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Nicolas-Antoine Taunay sob o sol do Brasil (Parte II)

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Embarcando para a aventura

Todavia, para L.M.Schwartz, o pintor Jean-Baptiste Debret, primo de David, o mais sonoro dos nomes da expedição artística, que no seu famoso ensaio Voyage pittoresque et historique au Brésil (publicado na França entre 1834-1839) apresentou a versão deles terem sido convidados pelo Conde da Barca e pelo embaixador português em Paris, não corresponde à verdade (ver “O Sol do Brasil”, pág.177).


Os artistas é que iniciaram contato com os representantes de D. João devido o clima político crescentemente hostil provocado pela Restauração dos Bourbon na França. Houve um desemprego em massa da gente napoleônica ou que prestava serviços ao imperador caído. O horizonte profissional deles se estreitara, e o Brasil passou a ser uma esperança.


Ocorreu, de fato, uma feliz coincidência que a intenção do Conde da Barca em criar uma Academia de Belas Artes no Rio de Janeiro combinasse com o desamparo em que os das belas artes se encontravam naquele momento em Paris.


Taunay, independentemente das negociações de Lebreton, chegou a remeter cartas diretamente para o casal real português oferecendo-se como instrutor artístico dos jovens príncipes. Há de considerar como fator de peso na decisão deles a atração pelo exotismo, pela existência de uma corte européia em meio às florestas do Rio de Janeiro, ocorrência única em toda a América. Além disso, o fascínio pelos tipos estranhos, as figuras bizarras com que iriam se deparar, os indígenas cor de cobre, os africanos semidesnudos, o calor intenso abrandado pelo ar marinho, a paisagem fantástica, paradisíaca.


Finalmente, Lebreton conseguiu reunir seu grupo no cais do Havre para a viagem de dois meses em direção ao Brasil. Zarparam no dia 22 de janeiro de 1816 (*)

(*) Além de Lebreton, faziam parte da Missão Nicolas-Antoine Taunay, seu irmão mais novo, o escultor Auguste-Marie Taunay;, aquele cujo nome tornou-se sinônimo das artes do Brasil colonial, o pintor Jean-Baptista Debret, primo de David; o arquiteto Grandjean de Montigny; o gravador Charles Pradier, e uma série de outros auxiliares, sendo que muitos deles viajaram com suas famílias.

A colônia Lebreton

Ao chegarem na baia de Guanabara no dia 22 de março de 1816, chefiados por Lebreton, depararam-se com uma cena inesperada. O céu cobria-se de fogos de artifício. A rainha D.Maria I, a louca, morrera dois dias antes, em 20 de março, e os ares cobriam-se de lágrimas artificiais.


Recém instalados e servidos pela escravaria, tratados como hóspedes de D.João, foram convocados a fazer projetos para a cerimônia pública da futura coroação do Regente transformado em Rei.


Em seguida, em 12 de outubro de 1816, firmaram um contrato que os obrigava a uma permanência de seis anos no Brasil. A eclosão da Revolução de 1817 no Recife, entretanto, fez com que as autoridades portuguesas transferissem o grande evento para o ano de 1818, quando, aí sim, os franceses colocaram em ação sua imaginação cenográfica com grande sucesso.


Um dos objetivos dos viajantes, como se viu, era fundar uma Academia de Belas-Artes nos moldes da francesa. O arquiteto Grandjean de Montigny foi convocado pelo Conde da Barca para realizar o primeiro projeto que abrigaria a futuro palácio das artes.


Contudo, uma série de dificuldades, tais como a resistência de outros artistas de origem portuguesa e mesmo a dos brasileiros despeitados, fizeram com que muitos deles começassem a dar aulas de pintura sem nenhum respaldo da corte ou de um prédio qualificado para tal fim.


As dificuldades aumentaram devido a atitude persecutória do cônsul francês Maler que intrigava a corte contra Lebreton e o os outros, acusando-os de serem do partido bonapastista, ideologicamente hostis aos soberanos legitimistas. Cansado e doente, Lebreton faleceu melancolicamente no seu retiro na praia do Flamengo em 9 de junho de 1819.


Somente dez anos depois da chegada deles, em 1826, é que a escola de artes foi posta a funcionar.

A paisagem seduz Taunay

Taunay( retrato de Boilly, 1825)
Taunay inclinou-se preferencialmente pelo paisagismo. Deixou-se levar pela natureza prodigiosa que cercava a baia da Guanabara. Que a vida cotidiana e as cenas cortesãs ficassem entregues a Debret. Ainda que os críticos apontem que suas vistas do Rio de Janeiro assemelham-se muito às estampas romanas, especialmente no que toca as tonalidades do casario, que lembram o ocre da capital papal, a luminosidade dos seus quadros é fantástica e a perspectiva de uma precisão cartesiana.


No Brasil ele abandonou as telas históricas. Napoleão estava encadeado na ilha de Santa Helena e com ele foram-se os desfiles militares e as batalhas com as grandiloqüência dos canhões. O artista então se concentrou no que estava à mão. Aquela esplendorosa baia, os morros estranhos, altos e arredondados, o céu azul e as águas mansas que batiam nos embarcadouros. A beleza em estado puro que todo dia, ao por do sol, erguia-se a sua frente.


Era a Arcádia dos poetas revivida nos trópicos (suas paisagens principais foram as diversas vistas da floresta da Tijuca, a vista do terraço do convento de Santo Antônio, a vista da baia da Guanabara e do Largo da Carioca, a vista da baia dos altos da Boa Vista, a vista do Rio de Janeiro da colina da Glória, a vista da Ponta do Calabouço, a vista da baia do Botafogo, a vista do Pão de Açúcar, a vista do Largo do Machado em Laranjeiras, vista do Outeiro e da igreja da Glória, vista da baia da Guanabara, etc...)


A morte de Lebreton e a nomeação do pintor português Henrique José da Silva para a Academia Imperial de Belas Artes, que ele considerava desqualificado para a função, foi a gota d´água na insatisfação de Taunay (ainda que a Academia estivesse somente “no papel”). Ele é quem pensava ser o indicado. Sobre essa mesma nomeação, Debret, sempre irônico, disse que a maior qualificação do escolhido era o fato dele “ter 12 filhos e viver na penúria”. Taunay, que já vivia bem afastado dos demais colegas da Missão, decidiu então voltar para Paris em 1821.

Bibliografia

- Belluzzo, Ana Maria Moraes – O Brasil dos Viajantes. São Paulo/Rio de Janeiro: Metalivros-Objetiva,1999.


- Debret, J-B. Viagem Pitoresca e Histórica ao Brasil. São Paulo, USP, 1978, 2 v.


- Lago, Pedro Correa do – Taunay e o Brasil. Obra Completa. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.


- Norton, Luís – A Corte de Portugal no Brasil. São Paulo: Editora Nacional, 1938.


- Schwartz, Lília M .O Sol do Brasil. São Paulo: Cia. das Letras, 2008.


- Schwartz, Lilia M.(org.) - Nicolas-Antoine Taunay no Brasil. Uma leitura dos trópicos. São Paulo. Sextante, 2008.


- Taunay, Afonso de E. – A Missão Artística de 1816 – Brasília Editora Universidade de Brasília, 1983.



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