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Nicolas-Antoine Taunay sob o sol do Brasil (Parte I)
Coragem pessoal e amor à arte, conjugadas, explicam a temerária decisão do pintor francês Nicolas-Antoine Taunay de atravessar o Atlântico para vir a instalar-se no Rio de Janeiro em 1816. Feito digno de registrar não somente pelos perigos de uma viagem marítima naqueles tempos tão inseguros, mas pelo fato dele ter então 60 anos. Idade avançada para refazer a vida numa terra que lhe era estranha, nos trópicos, sob o sol do Brasil.
No entourage da imperatriz Josefina
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Paisagem carioca de N-A. Taunay (1818)
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Taunay, descendente de uma família de artistas e decoradores, que exerceu seu talento na célebre industria de porcelana de Sèvres, nas proximidades de Paris, não era um pintor desconhecido ao desembarcar no Rio de Janeiro. Ao contrário, junto com alguns nomes importantes das artes francesas - Pierre-Paul Proudhon, Jean-Baptiste Isabey, Antoine-Jean Gros e Louis-Léopold Boilly - , ele fazia parte do seleto grupo que compunha “os artistas da imperatriz”, Josefina (1763-1814), a esposa de Napoleão.
Por diante deles todos, pairava o nome de Jacques Louis David (1748-1825), o mais prestigiado artista do neoclassicismo europeu, um autêntico chefe-de-escola, um ex-jacobino que fizera espetaculares encenações cívicas para a Revolução, e que depois aderiu inteiramente ao império e a Napoleão.
Taunay, que também era alto membro do Instituto de France, setor das Belas-Artes, chegou a participar em 1802 de uma comissão responsável pelo restauro de algumas obras-primas trazidas da Itália, como espólio de guerra pelo então cônsul Bonaparte. Tratava-se de alguém que privava com as altas esferas do governo e que recebia encomendas diretamente do general conquistador (uma das telas que caiu no agrado de Napoleão foi a que retratou a entrada das tropas francesas na cidade de Munique, onde se vê o povo e os burgueses manifestando simpatias pelo ocupante).
Posição alcançada que lhe permitiu amealhar um certo pecúlio extremamente útil quando, depois da derrota francesa em Waterloo, o império napoleônico se dissolveu.
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O atelier de Isabey, os novos artistas da revolução ( Boilly, 1798)
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Numa tela de Louis-Léopold Boilly dedicada aos pintores do tempo da Revolução, exposta em 1799, intitulada o Atelier de Isabey, depara-se com a emergência de uma nova elite de artistas plásticos. São homens que perderam a aparência de serem subalternos. Ao contrário, confabulam a favor de uma nova situação para a arte e para o artista numa era republicana na qual o complicado sistema hierárquico anterior caducara. São artistas-empresários, homens livres altivos, dotados de talento, e não mais súditos da monarquia ou vassalos dos nobres.
Na cena, em meio a mais de trinta colegas, esta presente Nicolas-Antoine Taunay, já com cabelos bem brancos e com acentuado problema de visão, o que o obrigava a ter óculos de grau bem avançado. É esta elite de coloristas que vai encontrar abrigo na corte de novos-ricos inaugurada por Napoleão.
O cônsul, depois imperador, exigia deles o censo de grandeza. De estarem testemunhando episódios históricos fenomenais, de conquistas e batalhas heróicas como a Europa jamais vira desde o fim de Roma. A função deles, napoleões das tintas, armados com suas paletas e pincéis, era irmanarem-se ao novo César na estupenda aventura que se oferecia de poderem imortalizar em quadros as glórias da França obtidas nos campos inimigos.
Taunay atendeu-o de todo coração, concebendo inúmeras cenas dedicadas às campanhas do grande corso (Exterieur d´un hôpital militaire provisoire en Italie, de 1798; L´armée française descendant de Saint-Bernard, de 1808; Le passage de la Guadarrama, de 1812; Entrée de la Garde Impériale sous l´arc de triomphe...en Patin, de 1810; Entrée de Sa Majesté l´Empereur des Français dans la ville de Munich, de 1806; La bataille du pont de Lodi, de 1810). Obras que mostram como Taunay era um exímio colorista e magnífico cenarista, ao tempo que se mantinha fiel ao gosto pelo paisagismo que tanto ele iria exercer mais tarde no Rio de Janeiro.
A mesma ligação com o “Homem dos Séculos”, como muitos chamavam Napoleão, deu-se com Jean-Baptiste Debret que encantou o imperador com o quadro composto em 1806 denominado “Honremos a coragem mal compensada”, inspirado numa situação real vivida pelo grande general e por dois dos seus marechais após uma batalha vencida.
Por mais que muitos artistas identificados com a causa bonapartista, agora em desgraça, tentassem manter-se nos cargos, o retorno definitivo dos Bourbon ao poder, em 1815, tornou isso inviável. Viram que a situação deles era insustentável. Taunay então redigiu uma carta-licença, na verdade uma renúncia às suas funções no Instituto de France de Paris alegando aprontar-se para uma viagem distante.
Em seguida, o próprio secretário-geral das Belas-Artes, o pintor Joachim Lebreton (1760-1819), com quem regulava de idade, também o acompanhou rumo à terra das palmeiras, visto que recebera a proposta de Marialva, o embaixador português em Paris, para embarcar para o Brasil.
A iniciativa deste episódio da viagem teria partido dos artistas franceses e não de nenhuma figura proeminente da Corte Portuguesa ainda exilada nos trópicos. Isto é o que assegura Lilia M. Schwartz, sem dúvida a maior historiadora da cultura do Brasil neste momento, uma infatigável pesquisadora do período joanino e do império dos Bragança.
Para ela, o governo português somente aprovou o projeto da vinda deles quando os artistas e seus familiares, num total de 40 pessoas, partindo do Havre, chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do Calphe, um brigue americano. Por mais que se mencione o Conde da Barca ou a atuação do Conde de Marialva, ela assegura que foram os franceses quem insistiram primeiro em ofertar-se. Quem providenciou os recursos para o translado deles foi José Maria de Britto, um ativo ministro de D. João em Paris, que foi quem trocou correspondência com Lebreton e conseguiu o aporte financeiro no valor de 10 mil francos-ouro para custear as despesas da maioria dos integrantes da Missão Francesa e sua instalação no Novo Mundo. (*)
(*) A titulo de curiosidade, quem pôs Marialva em contato com Lebreton foi o naturalista alemão Alexander von Humboldt ,que andara pela Amazônia nos começos do século XIX, e que havia sido impedido de penetrar na parte portuguesa da floresta sob suspeição de ser espião.
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