolta em chamas eternas, que jamais esmaecem. Uma delas era a de Ulisses, o herói grego, que ali estava punido por ter enganado os troianos com o falso presente do cavalo de madeira que desgraço a cidade. Envolto pela fumaça, aquela alma danada confessou ao poeta que nem o amor que sentia por sua mulher, a fiel Penélope, nem a piedade que lhe despertava o pai ancião, foram capazes de fazer com que ele resolvesse ficar na ilha de Ítaca, o seu reino, evitando que ele voltasse ao mar para novas aventuras. Não puderam, ninguém da sua família, disse ele, “vencer em mim ânsia que sentia de conhecer bem o mundo, os vícios e os valores humanos pelo que lancei-me em amplo mar aberto. Só, num barco com poucos companheiros que não me abandonaram nunca”.

O desastre de Ulisses

Ulisses em chamas no Inferno de Dante
Em seguida, Ulisses narrou a Dante como, logo após contornar a costa da Espanha e do Marrocos, enfrentou o mar aberto seguindo sempre o destino do Sol. Depois de viajar pelo tempo de cinco luas terem aparecido e se apagado, ele e seus companheiros depararam-se com um monte escuro encravado numa grande ilha que viram no horizonte. O mais alto dos montes que jamais tinham visto. Desgraçadamente, ao se aproximarem dele, foram envolvidos por violentas ondas e naufragaram ao chegarem na nova terra. Agora ele ali estavam naquele Inferno, condenado a ser apenas um espectro abrasado.
A história de que o bravo Ulisses teria feito mais uma viagem, a derradeira, depois do seu regresso à Ítaca, circulava como uma lenda na Idade Média. A versificação daquele suposto feito pelo grande nome da língua italiana que era Dante, porém, deu-lhe um foro de verdade. Foi a primeira vez na literatura ocidental que encontrou-se uma descrição, ainda que imaginária, de uma vigem feita a um “novo mundo”.
Desta forma os elementos reais ou imaginários que darão impulso as grandes navegações dos século XV e XVI, de Colombo e de Caboto, estavam por assim dizer sedimentando-se na mente da maioria dos marinheiros italianos.
(*) o atual estreito de Gibraltar

Da vida contemplativa à vida ativa

O condottiere Farinata degli Uberti, exemplo da vida ativa admirada na Renascença
Até a época do Renascimento era lugar comum de preferir- se a vida contemplativa à vida ativa: o bios teorétikos ao bios pratikos, tão discutido bem antes por Aristóteles. Quase todos os grandes pensadores, fossem gregos ou cristãos, enalteciam a vida ociosa e manifestavam seu desconforto para com as coisas práticas, úteis e mecânicas, que envolviam a vida cotidiana. Em larga medida concordavam com aquela passagem de Aristóteles que diz: “Parece, pois, que a sabedoria traz consigo prazeres maravilhosos, tanto por sua pureza como por sua solidez, é e evidente que a vida, para aqueles que sabem, resulta mais agradável do que aqueles que ainda buscam o saber” (*).
Ora, para atingir a tal dimensão de sabedoria era necessário o autoconfinamento. Uma existência dedicada integralmente à contemplação, explorando as capacidades meditativas de cada um, enfurnando-se em meio aos livros, cegado pela escassez de luz. Desta forma, tanto os antigos filósofos como os grandes teólogos da igreja, como S. Agostinho e S. Tomas de Aquino, identificam-se e uniram-se no elogio e na celebração daquele tipo de vida.
Evidentemente que essa inclinação, essa paixão pelo isolamento das coisas do mundo, igualmente denunciava um preconceito social, fruto de um arraigado aristocratismo. Naquela época o homem ativo, que não parava de trabalhar, era muitas vezes um escravo ou um servo, um camponês que empregava as mãos na lavoura. Ou ainda um artesão ou um comerciante que exercia uma profissão considerada vil pelos homens cultos. O ser contemplativo, ao contrário, era um membro do patriciado, um intelectual ou um membro do clero dedicado às lides humanistas, um tipo que jamais sujava as mãos e que podia dedicar-se ao auto-aperfeiçoamento numa academia de filosofia, num liceu ou num mosteiro, concentrado nos exercícios espirituais. Foi isso que levou S. Gregório a afirmar que “ a vida ativa é servidão, a contemplativa, liberdade” e de que “existem homens de alma tão tranqüila, que se lhes fora preciso trabalhar, sucumbiriam ao começo mesmo do trabalho”.
Testemunho das desavenças, ainda que muito educadas, entre os partidários da vida contemplativa e os que enalteciam a excelência da vida ativa, encontra-se a obra humanista Cristóforo Landino, intitulada “ Disputationes Camaldunenses”, datada de 1474, onde reproduz uma série de encontros entre intelectuais florentinos que debatiam os problemas daqueles tempos. Numa dessas tertúlias estavam presentes Pedro e Lourenço de Médici, os patrícios mais poderosos e influentes da cidade; o filósofo, Marcilio Ficino, tradutor de Platão; e o arquiteto e humanista Leone Battista Alberdi. Alberdi, que também descendia de família patrícia, defendia que a solidão e a meditação eram os únicos caminhos conhecidos para chegar-se à verdade superior, racional, intelectual...eram as exclusivas garantias da posse completa das faculdades mentais. Já Lourenço, afinal filho de um ativíssimo banqueiro que tinha filiais espalhadas pelas principais cidades européias, contrapunha-se dizendo que a verdade obtida no claustro de nada servia. O filósofo, seguiu ele na argumentação, deve imiscuir-se entre as gentes para difundir seus talentos afim de ajudar seus semelhantes. “O homem que possuía talentos e bondade” disse ele “deve submeter-se regularmente a duas disciplinas : a teórica e a prática”.

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