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História - Brasil
BRASIL

Os valerosos pernambucanos

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Uma singular coligação de acontecimentos históricos, políticos , culturais e geográficos, ativa desde sua fundação nos começos do século XVI, fez com que o estado do Pernambuco se destacasse no cenário literário e intelectual do Brasil, formando uma pujante plêiade de homens de letras e de idéias. O épico do levante contra os holandeses, a existência de uma das primeiras faculdades de Direito do país e a proximidade do Recife, a capital do estado, com a Europa, projetou para sempre o nome daqueles que podemos dizer formaram o luminoso Areópago Pernambucano.

A Guerra da Restauração

João Fernandes Vieira ou o Valeroso Lucideno

Vencedores dos flamengos, que tinham vencido os espanhóis, por algum tempo senhores de Portugal, os combatentes de Pernambuco sentiam-se um povo, e um povo de heróis(...) Passado o primeiro momento de entusiasmo, os reinóis quiseram reassumir a sua atitude de superioridade e proteção. Data daí a irreparável e irreprimível separação entre pernambucanos e portugueses.

Caspistrano de Abreu.

Não há pernambucano, há séculos, que não se ressinta com o Padre Antônio Vieira. Nada lhes reverte a opinião saber que o celebrado sermonista era um colosso da oratória e das letras portuguesas. Ignorando o enorme esforço e a bravura dos nativistas pernambucanos, recomendou o famoso padre, conselheiro do rei português, na sua tristemente famosa Proposta a D.João IV, de 1646, dito "Papel Forte", que Portugal comprasse Pernambuco de volta ou que negociasse a sua entrega definitiva aos holandeses.

Vieira não apostava um níquel sequer nas possibilidades da população local, em armas, combatendo e morrendo, insurgida desde 1645 por João Fernandes Vieira, pudesse vir a bater a poderosa Companhia Holandesa das Índias Ocidentais, ocupante e dona do emirado açucareiro que era o nordeste naquela ocasião. Chamaram-no de "O Judas do Brasil".

Azedaram-se para sempre as relaçães entre pernambucanos e portugueses e também com os baianos, acusados de não se empenharem no auxilio aos seus irmãos na luta que travavam contra o formidável inimigo (aliás , o governador geral Câmara Coutinho, em se tratando de brasileiros, só confiava mesmo nos baianos, os únicos "verdadeiros vassalos" que Sua Majestade possuía em toda a América portuguesa. " Os demais", acrescentou, " são por força e não de coração").

A Guerra da Restauração (1645-1654),concluída com a expulsão definitiva dos holandeses, foi um épico do nordeste brasileiro escrito exclusivamente pelo povo local, sem que a metrópole lhes prestasse qualquer amparo (coube ao frei Manoel Calado deixar seu testemunho daqueles feitos no 'Valeroso Lucideno', escrito em prosa e verso para homenager a Fernandes Vieira, entre 1645-46).

Desacertos crônicos com o poder central

Uma nativa de Pernambuco (Thomas Eckhoud)
"Mazombos" foram então apelidados os pernambucanos pelos reinóis. Gente mal-humorada, caturra, que parecia estar sempre inconformada. E não era para menos. Libertaram-se sozinhos do jugo batavo mas tiveram que aceitar de volta os burocratas da corte de Lisboa, bestalhães de nariz em pé que os tratavam com desprezo. A inconformidade deles com o retorno da canga vai ser a fonte de inquietação permanente da capitania e depois da província.



Em 1710 a fidalguia de Olinda, numa briga do engenho contra a loja, revoltou-se contra o governador Castro Caldas; em 1817, foram os liberais chefiados pelo padre Melo Montenegro e pelo padre Miguelinho, quem se rebelaram contra D.João VI, acusando-o de expropriar as províncias do norte para manter o fausto da corte lusitana instalada no Rio de Janeiro; em 1824 foi a vez dos republicanos da Confederação do Equador de Frei Caneca afrontarem-lhe o filho D. Pedro I por ter fechado a constituinte e impor um regime centralista. Até a favor do imperador caído, levantaram-se os pernambucanos do sertão durante a Guerra dos Cabanos de 1832-1835 (chamada de 'abrilada' pela historiografia local).



Coube ainda aos confusamente socialistas lhe desaforarem o neto, D. Pedro II, durante a Revolução Praieira de 1848, desejosa de nacionalizar o comércio a retalho. Isto tudo contra os Bragança, porque na república, chefiados pelo 'tenente' Juarez Távora engajaram-se por primeiro na revolução de 1930 contra a continuidade da hegemonia paulista sobre a República, e em seguida, desta feita alçados pelos comunistas em nome da Aliança Nacional Libertadora, comandados pelo oficial Silo Meireles e pelo sargento Gregório Bezerra, insurgidos na Vila Militar do Socorro, decidiram enfrentar até o todo-poderoso Getulio Vargas no desastrado Levante de 1935.



Portanto, seja qual for a inclinação ideológica do pernambucano, antes de tudo ele é uma temeridade. Nenhum outro estado brasileiro tem tal acervo de valentia e de levar aos extremos seus embates políticos (o historiador Evaldo Cabral de Mello disse só encontrar tal equivalência no Brasil entre os gaúchos). Não sem motivo o único brasileiro que foi lutar ao lado de Simon Bolívar foi Abreu Lima, um pernambucano, que voltou general da independência e por isso pagou com o ostracismo. Ainda assim Silvio Romero, o famoso crítico, conservador, viu neles apenas uma inclinação pelo 'assanhamento desordeiro'.



Assim, além do Estado de Pernambuco possuir uma notável crônica de insurgência e rebeldias mil, ele se caracterizou por lá aflorar uma intelectualidade de altíssimo nível. Talvez a mais qualificada do pais fora do eixo Rio-São Paulo. Intelectuais cujos nomes conseguiram se impor ao restante do país pela excepcional qualidade da sua prosa e pelo rigor e seriedade das suas obras.

Silvio Romero (1851-1914) - Um dos mais expressivos representantes da Escola de Recife,intelectual, político e amante da literatura, um dos maiores nomes da cultura brasileira do século XIX.



Em 1880 fez concurso para a cadeira de Filosofia do Colégio Imperial Pedro II, tendo defendido, nessa oportunidade, a tese intitulada Da interpretação filosófica na evolução dos fatos históricos, sendo aprovado e nomeado professor. Em 1882 o nosso autor publicou a Introdução à história da literatura brasileira. É do ano seguinte o seu segundo livro de poesias intitulado: Últimos arpejos. Em 1884 publicou Estudos de literatura contemporânea. A sua primeira esposa faleceu em 1885. Em 1887 publicou livro crítico intitulado Uma esperteza, em que polemizava com o estudioso e escritor português Teófilo Braga.


No ano seguinte, o nosso autor publicou a sua mais importante obra, a História da literatura brasileira. Em 1889, ano da morte de Tobias Barreto e de instauração da República no Brasil, o nosso autor ensaiou a atividade política, tendo publicado um Manifesto aos eleitores da Província de Sergipe, bem como uma Mensagem dos homens de letras do Rio de Janeiro ao Governo Provisório. Em 1890 o nosso autor organizou o Partido Nacional, tendo-se apresentado como candidato a senador por essa agremiação política.

Obras: Introdução à história da literatura brasileira, 1882; Estudos de literatura contemporânea, 1885; Estudos sobre a poesia popular do Brasil, 1888; Etnografia brasileira, 1888; História da literatura brasileira (2 volumes), 1888; Machado de Assis, 1897; Novos estudos de literatura contemporânea, 1898; Compêndio de história da literatura brasileira (em colaboração com João Ribeiro), 1906 .

Joaquim Nabuco (1849-1910) - Ainda que pertencente ao patriciado com firmes interesses nos negócios açucareiros, se opôs de maneira veemente à escravidão, contra a qual lutou tanto por meio de suas atividades políticas quanto por seus escritos. Fez campanha contra a escravidão na Câmara dos Deputados em 1878 e fundou a Sociedade Antiescravidão Brasileira, sendo responsável intelectual e ideológico, em grande parte, pela Abolição em 1888.

Após a derrubada da monarquia brasileira retirou-se da vida pública por algum tempo.

Mais tarde serviu como embaixador nos Estados Unidos da América (1905-1910). Passou muitos anos tanto na Inglaterra quanto na França, onde foi um forte proponente do pan-americanismo, presidindo a conferência de Pan-Americanos de 1906.


Obras: Camães e os Lusíadas (1872); O Abolicionismo (1883); O erro do Imperador, história (1886); Porque continuo a ser monarquista (1890); Balmaceda, biografia (1895); A intervenção estrangeira durante a revolta, história diplomática (1896); Um estadista do Império, biografia, 3 tomos (1897-1899); Minha formação, memórias (1900); Escritos e discursos literários (1901);

Oliveira Lima (1867-1928) - Historiador e ensaísta de renome. Como diplomata e intelectual, temia que a herança cultural européia do Brasil se visse diminuída, caso o País seguisse a política externa dos Estados Unidos, ao invés de manter-se mais ligado à Europa - lugar de origem de suas tradiçães culturais e políticas. Defendendo uma política baseada em um contexto de bipolaridade, portanto, e avesso a qualquer tentativa de supremacia, Oliveira Lima - começando a contrariar os dogmas da política externa brasileira, válidos há muito tempo - criticava inclusive a Doutrina de Monroe, transformada em instrumento de expansão política e econômica de Washington. Através dessa Doutrina, que pregava o pan-americanismo, os Estados Unidos - na época governado por Theodore Roosevelt -, desejavam impor a sua liderança no continente sul-americano.


No tocante à modernização da diplomacia brasileira, Oliveira Lima declarava: "O imperialismo contemporâneo assenta sobre o negócio. A pujante democracia norte-americana nasceu do conúbio da liberdade com o interesse: os frutos da frondosa árvore são os pomos de ouro da antiga fábula. O dever primordial dos nossos governantes é tratar de colocar e tornar assim remuneradora a produção nacional, pois que sem fortuna não há vigor e sem vigor, não se pode infundir respeito".
Neste sentido, o pensamento do historiador-diplomata acerca da condução dos negócios externos do Brasil - defendendo sempre a dignidade do seu País de origem - não coincidia com os objetivos prioritários do Barão de Rio Branco, tampouco lhe agradava.



Obras: Dom João VI" (1909) e O movimento da Independência(1922). Memórias (obra póstuma)

Gilberto Freyre (1900-1987) - Em vez de olhar para os heróis do passado, o antropólogo Gilberto Freyre (1900-1987) enxergou e tentou entender o tabuleiro da baiana, a cadeira de balanço, os jogos de mesa. Grande parte de sua obra foi dedicada a buscar nossa essência, principalmente no famoso livro Casa-Grande & Senzala (Global), inspirado em uma viagem que fez pela Bahia, por Portugal e pela África. Foi com um olho no povo desses lugares e o outro nos índios brasileiros que ele procurou as origens de nossa culinária, arquitetura, do nosso cotidiano. Ao constatar a erudição leve e fluida com que o autor conta tudo isso, é engraçado pensar que ele demorou para aprender a escrever: quando pequeno, só sabia desenhar, o que fez com que parte de sua família achasse que tinha deficiência mental. Abordagem que fez com que ele fosse considerado um precursor da 'história das mentalidades' , corrente da moderna historiografia francesa da Escola dos Anais.



Obras: Casa Grande & Senzala; Sobrados & Mocambos; Ordem & Progresso; Nordeste; Açúcar; Um engenheiro francês no Brasil.

Josué de Castro (1908-1973) - Na realidade, sob essa aparente indiferença [em relação a fome] , havia algo mais do que simples imprevidência e egoísmo. Havia dois sentimentos mais profundos. O primeiro, oriundo da convicção milenar de que os males provocados por flagelos naturais são inevitáveis; o segundo, da idéia de que a própria organização das sociedades comporta desigualdades entre os homens e que estas, por sua vez, são inevitáveis. Para que pensar então no irremediável?


Essas duas idéias, essas duas atitudes já se tornaram, porém, insustentáveis. Um flagelo só é inevitável quando permanece em mistério. Os males provenientes da falta de alimentos continuam a ser um problema, mas já não são um mistério. Foi este o resultado de cento e cinquenta anos de trabalho científico. Já hoje sabemos em que consistem as necessidades em alimentos. Já hoje sabemos o que é alimentação.
"Denunciei a fome como flagelo fabricado pelos homens, contra outros homens" "Metade da população brasileira não dorme porque tem fome; a outra metade não dorme porque tem medo de quem está com fome"



Obras: Geografia da Fome (1946); Geopolítica da Fome; Homens e Caranguejos; O Livro Negro da Fome

Barbosa Lima sobrinho (1897-2000) - Ainda que radicado no Rio de Janeiro , ele jamais desembaraçou-se do seu Pernambuco natal, deixando diversos ensaios sobre o estado. Foi um dos campeães do nacionalismo brasileiro, lutando sempre pela emancipação econômica do país. Um dos intelectuais mais respeitados do Brasil.



Obras: Pernambuco e o Rio São Francisco (1929); A verdade sobre a Revolução de Outubro (1934); A Revolução Praieira (1949); Sistemas eleitorais e partidos políticos. Estudos constitucionais (1956); A auto-determinação e a não-intervenção (1963); Desde quando somos nacionalistas (1963); Presença de Alberto Torres (1968); Japão: o capital se faz em casa (1973); Pernambuco: da Independência à Confederação do Equador (1979);

Evaldo Cabral de Mello (1936 ...) - Historiador e ensaista, autor de livros já clássicos sobre a dominação holandesa no Brasil, ganhou também o status de estrela. Irônico, dono de idéias originais sobre o Brasil e os brasileiros, Evaldo Cabral de Mello diz que só existe um povo tão piegas quanto o brasileiro: o português. Nesta entrevista gravada para a Globonews - a primeira que concedeu à TV - Evaldo Cabral de Mello faz um alerta: o subdesenvolvimento pode não ser uma condição passageira. O autor reclama também de uma obsessão brasileira: a busca por uma identidade nacional". Somente países inseguros, diz ele, se preocupam com esta questão.

Evaldo foi diplomata e é este o motivo que aponta como determinante para que resolvesse dedicar-se ao estudo do Nordeste dos séculos XVII e XVIII, não só pelo fato da profissão ter-lhe proporcionado acesso aos documentos no exterior, mas também pela necessidade de encontrar uma forma de manter-se ligado às suas origens, mesmo com as inúmeras viagens. Outra informação relevante sobre Cabral de Mello é o fato dele não estar ligado à academia, o que acaba conferindo-lhe uma liberdade incomum nas produçães contemporâneas. E Evaldo ainda inova de outras maneiras, considerando-se um historiador regional, cria uma possibilidade de contextualização da história do Nordeste na história mundial que não é corrente nos historiadores do Brasil.

Obras: "Olinda Restaurada" "Rubro Veio" A Fronda dos Mazombos" Frei do Amor Divino Caneca; A Ferida de Narciso;

    
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